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Ana Pontón: “Necessitamos pôr as instituiçons galegas ao serviço da Galiza”

por
mi­guel auria

AXVII Assembleia Nacional do BNG revalidou o liderado político de Ana Pontón e marcou objetivos como o fortalecimento da sua base organizativa ou a consecuçom de um maior apoio nos prósimos processos eleitorais. Uns dias depois dessa assembleia, a porta-voz nacional do BNG recebe-nos no seu gabinete no Parlamento, umha instituiçom que considera útil para tecer pontes com a sociedade galega, para refletir sobre os reptos que enfrenta o nacionalismo nesta etapa política. 

No BNG atual há umha men­sa­gem clara de que o ob­je­tivo é che­gar à Xunta; aliás o BNG é já umha or­ga­ni­za­çom com ex­pe­ri­ên­cia de go­verno. Fazendo umha com­pa­ra­tiva en­tre o BNG li­de­rado por Anxo Quintana, que che­gou ao go­verno em 2005, e o atual, que as­pira a atingi-lo em 2024, quais se­riam as se­me­lhan­ças e di­fe­ren­ças en­tre es­tes dous projetos?

O BNG tem um per­curso que vai além de quem es­ti­ver na sua por­ta­vo­zia na­ci­o­nal. É umha or­ga­ni­za­çom de­mo­crá­tica de base as­sem­blear e con­ti­nu­a­mos a ser um BNG que de­fende que Galiza é umha na­çom, que acha que tem que es­tar no dia-a-dia com os pro­ble­mas deste país e cons­truindo a al­ter­na­tiva, e que te­mos mui claro que para dar um grande salto nom po­de­mos ter à frente da Xunta um go­verno e um pre­si­dente que está a tra­ba­lhar con­tra os in­te­res­ses do país.  Necessitamos pôr as ins­ti­tui­çons ga­le­gas ao ser­viço da Galiza e esse é um repto de pri­meira mag­ni­tude que nos fi­xa­mos para os pró­xi­mos anos, pois como pro­jeto na­ci­o­nal te­mos que ter vo­ca­çom de re­al­mente con­tri­buir para li­de­rar o país e pro­du­zir umha grande mu­dança. Como fa­ze­mos isso? Pois eu acho que co­ne­tando com as mai­o­rias so­ci­ais, con­fi­ando na Galiza, con­fi­ando nas ga­le­gas e ga­le­gos e na ca­pa­ci­dade deste pro­jeto para po­der­mos che­gar a essa mai­o­ria. Eu som das pes­soas que acre­dito em que nom po­de­mos ser umha cor­rente de opi­niom, te­mos de nos con­ver­ter na força de­ter­mi­nante da Galiza. 

Nom po­de­mos ser umha cor­rente de opi­niom, te­mos que nos con­ver­ter na força de­ter­mi­nante da Galiza”

Qual é para o BNG, como or­ga­ni­za­çom na­ci­o­na­lista, o ro­teiro para se de­sen­vol­ver um pro­cesso de autodeterminaçom?

Há umha ques­tom que de­ba­te­mos muito nesta Assembleia, que tem a ver com que en­ten­der­mos a au­to­de­ter­mi­na­çom como um ato con­creto é um erro. Entendemo-la como um pro­cesso de to­mada de cons­ci­ên­cia e te­mos que ser re­a­lis­tas ao res­peito de qual é o ponto de par­tida em que es­ta­mos. E, so­bre­todo, te­mos de tra­ba­lhar para fa­zer en­ten­der à ci­da­da­nia que a de­fesa da so­be­ra­nia (que é a ca­pa­ci­dade de de­ci­dir), é bá­sica para me­lho­rar­mos as con­di­çons de vida do nosso país. Nessa rota em que es­ta­mos a tra­ba­lhar o im­por­tante é pas­sar­mos do abs­trato para o con­creto: fa­lar­mos em cou­sas como a ta­rifa elé­trica ga­lega ou em como aca­bar­mos com o es­pó­lio dos nos­sos re­cur­sos, ou por que a gente aqui tem de emi­grar, ou do in­justo que é para a Galiza que a chave do nosso di­nheiro es­teja em Madrid. Trata-se, por­tanto, de ir­mos a um pro­cesso em que te­nha­mos em conta a cons­ci­ên­cia que há no país e como fa­ze­mos en­ten­der as nos­sas pro­pos­tas e as nos­sas al­ter­na­ti­vas. E sendo cons­ci­en­tes de que nes­ses sal­tos que se ve­ri­fi­cam nou­tros lu­ga­res há umha his­tó­ria, umha his­tó­ria em que o na­ci­o­na­lismo tivo as res­pon­sa­bi­li­da­des de go­verno du­rante dé­ca­das. O repto em que es­ta­mos hoje na Galiza é con­se­guir­mos que com as ins­ti­tui­çons de au­to­go­verno que te­mos, ca­ti­vas e li­mi­ta­das, nós te­nha­mos a ca­pa­ci­dade para li­derá-las e pro­du­zir­mos mu­dan­ças be­ne­fi­ci­o­sas para o país tanto nas suas con­di­çons de vida como na cons­ci­ên­cia nacional. 

Entender a au­to­de­ter­mi­na­çom como um ato con­creto é um erro, é um pro­cesso de toma de consciência”

Na Galiza nos úl­ti­mos anos tem mu­dado a re­la­çom do BNG com for­ças in­de­pen­den­tis­tas mais pe­que­nas. O que achas que ache­gou isto ao BNG?

Penso que me­lho­ra­mos em nos co­nhe­cer­mos mais, fa­lar­mos mais e nos res­pei­tar­mos mais. E penso que isso é im­por­tante para todo o mundo, por­que vi­ve­mos num país que ne­ces­sita a soma de toda a gente para cons­truir­mos umha al­ter­na­tiva que te­nha os seus cen­tros de de­ci­som aqui, que de­fenda que Galiza é umha na­çom e que te­mos que avan­çar… Penso que nesse âm­bito to­das e to­dos atu­a­mos com ge­ne­ro­si­dade, com olhar alto e co­lo­cando por di­ante o im­por­tante, que é o país. 

Vivemos num país que ne­ces­sita a soma de to­dos e to­das para cons­truir umha al­ter­na­tiva que de­fenda que Galiza é umha naçom”

A ní­vel elei­to­ral, nom há medo a ter atin­gido um teito? Para onde pode me­drar agora o elei­to­rado do BNG?

Julgo que quem to­cou teito é o PP, e o que imos ver vai ser como baixa o PP e o BNG con­ti­nua a me­drar. Se ti­vés­se­mos a sen­sa­çom de que o na­ci­o­na­lismo nom é umha op­çom mai­o­ri­tá­ria es­ta­ría­mos a de­ser­tar dos gran­des ob­je­ti­vos que te­mos de ter para o país e, além do mais, es­ta­ría­mos a di­zer que nom con­fi­a­mos na ci­da­da­nia ga­lega e que as­su­mi­mos que o na­ci­o­na­lismo tem de ter um es­paço pe­queno. Eu acre­dito numha vo­ca­çom mai­o­ri­tá­ria do na­ci­o­na­lismo, acho que isso está no ADN da nossa or­ga­ni­za­çom desde que nasce e penso que te­mos que tra­ba­lhar com esse olhar largo. Realmente na Galiza há um grande sen­ti­mento de país e o repto que te­mos é tra­du­zir esse sen­ti­mento em ter­mos or­ga­ni­za­ti­vos, em ter­mos elei­to­rais e em ter­mos so­ci­ais. Penso que sem ga­le­gos e ga­le­gas por trás isto nom se pode fa­zer e tam­bém que te­mos de ter con­fi­ança no país, nas suas po­ten­ci­a­li­da­des e em que so­mos um pro­jeto para as mai­o­rias. Penso, por­tanto, que o nosso teito está mui longe e que o que te­mos de fa­zer é tra­ba­lhar para nos con­ver­ter­mos na força he­ge­mó­nica do país. 

O de­sa­fio que te­mos é tra­du­zir o sen­ti­mento de país em ter­mos or­ga­ni­za­ti­vos, em ter­mos elei­to­rais e em ter­mos sociais”

À hora de criar um mo­delo de país desde o na­ci­o­na­lismo, como con­ju­gar a de­fesa do ter­ri­tó­rio e dos di­rei­tos das pes­soas tra­ba­lha­do­ras, num mo­mento em que as in­dús­trias con­ta­mi­nan­tes te­nhem mais perto o seu feche? 

Acho que nom po­de­mos cair em fal­sos ma­ni­queís­mos. Estamos a fa­vor de umha tran­si­çom ener­gé­tica, mas pen­sa­mos que esta tem de ser justa. Por exem­plo, agora es­ta­mos a fa­lar no fe­che das cen­trais tér­mi­cas e nós di­ze­mos que, com efeito, há que ir cara umha des­car­bo­ni­za­çom da so­ci­e­dade, mas o que nom pode ser é que isso seja feito pe­na­li­zando as pes­soas tra­ba­lha­do­ras. Há que criar al­ter­na­ti­vas e tem de ha­ver in­ves­ti­men­tos da parte dos go­ver­nos cen­tral e ga­lego para ga­ran­tir­mos um de­sen­vol­vi­mento sus­ten­tá­vel e que haja opor­tu­ni­da­des aqui. Também abri­mos um de­bate quando fa­la­mos em que há que dei­xar atrás ele­men­tos con­ta­mi­nan­tes, como po­dem ser os car­bu­ran­tes, pois se a al­ter­na­tiva é que de sú­peto as pes­soas com me­nos renda nom po­dam com­prar um veí­culo por­que os car­ros elé­tri­cos te­nhem um custo mui alto, es­ta­re­mos a nos in­tro­du­zir numha so­ci­e­dade em que as di­fe­ren­ças de classe se­rám mai­o­res. Nom po­de­mos cair em fal­sas di­co­to­mias e te­mos de ter mui claro que quando fa­la­mos em umha tran­si­çom ener­gé­tica esta nom pode ser sus­ten­tá­vel nem justa se deixa atrás as mai­o­rias so­ci­ais do nosso país. 

mi­guel auria

E qual se­ria a pro­posta de mo­delo pro­du­tivo do BNG para o país?

Primeiro, pen­sa­mos que um país tem de pro­du­zir, que ter in­dús­tria, e pen­sa­mos que te­mos de fazê-lo de ma­neira sus­ten­tá­vel e que é pre­ciso nos apoi­ar­mos na­que­les se­to­res em que re­al­mente te­mos po­ten­ci­a­li­dade. Está-se a dar um de­bate mui im­por­tante so­bre a perda de po­pu­la­çom e o des­po­vo­a­mento de umha parte im­por­tante da Galiza e o que há por trás é que fô­rom aban­do­na­dos os se­to­res pri­má­rios e nom houvo nen­gumha al­ter­na­tiva. É umha au­tên­tica bar­ba­ri­dade que aqui nom es­te­ja­mos pro­du­zindo ali­men­tos ou que nom seja feita umha aposta por umha trans­for­ma­çom que gere um va­lor acres­cen­tado a es­ses ali­men­tos, ou que nom seja cla­ra­mente po­ten­ci­ado todo o que tem a ver com a ci­ên­cia, com a ino­va­çom como um ele­mento chave de de­sen­vol­vi­mento. Hoje, se algo nos en­si­nou a pan­de­mia, é que aí po­de­mos com­pe­tir e que, além do mais, esse as­peto é fun­da­men­tal para o fu­turo da hu­ma­ni­dade. Como país te­mos que es­tar aí, por­que se nom imos fi­car atrás nas gran­des trans­for­ma­çons que es­tám a acon­te­cer no mundo.

No es­tado há um go­verno que se di pro­gres­sista mas que está a in­cum­prir os ele­men­tos cen­trais do seu pro­grama. Acho que isto é um sin­toma das li­mi­ta­çons do re­gime de 78”

Isso im­pli­ca­ria a re­vi­ta­li­za­çom do ru­ral. Quais as me­di­das mais con­cre­tas para o ru­ral galego?

O ru­ral pre­cisa, em pri­meiro lu­gar, de ser­vi­ços. Nom é pos­sí­vel que a gente vaia vi­ver no ru­ral se nom há es­co­las, se nom há aten­çom mé­dica ou se nom ti­ver co­ne­xons de in­ter­net. Eu penso que a pri­meira res­pon­sa­bi­li­dade de um go­verno é que o que dele de­penda di­re­ta­mente es­teja cu­berto no ru­ral. E de­pois, evi­den­te­mente, se­riam pre­ci­sos pla­nos de de­sen­vol­vi­mento lo­cal para o âm­bito ru­ral e ha­ve­ria que ca­na­li­zar re­cur­sos nesse sen­tido. Penso que te­mos ex­pe­ri­ên­cias no país que de­mons­tram que quando há von­tade e re­cur­sos ge­ram-se pro­je­tos a pe­quena es­cala que som mui in­te­res­san­tes do ponto de vista pro­du­tivo, que ge­ram umha grande qua­li­dade de vida. Temos que pôr em va­lor que há fu­turo no ru­ral, como país é umha opor­tu­ni­dade que nom po­de­mos desaproveitar. 

mi­guel auria

Se che­gasse ao go­verno da Xunta quais se­riam as me­di­das mais ur­gen­tes que im­ple­men­ta­ria o BNG?

Falarmos a três anos vista quando te­mos um país que está em umha crise eco­nó­mica, quando aca­ba­mos de ver como te­mos a sa­ni­dade pú­blica, ou como nom se dá res­posta à crise que vi­ve­mos nas re­si­dên­cias… Penso que nom te­mos que fa­lar a três anos vista, te­mos que di­zer o que de­fen­de­mos para a Galiza de hoje. Nós pen­sa­mos que há que de­fen­der os ser­vi­ços pú­bli­cos, que há que pôr em pé um pro­jeto que per­mita criar em­prego e dar fu­turo à mo­ci­dade, que nom pode se­guir mi­grando ou su­por­tando a pre­ca­ri­e­dade como forma de vida. E aí está o maior fra­casso que po­de­mos ter como so­ci­e­dade: as­su­mir­mos que as ge­ra­çons que ve­nhem de­trás vam ter de vi­ver pior. Acho que este ponto de par­tida nom é vá­lido. Temos de di­zer que apos­ta­mos por um mo­delo com di­rei­tos so­ci­ais, com qua­li­dade de vida e com cri­a­çom de em­prego de qua­li­dade no nosso país.

E tam­bém sa­be­mos que nom todo vai de­pen­der do que poda de­ci­dir um go­verno ga­lego. Nesse sen­tido é tre­men­da­mente de­cep­ci­o­nante como está a evo­luir o es­tado es­pa­nhol. Há um go­verno que se diz pro­gre­sista mas que está a in­cum­prir os ele­men­tos cen­trais do seu pro­grama. Acho que isto é um sin­toma das li­mi­ta­çons do re­gime de 78 e acho que te­mos de em­pur­rar umha força que de­fende po­lí­ti­cas trans­for­ma­do­ras, como é o BNG, e que tam­bém tem que ser­vir como freio de con­ten­çom pe­rante a in­vo­lu­çom do es­tado es­pa­nhol. Esta in­vo­lu­çom vem mar­cada tam­bém pola in­ca­pa­ci­dade que está a de­mons­trar a es­querda es­pa­nhola para re­al­mente pôr em an­da­mento umha al­ter­na­tiva que de­fenda di­rei­tos de mínimos.

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