Periódico galego de informaçom crítica

Dorothé Schubart, a moça suíça que buscava cantigas

por
fo­to­grama de ‘Dorothé na Vila’

O Cancioneiro Popular Galego de Dorothé Schubart e Antón Santamarina é um dos maiores trabalhos sobre a nossa tradiçom oral. Além de umha valiosa obra etnomusicológica, Olaia Tubío e Alejandro Gándara vírom nele um ponto de partida para achegar-se à Galiza na que estas músicas faziam parte da vida quatidiana e fôrom transmitidas durante anos.

Delfina e Rosa can­tá­rom-me du­rante umha tarde quase du­zen­tas co­plas, umha can­tiga e um agui­naldo, acom­pa­nhando-se com a pan­dei­reta.  Contavam com or­gu­lho que dis­fru­ta­vam de muita sona na co­marca por se­rem boas can­ta­do­ras.” Vila da Igreja, Cerzeda. Março de 1980.

Rosa era avoa de Richi Casás, mú­sico cer­ze­dense que liga na sua obra a sua for­ma­çom aca­dé­mica como sa­xo­fo­nista com a mú­sica tra­di­ci­o­nal que sem­pre ou­viu na casa. O texto é unha das inu­me­rá­veis ano­ta­çons da nó­mina de in­for­man­tes do Cancioneiro Popular Galego de Dorothé Schubart, con­si­de­rado a bí­blia da nossa tra­di­çom oral. Quando Casás fa­lou para a Olaia Tubío e o Alejandro Gándara da­quela mu­si­có­loga suíça que per­cor­rera boa parte de Galiza há qua­renta anos re­gis­tando can­çons po­pu­la­res, fi­cá­rom tam atraí­das pola sua his­tó­ria que de­ci­dí­rom afun­dar no tema e ini­ciá­rom um tra­ba­lho de pes­quisa que as le­vou trás os pas­sos de Schubart e re­ma­tou com a es­treia, no pas­sado mês de agosto, do do­cu­men­tá­rio Dorothé na Vila.

Nós já tí­nha­mos in­ten­çom de fa­zer algo so­bre vá­rias ques­tons da mú­sica tra­di­ci­o­nal e vi­mos que o Cancioneiro reu­nia mui­tas cou­sas que nos in­te­res­sa­vam: a aces­si­bi­li­dade dos ar­qui­vos, o re­co­nhe­ci­mento às in­for­man­tes e o seu pa­pel pro­ta­go­nista… Todo isto so­mado a que nele está re­co­lhida a mú­sica oral an­tes da ru­tura da sua trans­mis­som”, ex­plica Olaia Tubío. A in­ten­çom de Tubío e Gándara era fa­zer um do­cu­men­tá­rio que nom se li­mi­tasse a fa­lar da parte es­tri­ta­mente mu­si­cal do Cancioneiro, mas tam­bém do con­texto hu­mano e so­cial no que foi feito o tra­ba­lho de re­co­lhida de Dorothé. Ao longo do filme, acom­pa­nhamo-las na sua vi­a­gem trás os pas­sos da mu­si­có­loga e à pro­cura de in­for­man­tes vi­vas e dos res­tos da­quela Galiza ru­ral à que ela che­gou qua­tro dé­ca­das atrás.

Alejandro Gándara e Olaia Tubío, nar­ra­do­ras do documental

Um dos que se atreve a bo­tar umha can­tiga para as câ­ma­ras, acom­pa­nhado da sua san­fona, é Antón Santamarina, fi­ló­logo e co­au­tor do Cancioneiro. Santamarina ex­plica como co­nhe­ceu a Dorothé quando che­gou a Galiza em 1978 bus­cando, ini­ci­al­mente, me­lo­dias ar­cai­cas. Acabou fi­cando doze anos, de­di­cada à ta­refa her­cú­lea de re­co­lher, trans­cre­ver e or­ga­ni­zar o imenso Cancioneiro Popular Galego. “É a obra da sua vida”, di Santamarina. “Nom há umha obra igual na Galiza”, ex­plica Alejandro Gándara. “A clas­si­fi­ca­çom, o pro­fis­si­o­na­lismo com que foi feito, a or­ga­ni­za­çom, o fá­cil que é bus­car nele, as te­o­rias que apli­cou… Todo isso fai umha obra única”. Mas, tendo este grande va­lor e im­por­tân­cia, o Cancioneiro está hoje des­ca­ta­lo­gado. Embora Santamarina re­co­nhece no filme que ul­ti­ma­mente vê um certo in­te­resse por esta obra, “som ra­ras as ve­zes em que in­tér­pre­tes bo­tam mao do Cancioneiro”.

Eu, como aluno de umha agru­pa­çom de mú­sica tra­di­ci­o­nal, re­co­mendo mui­tís­simo ache­gar-se ao Cancioneiro, por­que apren­des so­bre o que fas, por que o fas e como se fa­zia na tra­di­çom oral, que é o que se per­deu . Umha das cou­sas que mais me mar­cou é como fala da im­pro­vi­sa­çom”, co­menta Alejandro Gándara. Agora, com Dorothe na Vila, tal­vez o Cancioneiro poda che­gar a no­vos pú­bli­cos, além do mundo da mú­sica tra­di­ci­o­nal. “Eu creio que as gra­va­ções [dis­po­ní­veis no Arquivo do Património Oral da Identidade (APOI) do Museu do Povo Galego] som o mais aces­sí­vel e o que o do­cu­men­tal pode con­tri­buir a di­vul­gar”, aponta Olaia Tubío.

Para Alejandro Gándara, “se o do­cu­men­tá­rio des­taca por algo, é po­las informantes”

Precisamente a ideia de que o Cancioneiro nom é umha obra pri­vada e per­tence ao povo ga­lego é algo no que in­siste a pró­pria Dorothé Schubart. “Eu nunca qui­gem es­tar no cen­tro. O res­peito para to­dos os que co­la­bo­ra­rom im­pede-me to­mar esse pa­pel”, ex­plica num dos cor­reios ele­tró­ni­cos que en­via às di­re­to­ras e que vam gui­ando o seu tra­ba­lho e ar­mando a ori­gi­nal es­tru­tura do filme. “O que me­lhor de­fine a Dorothé é a ge­ne­ro­si­dade. É mui hu­milde e cre­mos que por ser tam hu­milde foge muito de todo tipo de pro­ta­go­nismo. É algo que tar­da­mos em per­ce­ber, que tam­bém está no do­cu­men­tá­rio. Ela quere co­la­bo­rar, quere par­ti­ci­par e que as cou­sas saiam adi­ante, mas à vez nom quer ex­por-se, en­tom está todo o tempo com esta am­bi­va­lên­cia”, ex­plica Tubío.

Dorothé se­gue a vir aqui de­pois de tan­tos anos, tem ami­za­des, re­la­çons e li­ga­çons mui for­tes, e so­fre ao ver como isto se acaba”, co­menta Gándara. Essa dor de Schubart por um mundo que es­mo­rece per­corre todo o filme. Se num mo­mento do do­cu­men­tá­rio Santamarina co­menta com ela como o seu tra­ba­lho foi feito “in ex­tre­mis, num mo­mento pro­vi­den­cial”, po­las mu­dan­ças que se es­ta­vam a pro­du­zir na so­ci­e­dade ga­lega, Dorothé na Vila chega quando as in­for­man­tes vi­vas já te­nhem ida­des mui avançadas.

Manolo, de Louzarela, que conta como a mú­sica lhe ale­grava as ho­ras de tra­ba­lho. Victorina, de Carnota, e a emo­çom do seu en­con­tro com Maria de Fetós. Jesusa e a sua tor­rente de can­çons e lem­bran­ças so­bre aquela Dora que che­gara à al­deia baixo a chuva. “Afinal o filme som elas”, co­menta Gándara. “Nem nós, nem Dorothé, nem a es­tru­tura que mon­ta­mos para con­tar a his­tó­ria: se o filme des­taca por algo, é por es­sas mu­lhe­res, que som umhas per­so­na­gens in­crí­veis”. Como di Tubío, “to­das te­nhem al­guma cousa distinta”. 

Umha parte da mú­sica tra­di­ci­o­nal, mais li­gada à im­pro­vi­sa­çom, tal­vez já aca­bou”, di Olaia Tubío

A úl­tima em apa­re­cer é Marina, umha das in­for­man­tes mais jo­vens. “Nom te­nho gana de can­tar. Se canto, ter­mino cho­rando”, di com umha nos­tal­gia nom mui di­fe­rente da que ex­pressa Dorothé.  Num mo­mento do filme, Alejandro Gándara per­gunta-se se o mundo do Cancioneiro aca­bou já. “É um tema mui di­fí­cil de sin­te­ti­zar”, acha. “Muitas ve­zes que­re­mos ver que todo con­ti­nua e quando te me­tes aí vês que o que fa­ziam os ve­lhos e as ve­lhas era ra­di­cal­mente dis­tinto do que fa­ze­mos agora. O feito de le­var a mú­sica den­tro, que seja algo que nom só te acom­pa­nha nos mo­men­tos lú­di­cos, se­nom en­quanto tra­ba­lhas ou fa­zes qual­quer cousa da tua vida, é umha di­fe­rença mui grande”. Para Tubío, “há cou­sas desse mundo que con­ti­nuam hoje: agru­pa­çons, fo­li­a­das… e há ou­tra parte, mais li­gada á im­pro­vi­sa­ção, a can­tar por­que tés a me­lo­dia den­tro e tés as fer­ra­men­tas para que a mú­sica saia de ti, que tal­vez sim aca­bou. Vai um bo­cado li­gado à si­tu­a­ção do ru­ral: de­sa­pa­re­cem as al­deias, os es­pa­ços onde can­tar, os tra­ba­lhos ma­nu­ais…”. “Faltam os am­bi­en­tes”, re­sume no filme Dorothé, para quem o Cancioneiro é umha va­li­osa fonte so­bre como se vi­via na época da sua re­co­lhida. “Estas co­plas e his­tó­rias som um es­pe­lho da vida”, sus­tém. E esse re­flexo é o que pro­cura Dorothé na Vila.

Publicidade

O último de O bom viver

Línguas de preto

Iván Cuevas segue o rastro da língua das pessoas afro-americanas, a sua
Ir Acima