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Devolver os povoados ao povo

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pi­lar aba­des

A meados do século XX as empresas do regime franquista constroem povoados para os trabalhadores das centrais hidroelétricas ou das exploraçons mineiras. Hoje, muitos deles estám abandonados.

Internet nom de­volve de­ma­si­ada in­for­ma­çom so­bre os po­vo­a­dos in­dus­tri­ais na Galiza. Quando Bieito Silva de­ci­diu cen­trar o seu tra­ba­lho de fim de mes­trado nes­tas cons­tru­çons nom to­pou umha bi­bli­o­gra­fia re­le­vante para o seu es­tudo. Os po­vo­a­dos som pe­que­nas ur­bes, com­ple­ta­mente equi­pa­das com cen­tros de saúde, eco­no­ma­tos, ba­res, pe­que­nas es­co­las, pra­ças e umha igreja. Muitos de­les som e fô­rom fi­lhos da pla­ni­fi­ca­çom eco­nó­mica do fran­quismo. Em 1941 funda-se o Instituto Nacional de Indústria que cri­ará e ad­mi­nis­trará em­pre­sas pú­bli­cas des­ti­na­das à ex­plo­ra­çom de re­cur­sos e cons­truirá dis­tin­tas in­fra­es­tru­tu­ras: es­tra­das, li­nhas fer­ro­viá­rias, plan­tas tér­mi­cas e hi­dro­e­lé­tri­cas. A pro­cura do de­sen­vol­vi­mento dum te­cido in­dus­trial vem acom­pa­nhada da edi­fi­ca­çom de so­lu­çons ha­bi­ta­ci­o­nais para umha po­pu­la­çom ativa que, mui­tas ve­zes, tem que se mo­ver for­ço­sa­mente para o lu­gar de tra­ba­lho. Desenham-se e cons­troem-se as­sim os cha­ma­dos po­vo­a­dos.

Vista do po­vo­ado de O Fontao, em Vila de Cruzes | pi­lar aba­des

A mai­o­ria dos mo­de­los des­tas con­tru­çons de­ri­vam, pa­ra­do­xal­mente, do es­tran­geiro. Os seus ar­qui­te­tos mi­ram de es­gue­lha para as Industrial Village in­gle­sas, as Garden City ou as Company Town ame­ri­ca­nas. Cada em­presa cria o seu mo­delo pró­prio de po­vo­ado, de­pen­dendo das ne­ces­si­da­des. Entendia-se ao ser hu­mano como mais um ele­mento da fá­brica e os po­vo­a­dos for­ma­vam parte do re­cinto das mes­mas. Estes as­sen­ta­men­tos eram da di­ta­dura fran­quista. Na Galiza, Fenosa edi­fi­cará vá­rios des­tes nú­cleos, sem­pre ao lado dal­gumha das suas cen­trais hi­dro­e­lé­tri­cas e en­co­ros.

As pes­soas que vi­viam nes­tas ca­sas fa­ziam-no em re­gime de alu­guer. Muitos des­tes po­vo­a­dos de­sen­vol­vê­rom um ir­mao gé­meo: ca­sas cons­truí­das po­las fa­mí­lias que ha­bi­ta­vam os po­vo­a­dos. Isto vem mo­ti­vado por­que, como ex­plica o ar­qui­teto Bieito Silva, “a ti ga­ran­tiam-te a vi­venda até que te ju­bi­la­ras, mas tam­pouco o sa­bias”. A si­tu­a­çom po­dia mu­dar de re­pente. Entom, “muita gente, an­tes de efe­tuar umha in­ver­som nes­tas ca­sas -como ar­ran­jar um te­lhado- cons­truiam a sua pró­pria vi­venda”. As Conchas, povo onde pas­sou parte da sua in­fân­cia, casa ma­terna e onde vive a sua avó, é um exem­plo deste fe­nó­meno que tivo lu­gar na Galiza a par­tir da dé­cada de 40.

Bieito Silva: “A ti garantiam-te a vivenda até que te jubilasses, mas tampouco o sabias”

O en­coro das Conchas e as lem­bran­ças das suas ocu­pan­tes
Na auto-es­trada das Rias Baixas, trás o seu passo por Ourense e de­pois de dei­xar o po­lí­gono de Sam Cibrao às suas cos­tas, topa-se o des­vio para a AG-31. Seguindo o tra­çado des­tas es­trada pas­sa­mos Celanova, Bande e Os Banhos de Sam Xoám. Um si­nal ao borde do as­falto in­dica a en­trada aos res­tos do acam­pa­mento ro­mano Aquis Querquennis. Este en­clave, si­tu­ado perto da beira do Límia, foi vi­si­tado em 1921 po­los ou­ren­sa­nos Ramón Otero Pedrayo, Florentino López Cuevillas e Vicente Risco, quem co­me­ça­riam a ex­plo­ra­çom do lu­gar ar­que­o­ló­gico.

A Guerra Civil im­pe­diu que os tra­ba­lhos ar­que­o­ló­gi­cos pros­pe­ras­sem. O go­verno fran­quista pla­ni­fi­cou a cons­tru­çom dum en­coro, que em­pre­ga­ria as águas do Límia na pro­du­çom de ener­gia dumha cen­tral hi­dro­e­lé­trica. Em 1948, o di­ta­dor Francisco Franco, inau­gu­rava o en­coro das Conchas. Baixo as águas que­da­vam res­tos do povo dos Banhos de Bande. A sua igreja foi tras­la­dada, pe­dra a pe­dra, ao lado da es­trada. Destino si­mi­lar so­frê­rom as al­deias de Aceredo ou Buscalque, se­pa­ra­das por ape­nas vinte qui­ló­me­tros das Conchas. O filme Os días afo­ga­dos narra o en­terro das suas ca­sas baixo as águas do en­coro de Lindoso em 1992.

Ao lado do en­coro das Conchas topa-se o po­vo­ado do mesmo nome e a al­deia ho­mó­nima. A al­deia está hoje ha­bi­tada, ainda que mui­tas vi­zi­nhas e vi­zi­nhos nom em­pre­guem as suas ca­sas como pri­meira re­si­dên­cia, e acu­dam tam só du­rante as fé­rias. O po­vo­ado en­ve­lhece quase va­zio, com a ex­ce­çom dumha das vi­ven­das. Parte da vi­zi­nhança, sendo cons­ci­ente de que com a ju­bi­la­çom de Fenosa che­gava tam­bém o fim do con­trato de alu­guer para as suas fa­mí­lias, dei­xá­rom as ca­sas da em­presa. Da es­trada nom é do­ado per­ce­ber a si­lhu­eta dal­guns dos seus edi­fí­cios, a man­som dos al­tos car­gos, o eco­no­mato ou o cen­tro de saúde.

Na mina de Santiago do Fontao trabalhariam forçosamente presos políticos do franquismo, entre eles o anarco-sindicalista pontevedrês Desiderio Comesaña

Bieito Silva co­me­çou a es­tu­dar em pro­fun­di­dade es­tes po­vo­a­dos in­dus­tri­ais a raiz dum tra­ba­lho de fim de es­tu­dos para o Mestrado em Meio Ambiente e em Arquitetura Bioclimática. Perante esta ta­refa de pro­por a re­a­bi­li­ta­çom de um nú­cleo, Bieito de­ci­diu in­ves­ti­gar o fe­nó­meno do des­po­vo­a­mento na Galiza. “Nom há que es­que­cer”, in­cide, “que o pro­jeto é de ar­qui­te­tura”. Nom se tra­tava de pa­liar esta pro­ble­má­tica dum ponto de vista so­ci­o­ló­gico, “se­nom ar­qui­te­tó­nico”. Dentro da grande quan­ti­dade de nú­cleos aban­do­na­dos “tra­tei de ele­ger um que me per­mi­tisse umha in­ter­ven­çom mais sus­ten­tá­vel e eco­nó­mica”. Os po­vo­a­dos in­dus­tri­ais apre­sen­ta­vam a van­ta­gem de es­tar for­ma­dos por vi­ven­das idên­ti­cas nas suas di­men­sons e ma­te­ri­ais de cons­tru­çom. “E tam­bém no de­te­ri­oro que apre­sen­tam”, as­si­nala, “isto fai que a re­a­bi­li­ta­çom seja mais sin­gela do que um nú­cleo de ca­sas tra­di­ci­o­nais de pe­dra, com dis­tinta ti­po­lo­gia e ní­vel de con­ser­va­çom”.

Bieito co­me­çou o es­tudo do que me­lhor co­nhece: o po­vo­ado das Conchas. A sua pro­posta nom con­tem­plava a sim­ples re­a­bi­li­ta­çom das edi­fi­ca­çons. Outro dos pro­ble­mas que to­pava na hora de re­cu­pe­rar a vida- ur­ba­nis­ti­ca­mente fa­lando- para um po­vo­ado ra­di­cava na falta de ser­vi­ços ou opor­tu­ni­da­des la­bo­rais no seu en­torno. Por isso, no seu tra­ba­lho, quijo dar mais um passo e pro­por a re­con­ver­som dum dos edi­fí­cios do po­vo­ado das Conchas, “um chalé para en­ge­nhei­ros que iam de vi­sita de jeito pon­tual”, trans­for­mando-o num cen­tro de dia. “Converter a me­tade das vi­ven­das para que re­si­dam fa­mí­lias”, re­lata, “e a ou­tra parte das vi­ven­das para pes­soas da ter­ceira idade que se po­dem de­sen­vol­ver por si pró­prias até certo ponto”. Estas úl­ti­mas be­ne­fi­ci­a­riam-se da pro­xi­mi­dade dos ba­nhos ter­mais da zona, dum en­torno na­tu­ral, e se­riam aten­di­das pon­tu­al­mente polo cen­tro de dia. Tratava-se dumha pro­posta no pa­pel, mas tam­bém dum con­vite para a pro­cura de so­lu­çons ao des­po­vo­a­mento do ru­ral.

Blocos de vi­venda do po­vo­ado de O Fontao, em Vila de Cruzes | pi­lar aba­des

Exemplos de re­cu­pe­ra­çom: o po­vo­ado mi­neiro do Fontao
Dentro do seu la­bor de in­ves­ti­ga­çom o ar­qui­teto es­tu­dou e vi­si­tou po­vo­a­dos que já fo­ram re­a­bi­li­ta­dos. Um de­les foi o dos Peares. Outro o do Fontao, si­tu­ado no con­ce­lho de Vila de Cruzes. Neste po­vo­ado re­si­dí­rom os tra­ba­lha­do­res dumha mina de vol­frâ­mio que es­tivo em fun­ci­o­na­mento en­tre 1934 e 1963 e en­tre 1968 e 1973. “Este po­vo­ado foi re­a­bi­li­tado e as ca­sas- ad­mi­nis­tra­das agora pola Junta da Galiza- som agora vi­ven­das de alu­guer so­cial”, conta Bieito, “a sua vi­sita é umha ex­pe­ri­ên­cia muito in­te­res­sante”.

Este po­vo­ado mi­neiro, na época de má­ximo es­plen­dor, che­gou a con­tar com sa­las de ci­nema. Os seus anos de má­xima pro­du­çom coin­ci­dem com a II Guerra Mundial e com a Guerra de Coreia. A mina fe­chou de­fi­ni­ti­va­mente em 1974, trás o qual o po­vo­ado fi­cou em es­tado de aban­dono. Arredor da ri­queza do po­vo­ado nes­ses anos flo­res­cê­rom ne­gó­cios: pa­da­rias, ten­das de ul­tra­ma­ri­nos, umha sala de dança e um campo para a equipa lo­cal, o Minas Clube de Futebol. Na mina de Santiago do Fontao tra­ba­lha­riam for­ço­sa­mente pre­sos po­lí­ti­cos do fran­quismo, en­tre eles o anarco-sin­di­ca­lista pon­te­ve­drês Desiderio Comesaña.

O pro­jeto de re­cons­tru­çom do Fontao foi obra do Instituto Galego de Vivenda e Solo e inau­gu­rado no ano 2005 polo, na al­tura pre­si­dente da Junta da Galiza, Manuel Fraga Iribarne. No 2012, o edi­fí­cio da igreja, o an­tigo au­di­tó­rio, e as es­co­las fô­rom tam­bém re­for­ma­das para aco­lher o Museu da Minaria do Fontao. Nele guar­dam-se as lem­bran­ças do pas­sado mi­neiro do po­vo­ado. Passado que se­gue la­tente no ex­te­rior em forma de nu­me­ro­sos bar­ra­cons aban­do­na­dos e nos le­trei­ros em ver­me­lho que lem­bram a pe­ri­go­si­dade de pas­sear por um lu­gar onde se pra­ti­cou a mi­na­ria sub­ter­râ­nea e a céu aberto. As mo­ra­das to­pam-se numha zona de forte pen­dente que desce até o leito do rio Deça. Vários edi­fí­cios, en­tre eles o do an­tigo má­ximo cargo da mina, con­ti­nuam aban­do­na­dos de­trás de can­ce­las oxi­da­das. Mas no po­vo­ado volta ha­ver vida. A de­co­ra­çom ex­te­rior mos­tra o in­tento de apro­pi­a­çom das pes­soas que o ha­bi­tam. As flo­res, as fi­gu­ras de barro, as cai­xas do cor­reio, ten­tam dar per­so­na­li­dade pró­pria às ca­sas que, por ou­tra banda, som exa­ta­mente iguais umhas do que as ou­tras.

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