Periódico galego de informaçom crítica

Abandonar/ abandonar-se

por
charo lo­pes

Após A fé do con­verso (2019), a Através Editora deu a lume em 2021 o úl­timo li­vro de Mário Herrero Valeiro, Ética do aban­dono. O po­eta rein­te­gra­ci­o­nista (tam­bém so­ci­o­lin­guista e tra­du­tor) é res­pon­sá­vel por umha pro­du­çom lí­rica cons­tante com que foi cons­truindo nas três úl­ti­mas dé­ca­das umha das tra­je­tó­rias mais só­li­das e au­tó­no­mas da po­e­sia ga­lega con­tem­po­râ­nea. Entre esta pro­du­çom en­con­tra­mos vo­lu­mes ga­lar­do­a­dos quer na Galiza quer no con­junto do es­paço lu­só­fono, como No li­miar do si­lên­cio (VII Prémio Espiral Maior, 1999), Da vida con­clusa (Prémio Glória de Sant’Anna, 2015) ou A ra­zão do per­verso (X Prémio de Poesia Erótica Illas Sisargas, 2016).

Ética do aban­dono é umha obra com­posta por qua­tro sec­çons e um epí­logo, ar­ti­cu­la­das em volta da con­fron­ta­çom com o aban­dono e a so­li­dom que este deixa para trás. Um con­fronto que é sus­ci­tado por um acon­te­ci­mento bi­o­grá­fico, a morte do pai, que re­a­viva, des­car­na­da­mente, a cons­ci­ên­cia do pró­prio aban­dono. Mas nom se res­tringe o li­vro só ao âm­bito pes­soal: a par­tir desta si­tu­a­çom, o au­tor é ca­paz de se es­ten­der ao âm­bito do co­le­tivo e do so­cial, onde o de­sam­paro e o iso­la­mento re­fle­tem as fe­ri­das ainda nom fe­cha­das da re­cente pan­de­mia e dum ca­pi­ta­lismo vo­raz. Ambas as pers­pec­ti­vas con­ver­gem fi­nal­mente, en­tre­cru­zando-se o pes­soal com o so­cial, numha de­fron­ta­çom com as pró­prias me­mó­rias, fra­que­zas e li­mi­ta­çons que cul­mina com a sua acei­ta­çom (nom isenta de certa es­pe­rança). Destarte, Ética do aban­dono su­pom umha con­ti­nu­a­çom de re­per­tó­rios te­má­ti­cos ca­rac­te­rís­ti­cos da obra pré­via do au­tor co­ru­nhês, aqui apro­fun­da­dos e de­sen­vol­vi­dos, numha com­pre­en­som mais ca­bal dos seus di­ver­sos matizes.

Ética do aban­dono’ su­pom um marco na obra de Mário Herrero. Nas suas pá­gi­nas en­con­tra­mos umha po­e­sia ma­dura e aca­bada, que nos chama for­te­mente pola sua pro­fun­di­dade te­má­tica e pola sua per­fei­çom formal

O aban­dono e a vul­ne­ra­bi­li­dade en­con­tram, aliás, certo re­flexo no es­tilo. Assim, se te­ma­ti­ca­mente o li­vro atu­a­liza re­per­tó­rios an­te­ri­o­res, for­mal­mente su­pom umha su­pe­ra­çom, mar­cando umha plena ma­tu­ri­dade li­te­rá­ria. Nele, ve­mos umha po­e­sia for­te­mente de­pu­rada que, li­be­rada de tudo o su­pér­fluo,  deixa ape­nas o mais do­lo­ro­sa­mente es­sen­cial. É, pois, o de Ética do aban­dono um es­tilo equi­li­brado e só­brio, ca­rac­te­ri­zado por umha lin­gua­gem aberta e cor­ro­siva e umha “sin­taxe a es­prei­tar a vo­ra­gem” (como in­dica Carme Pais na con­tra­capa do li­vro). Esta nu­dez, po­rém, nom sig­ni­fica po­breza es­ti­lís­tica: longe disso, de­nota umha grande ha­bi­li­dade téc­nica que se ma­ni­festa no do­mí­nio ma­gis­tral do ritmo, da in­ter­tex­tu­a­li­dade ou das me­tá­fo­ras. É, em de­fi­ni­tivo, um es­tilo lú­cido e ela­bo­rado, fruito da ex­pe­ri­ên­cia e do co­nhe­ci­mento profundo.

Ética do aban­dono su­pom um marco na obra de Mário Herrero. Nas suas pá­gi­nas en­con­tra­mos umha po­e­sia ma­dura e aca­bada, que nos chama for­te­mente pola sua pro­fun­di­dade te­má­tica e pola sua per­fei­çom for­mal. Umha po­e­sia que con­forma um li­vro ma­duro e no­tó­rio que se erige como umha das obras ci­mei­ras da poé­tica ga­lega contemporânea.

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