Periódico galego de informaçom crítica

A longa travesia das remeiras

por
daniel vázquez
trai­nheira de cabo da cruz na re­gata de hon­dar­ri­bia | da­niel váz­quez

Como em mui­tos ou­tros âm­bi­tos o mundo do remo tam­bém está cheio de ma­chismo. Escuita-se isso de “já te­nhem mais di­rei­tos que nós” e nom é es­tra­nho ou­vir um re­meiro quei­xar-se dos “be­ne­fí­cios” que ob­te­nhem as suas com­pa­nhei­ras polo feito de se­rem mu­lhe­res. Entre es­tes be­ne­fí­cios está que o club com­pre um jogo de re­mos no­vos para a equipa fe­mi­nina quando a equipa mas­cu­lina tem três e elas até agora es­ta­vam a usar um jogo de re­mos re­ci­cla­dos que eles des­bo­ta­ram logo de usa-los du­rante três ou qua­tro tem­po­ra­das. Ou que as re­ga­tas fe­mi­ni­nas tam­bém se­jam re­trans­mi­ti­das por te­le­vi­som e deste jeito haja se mova o ho­rá­rio em meia hora da com­pe­ti­çom dos ho­mens, quando a te­le­vi­som só re­trans­mi­tirá umha re­gata de mu­lhe­res por cada três mas­cu­li­nas.

Os avan­ços

"Nós vínhamos de ser ganhadoras e eles nem se classificaram para a final, mas quando o clube compra um batel novo é para eles"

Graças às de­man­das e pro­tes­tas de mui­tas re­mei­ras, nos úl­ti­mos anos de­rom-se pas­sos im­por­tan­tes cara a nor­ma­li­za­çom da si­tu­a­çom da mu­lher no remo. No ano 1998 ainda nom ti­nham per­mi­tido par­ti­ci­par em cam­pe­o­na­tos es­ta­tais em ne­nhuma das mo­da­li­da­des de banco fixo. Precisamente até o cam­pe­o­nato es­ta­tal de ba­teis de 1998, ce­le­brado em Santander, as re­mei­ras só po­diam par­ti­ci­par no que se de­no­mi­nava tro­féu FER que se dis­pu­tava si­mul­ta­ne­a­mente ao cam­pe­o­nato es­ta­tal dos ho­mens mas no que nom se en­tre­ga­vam ban­dei­ras de cam­pe­oas ou me­da­lhas às equi­pas que con­se­guiam en­trar no pó­dio. Em essa edi­çom, as re­mei­ras ga­le­gas de Vila de Cangas re­par­ti­rom ca­mi­so­las en­tre o resto de equi­pas com a le­genda “nom ao tro­féu FER” para le­va­rem-as ao su­bi­rem ao palco de au­to­ri­da­des onde se en­tre­gava o men­ci­o­nado pré­mio. Posteriormente, su­bi­rom com uma faixa para pro­tes­tar con­tra a dis­cri­mi­na­çom à que es­ta­vam sub­me­ti­das. Entom, os re­pre­sen­tan­tes da Federaçom vi­rom-se for­ça­dos a re­par­ti­rem en­tre as ra­pa­ri­gas as me­da­lhas que es­ta­vam re­ser­va­das para os su­plen­tes das equi­pas mas­cu­li­nas. Possivelmente este ato fosse um ponto de in­fle­xom para o re­co­nhe­ci­mento dos di­rei­tos das re­mei­ras.

Anos de­pois já po­diam com­pe­tir em ba­tel e trai­nhei­ri­nhas, as em­bar­ca­çons mais pe­que­nas das três exis­ten­tes na mo­da­li­dade de banco fixo, mas a trai­nheira ainda se man­ti­nha proi­bida para as mu­lhe­res. No ve­rao de 2005, na lo­ca­li­dade de Hondarribia (Euskal Herria) ce­le­brou-se a pri­meira re­gata fe­mi­nina de trai­nhei­ras da his­tó­ria, mas de forma nom ofi­cial e sem pré­mio eco­nó­mico. Esta re­gata foi ga­nhada por umha equipa ga­lega, Cabo da Cruz, e a pe­sar de ca­re­cer de trans­cen­dên­cia me­diá­tica, foi o iní­cio das re­ga­tas de trai­nhei­ras fe­mi­ni­nas.

Em Setembro de 2008 or­ga­niza-se a pri­meira ban­deira fe­mi­nina da Kontxa, a re­gata de maior pres­tí­gio no mundo do remo, que se ce­le­bra na sua mo­da­li­dade mas­cu­lina desde 1879. Meses mais tarde, o 14 de Janeiro de 2009 pre­senta-se em Donostia a liga fe­mi­nina de trai­nhei­ras, com o apoio da ACT (Asociación de Clubs de Traineras), e com a pre­sença do Lehendakari Juan José Ibarretxe. Cumpre lem­brar que tanto a pri­meira edi­çom da ban­deira da Kontxa como da liga som con­quis­ta­das por umha equipa ga­lega, um com­bi­nado for­mado por re­mei­ras de Cabo da Cruz, Chapela e Samertolameu de Meira.

O tra­ba­lho pen­dente

Protesto das re­mei­ras do club Vila de Cangas du­rante o cam­pi­o­nato es­ta­tal de ba­téis, em Santander em 1998

A si­tu­a­çom do remo fe­mi­nino me­lho­rou no­ta­vel­mente du­rante os úl­ti­mos vinte anos e to­dos es­tes avan­ços fo­rom im­por­tan­tes, im­pres­cin­dí­veis, para o re­co­nhe­ci­mento dos di­rei­tos das re­mei­ras, mas no dia a dia a de­si­gual­dade é no­tó­ria; umha des­por­tista ga­nha­dora de três Kontxas co­menta que “an­tes da re­gata mas­cu­lina da Kontxa, os re­mei­ros do meu club, mo­ti­va­dos, di­zem em tom de brin­ca­deira que vam ser a pri­meira equipa ga­lega em ga­nhar essa ban­deira. ‘Eu te­nho tres’, res­pos­tei or­gu­lhosa. Os com­pa­nhei­ros que es­ta­vam os re­dor bo­ta­rom a rir, e re­tru­ca­rom ‘fa­la­mos da Kontxa de ver­dade’.” Outra re­meira, so­bre a mesma com­pe­ti­çom, pom ou­tro exem­plo: “cla­si­fi­car-se para a fi­nal da Kontxa é algo ines­que­cí­vel, mas a falta de apoio é des­mo­ra­li­za­dora. Vermos, por exem­plo, que a vi­a­gem que está pro­gra­mada para as si­a­rei­ras se can­cela, já que a equipa mas­cu­lina nom se clas­si­fi­cou… Dam ga­nas de cho­rar.”

Formalmente ainda resta muito por fa­zer: os pré­mios eco­nó­mi­cos de mui­tas com­pe­ti­çons som in­fe­ri­o­res na ca­te­go­ria fe­mi­nina, e em ou­tras o nú­mero de em­bar­ca­çons par­ti­ci­pan­tes é muito in­fe­rior. Na liga fe­mi­nina só per­mi­tem com­pe­tir a qua­tro trai­nhei­ras en­quanto na liga mas­cu­lina há doze. Em ou­tras oca­sons nom re­trans­mi­tem a re­gata fe­mi­nina en­quanto sim as re­ga­tas mas­cu­li­nas, mas nunca su­cede ao con­trá­rio. Na prá­tica, em caso de ter que su­pri­mir-se a emis­som de al­guma re­gata sem­pre é a fe­mi­nina a que fica fora.

Em ques­tons for­mais, fi­cam cou­sas por me­lho­rar, mas do ponto de vista de mui­tas re­mei­ras, onde mais há que fa­zer é no dia a dia, nas re­la­çons de po­der den­tro dos clubs: “Nós ví­nha­mos que ser cam­pi­oas e eles nem se cla­si­fi­ca­ram para a fi­nal, mas quando o club com­pra um ba­tel novo, e é para eles.” re­co­nhece ou­tra des­por­tista.

No re­parto do es­paço tam­bém há dis­cri­mi­na­çom, e jus­ti­fi­cado na in­fe­ri­o­ri­dade nu­mé­rica, as mu­lhe­res saem ha­bi­tu­al­mente pior pa­ra­das; para elas os ves­tiá­rios mais pe­que­nos ou em pi­o­res con­di­çons; para elas os re­mos e o barco mais ve­lho… Umha des­por­tista de­nún­cia ”quando ades­trá­va­mos no gi­ná­sio, as ra­pa­ri­gas tí­nha­mos que pa­rar e dei­xar-lhe o sí­tio aos ho­mens as­sim que eles che­ga­vam. A pe­sar de ob­ter­mos me­lho­res re­sul­ta­dos que eles.”
Para além de que nom exis­tir umha adap­ta­çom dos trei­nos às par­ti­cu­la­ri­da­des fí­si­cas das mu­lhe­res li­ga­das à mens­tru­a­çom “ima­gina-te fa­zer umha se­mana de carga (se­mana mais dura den­tro do ci­clo do treino) quando che vem a re­gra.” ou mesmo à gra­vi­dez, “no cam­pe­o­nato ga­lego eu es­tava de qua­tro me­ses”, re­co­nhece ou­tra com­pa­nheira.

Nos clubs, como es­pa­ços mis­tos e sem tra­ba­lho para iden­ti­fi­ca­çom de ati­tu­des ma­chis­tas, o acoso por parte dos com­pa­nhei­ros acon­tece frente o con­sen­ti­mento ge­ra­li­zado “al­gum pren­sará que so­mos sur­das, há pouco que es­cui­tei ‘mira como se lhe mar­cam as ca­chas com es­sas ma­lhas!’ e to­dos a rir-lhe a ba­bo­sada”.

O feito de que já nas ca­te­go­rias in­fe­ri­o­res haja só umha nena por cada dous ou tres ne­nos nom é ca­sual. Para mui­tos, o remo é um des­porto duro, para ho­mens com mui­tos pe­los no peito e ca­los nas maos, um des­mo­bi­li­za­dor para as ra­pa­ri­gas por ques­ti­o­nar a ideia de fe­mi­ni­dade. Esta men­ta­li­dade por parte ainda de muita gente pro­voca que as ca­ti­vas se­jam es­ti­mu­la­das para ati­vi­da­des mais “fe­mi­ni­nas”.

Assim com tanto tra­ba­lho que fa­zer por di­ante, cum­pri­ria se­guir a má­xima de Kelley Temple: “Os ho­mens que de­se­jam ser fe­mi­nis­tas nom pre­ci­sam de um lu­gar de­fi­nido den­tro do fe­mi­nismo. Eles de­vem to­mar o es­paço que já te­nhem den­tro da so­ci­e­dade e fazê-lo fe­mi­nista”. Pois nom nos queda pouco tra­ba­lho por di­ante no remo, e já es­ta­mos tar­dando.

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