Periódico galego de informaçom crítica

Devir mae

por
víc­tor echevarría

Nom há volta atrás. A nossa de­ci­som é cons­ci­ente e fe­liz, mas torna-se agre ao sa­ber o di­fí­cil ca­mi­nho que co­meça, a cons­tante ba­ta­lha so­bre os nos­sos cor­pos, os nos­sos pro­je­tos vi­tais, as nos­sas es­pe­ran­ças e inquedanças.

Após nove me­ses de re­vol­tas hor­mo­nais e um car­ros­sel de mu­dan­ças fí­si­cas e aní­mi­cas, chega o nosso ri­tual de pas­sa­gem. Mais ou me­nos ins­tru­men­ta­li­zado, mais ou me­nos au­to­ge­rido e pra­zen­teiro: no parto nós tam­bém atra­ves­sa­mos o um­bral cara a umha vida ou­tra, com um sta­tus so­cial ra­di­cal­mente dis­tinto. Desaparecemos do mapa. Deixamos de con­tar para as­sem­bleias, even­tos cul­tu­rais, a ma­qui­na­ria pro­du­tiva se­gue a ro­dar sem nós. Confinam-nos. É a ma­ter­ni­dade como ins­ti­tui­çom do pa­tri­ar­cado a que nos apaga. Que re­duz o nosso pa­pel ao de se­res ges­tan­tes, re­ce­tá­cu­los dum novo su­jeito pro­du­tivo. Atribui-se-nos todo o peso dos cui­da­dos, é o que se aguarda de nós. Por isso nin­guém pen­sou em quem ha­via ter conta das cri­an­ças quando foi de­cre­tado o fe­che das es­co­las. Dava-se por feito que ha­ve­ría­mos ser as maes, rou­bando mais ho­ras ao sono das que já eram ha­bi­tu­ais em tem­pos pré-pan­dé­mi­cos. Havíamos ser nós, afei­tas a re­nun­ciar, as que re­nun­ci­a­ría­mos ao nosso auto-cui­dado para cui­dar as nos­sas fi­lhas. Ninguém nos pe­diu opi­niom, como nin­guém nos per­gunta an­tes de in­ter­pe­lar, to­car mesmo, as nos­sas cri­an­ças po­las ruas, sem as co­nhe­cer de nada. Do mesmo modo que mui­tas pes­soas se sen­tem com di­reito de jul­gar o seu com­por­ta­mento como umha fa­lha nossa, de quem as mal­cria e nom lhes in­culca a dis­ci­plina re­que­rida neste mundo cada vez mais mi­li­ta­ri­zado. Pois, em­bora os cui­da­dos som obriga ex­clu­siva da mae, a sua edu­ca­çom nom nos per­tence. Corresponde à so­ci­e­dade trans­mi­tir os va­lo­res que per­mi­ti­rám a per­feita in­te­gra­çom do novo su­jeito no sis­tema produtivo. 

A ma­ter­ni­dade como ins­ti­tui­çom do pa­tri­ar­cado apaga-nos, re­duz o nosso pa­pel ao de se­res ges­tan­tes, re­ce­tá­cu­los dum novo su­jeito produtivo

Libertar as ma­ter­ni­da­des do pa­tri­ar­cado nom su­pom ne­gar a ra­di­cal mu­dança vi­tal que re­pre­senta o feito de ser mae. Significa ce­le­brar as nos­sas de­ci­sons, o nosso pra­zer, o nosso di­reito a er­rar. O di­reito, por exem­plo, a op­tar por criar sem pa­re­lha, mas ar­rou­pa­das pola tribo. A von­tade de mais tempo para criar re­pre­senta umha cui­te­lada no co­ra­çom dum sis­tema que sem­pre nos quer pro­du­ti­vas. Nom há pro­blema em pa­gar li­cen­ças sem­pre e quando haja umha in­te­gra­çom pré­via no mer­cado la­bo­ral, se se as­pira a per­ma­ne­cer e mesmo a cres­cer nele. Nisso o sis­tema é igua­li­tá­rio: ex­ter­na­li­zar os cui­da­dos, re­nun­ciar a es­tar com as nos­sas fi­lhas para pro­du­zir, é acei­tado sem pro­ble­mas in­de­pen­den­te­mente do gé­nero. Mas se de­ci­di­mos pa­rar para cui­dar, para cui­dar-mo-nos, eis o pro­blema. O sis­tema ex­clui-nos e re­duz-nos a umha iden­ti­dade mo­no­lí­tica. Somos maes, mais nada. Politizar as ma­ter­ni­da­des com­porta um ques­ti­o­na­mento to­tal do sis­tema pa­tri­ar­cal, no qual a vida de­mons­trou es­tar re­gida por cál­cu­los mo­ne­tá­rios. Fugirmos desta ló­gica é de­fron­tar um jeito po­lí­tico de ser maes, um jeito di­verso que deixa es­paço para ser muito mais do que isso. Supom de­vir mae sem re­nun­ciar ao que ou­trora fo­mos e a todo o que po­de­mos che­gar a ser.

Comba Campoi é integrante de MATERFEM, Maternidades Feministas Galegas.

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