Periódico galego de informaçom crítica

A-normalidade

por
al­berto du­rero

Na atu­a­li­dade, os li­mi­tes da nor­ma­li­dade pa­re­cem es­trei­tar-se ao fre­né­tico ritmo no que au­menta a di­ag­nose de do­en­ças fí­si­cas, men­tais ou sen­so­ri­ais que o sa­ber-po­der mé­dico san­ci­ona como “dis­ca­pa­ci­da­des”, le­van­tando um muro -com pre­te­sons ci­en­tí­fi­cas- que di­vide, se­gundo Ferrante, di­co­to­mi­ca­mente a exis­tên­cia hu­mana en­tre o normal/saudável/formoso e o anormal/doente/feio.

O ser hu­mano já nom en­con­tra re­fú­gio onde ma­ni­fes­tar na­tu­ral­mente a sua di­ver­si­dade cons­ti­tu­tiva. É per­se­guido por umha vaga de es­pe­ci­a­lis­tas que o di­se­ci­o­nam como ob­jeto de co­nhe­ci­mento, den­tro de umha am­pla rede dis­ci­pli­nar que pro­cura o seu ades­tra­mento, adap­ta­çom, clas­si­fi­ca­çom e nor­ma­li­za­çom, tal e como o ex­pres­sara Foucault. A hi­pe­ra­ti­vi­dade, ou ex­cesso de mo­vi­mento, po­de­ria ser o teu tras­torno se fos­ses umha cri­ança abor­re­cida na es­cola; o es­tresse, polo con­trá­rio, se­ria-te di­ag­nos­ti­cado polo mé­dico da em­presa se fos­ses um tra­ba­lha­dor que nom lo­gra adap­tar-se ao ritmo im­posto polo pa­trom. Em am­bos os ca­sos o sa­ber-po­der mé­dico des­po­li­tiza os con­fli­tos, res­pe­ti­va­mente, ins­cre­vendo-os no âm­bito mé­dico do dé­fice in­di­vi­dual.

Mas, como é pos­sí­vel que a nor­ma­li­za­çom ope­rada pola ci­ên­cia mé­dica se fosse ins­ta­lando nos mo­dos de re­gu­la­men­ta­çom das nos­sas re­la­çons quo­ti­di­a­nas? A ge­ne­a­lo­gia deste im­pe­ri­a­lismo mé­dico está li­gada à apa­ri­çom das téc­ni­cas de po­der dis­ci­pli­nar, no sé­culo XVIII. A par­tir de aí, o po­der tran­sita cara umha nova mo­da­li­dade, se­gundo a qual, nom será a lei (de ins­pi­ra­çom di­vina) a que jus­ti­fica a san­çom, se­nom a norma (como cons­tru­çom ci­en­tí­fica).

O coletivo de pessoas com capacidades diferentes às consideradas próprias de um corpo saudável foi ciente de que utilizar a palavra “discapacidade” implicava autodefinir-se negativamente

Naquela al­tura, des­vi­a­das da norma mé­dica, es­ta­vam as pes­soas con­ce­bi­das como anor­mais. Situaçom que jus­ti­fi­cava a sua ins­ti­tu­ci­o­na­li­za­çom num mo­mento his­tó­rico em que as ne­ces­si­da­des fun­ci­o­nais do Capitalismo nas­cente exi­giam de umha abun­dante mao de obra efi­caz e pro­du­tiva. A força de tra­ba­lho “dis­ca­pa­ci­tada” ou “ine­fi­caz”, por­tanto, cons­ti­tuía um ex­ce­dente pres­cin­dí­vel que de­via ser apar­tado do pro­cesso pro­du­tivo. Como con­sequên­cia, a ine­fi­ci­ên­cia eco­nó­mica era um dos fa­to­res que mo­ti­vava a cri­a­çom da “anor­ma­li­dade fi­si­o­ló­gica”, como ob­jeto de es­tudo da me­di­cina, ad­qui­rindo o sta­tus de na­tu­ral, quando em re­a­li­dade era fruto de umha cons­tru­çom so­cial e his­tó­rica de ca­rá­ter ar­bi­trá­rio, como nos lem­bra­ria Bourdieu.

Ao longo da his­tó­ria, de­sen­vol­ve­ram-se di­fe­ren­tes mo­de­los epis­te­mo­ló­gi­cos que tra­ta­ram de es­tu­dar a re­a­li­dade dos cor­pos nom nor­ma­ti­vos desde di­fe­ren­tes pers­pe­ti­vas. O mo­delo so­cial, con­fron­tar-se-ia ao mé­dico, con­si­de­rando a dis­ca­pa­ci­dade nom como um facto na­tu­ral ou fi­si­o­ló­gico, se­nom como umha ex­pe­ri­ên­cia de opres­som, mar­gi­na­li­za­çom e ex­clu­som cara um grupo de pes­soas por pos­suí­rem ca­pa­ci­da­des di­fe­ren­tes às con­si­de­ra­das pró­prias de um corpo sau­dá­vel. O pró­prio co­le­tivo foi ci­ente de que uti­li­zar a pa­la­vra “dis­ca­pa­ci­dade” im­pli­cava au­to­de­fi­nir-se ne­ga­ti­va­mente, su­bal­ter­ni­zando-se ao mo­delo nor­ma­tivo ca­pa­ci­tista. Nasce as­sim a ideia de di­ver­si­dade fun­ci­o­nal como fer­ra­menta ide­o­ló­gica, da mao do mo­vi­mento de fi­lo­so­fia in­de­pen­dente, para de­no­tar os di­fe­ren­tes mo­dos de agir que as pes­soas ma­ni­fes­tam, evi­tando a hi­e­rar­qui­za­çom en­tre eles.

A si­tu­a­çom de pri­vi­lé­gio que ainda tem o su­jeito que ocupa o cume da pi­râ­mide so­cial nor­ma­tiva: o ho­mem branco, oci­den­tal, he­te­ros­se­xual, de classe alta e “ca­paz” tem os dias con­ta­dos, afor­tu­na­da­mente.

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