Periódico galego de informaçom crítica

A saúde nom é o primeiro

por
di­ego max

A pri­som em que me en­con­tro nom está sa­tu­rada por umha ava­lan­cha de in­gres­sos vo­lun­tá­rios. Aqui nom há co­vid (vi­ve­mos numha bo­lha es­tri­ta­mente iso­lada do ex­te­rior) e as ne­ces­si­da­des ma­te­ri­ais bá­si­cas es­tám co­ber­tas (três co­mi­das quen­tes, cama, teito… e até tv, bi­bli­o­teca e gi­ná­sio), mas, por al­gum mo­tivo, a gente con­ti­nua pre­fe­rindo es­tar em li­ber­dade, mesmo sob o risco de en­fer­mar e até morrer.

Talvez seja por isso que me su­blevo ante o sim­plismo e a ar­ro­gán­cia com que po­lí­ti­cos, “tui­tei­ros” e  ter­tu­li­a­nos sen­ten­ciam que “a saúde é o pri­meiro” para de­sar­mar qual­quer crí­tica ao corte de li­ber­da­des im­posto po­los go­ver­nos no con­texto desta pan­de­mia. Ante um con­flito de va­lo­res e de in­te­res­ses que ob­je­ti­va­mente pa­rece pro­fundo e com­plexo, a so­ci­e­dade dos 280 ca­rac­te­res re­fu­gia-se no es­tigma (ter­ra­pla­nis­tas!) e no in­sulto (ul­tra­di­rei­tis­tas!). A ne­ces­si­dade de tra­du­zir em ódio cara a al­guém tanta in­se­gu­rança e tanta frus­tra­çom, prima so­bre a di­fi­cul­dade de pen­sar se­ri­a­mente pro­ble­mas éti­cos e ju­rí­di­cos de calado.

- “Qual é o preço de nom enfermar?”

- “Qualquer preço!”- res­pon­de­mos cheios de ra­zom, e im­pli­ci­ta­mente ofen­di­dos ante quem pre­tenda ar­gu­men­tar que pode ter sido pôr em risco a saúde. Mas nom sem­pre foi as­sim: houvo um tempo, an­tes de que o pá­nico se apo­de­rasse de nós, em que a ci­da­da­nia “flir­tava” com a do­ença (fu­mava, co­mia do­nuts, quei­mava ga­so­lina) sem que as ter­tú­lias do prime-time fa­las­sem em “ne­ga­ci­o­nis­tas” e “ir­res­pon­sá­veis”. E, na era dos nos­sos avós, mi­lhons de se­res hu­ma­nos pre­fe­rí­rom mor­rer a vi­ver baixo a ditadura.

Difundir des­con­fi­ança e ofe­re­cer se­gu­rança foi, clas­si­ca­mente, a es­tra­té­gia do fas­cismo. Somemos-lhe a sim­pli­fi­ca­çom e a ri­di­cu­la­ri­za­çom do opo­nente, e a pri­ma­zia dos re­sul­ta­dos prá­ti­cos so­bre as con­si­de­ra­çons éti­cas. Mussolini de­fi­nia o seu mo­vi­mento como “o prag­ma­tismo ab­so­luto apli­cado à po­lí­tica”. Se do que se trata é de sal­var vi­das, o único que im­porta é sal­var vi­das: eis umha má­xima que as­si­na­ria qual­quer tirano.

Se do que se trata é de sal­var vi­das, o único que im­porta é sal­var vi­das: eis umha má­xima que as­si­na­ria qual­quer tirano

Nom cai­a­mos na ar­ma­di­lha de des­pres­ti­giar e odiar toda con­tes­ta­çom ao maior corte de li­ber­da­des que tem so­frido a nossa ge­ra­çom. Há ra­zons de peso para ques­ti­o­nar que a po­lí­cia deva per­se­guir os na­mo­ra­dos que se ci­tam na noite, mas se nom dei­xa­mos que es­tas se for­mu­lem em ter­mos éti­cos e po­lí­ti­cos, aca­ba­rám nos bra­ços da re­a­li­dade cons­pi­ra­ci­o­nista. Em vez de ope­ra­çons po­li­ci­ais ao vivo dis­sol­vendo fes­tas pri­va­das, a te­le­vi­som dum país de­mo­crá­tico de­ve­ria emi­tir de­ba­tes em que fi­ló­so­fos, his­to­ri­a­do­res ou ju­ris­tas fa­las­sem se­ri­a­mente so­bre a ori­gem do to­ta­li­ta­rismo. E ex­pli­cas­sem que a vida hu­mana se ca­rac­te­riza mais polo seu con­teúdo do que polo seu continente.

A saúde nom é o pri­meiro, mas nom por­que exista ou­tro bem que deva pri­mar so­bre ela. Nem a eco­no­mia, nem a se­gu­rança, nem a li­ber­dade som tam­pouco va­lo­res ab­so­lu­tos. A vida digna é um equi­lí­brio pre­cá­rio de ne­ces­si­da­des fun­da­men­tais, man­tido por prin­cí­pios opos­tos em ten­som per­ma­nente. Quando um ame­aça com sub­me­ter o resto, o res­pon­sá­vel é res­pei­tar e de­fen­der os seus contra-pesos.

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