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Editora Ámboa: Mulheres que racham a fronteira literária do Minho dançando

por
cur­rais domingues

Em maio de 2019 viu a luz Fulgor, lectura danzada de María Gabriela Llansol, primeira obra publicada pola Editora Ámboa. Umha iniciativa das luguesas Nieves Neira e María Grandío que toma os versos da autora portuguesa para criar umha obra que desborda as margens do papel. 

Nieves Neira ‑jor­na­lista, po­eta- e María Grandío- pro­fes­sora, in­ves­ti­ga­dora- sen­tam jun­tas no sofá e numha con­versa, na qual os pí­xe­les vam e ve­nhem no ecrám, con­tam o iní­cio e de­cor­rer do seu pro­jeto em con­junto: a edi­tora Ámboa.

Ámboa, dim am­bas, “nom se trata dum pro­jeto mui pen­sado”. Até que o seu pri­meiro li­vro Fulgor, lec­tura dan­zada de Maria Gabriela Llansol saiu do prelo, a ideia de tra­ba­lhar com a li­te­ra­tura lusa per­ma­ne­ceu la­tente em am­bas du­rante anos. “Entre a lei­tura por­tu­guesa e a ga­lega há umha fron­teira nom na­tu­ral e nós so­ma­mos um gram de areia ao tra­ba­lho das pes­soas que, com di­fi­cul­da­des, tra­tam de ra­char com ela”, di Neira. 

De facto, o que hoje pode ser de­no­mi­nada pe­quena edi­tora na­ceu como umha as­so­ci­a­çom “de pros­pe­çom poé­tica”. A massa-mae nom mu­dou, mas no ca­mi­nho Neira e Grandío ache­gá­rom os in­gre­di­en­tes per­fei­tos para a pri­meira pu­bli­ca­çom: a dança e as le­tras de Llansol, es­cri­tora dumha obra des­co­mu­nal nada em Lisboa em 1931, exi­lada em ter­ras bel­gas du­rante quinze anos e fi­nada em Sintra há doze. 

Caminhar com Llansol por ruas de Lisboa

Na cro­no­lo­gia que parte da as­so­ci­a­çom até a edi­tora cru­zam-se pes­soas, li­vros, con­ver­sas e apren­di­za­gens. “Nieves e eu so­mos ami­gas desde há mui­tos anos, com nu­me­ro­sos in­te­res­ses com­par­ti­lha­dos”, di Grandío. O da dança par­ti­lham-no tam­bém com as in­te­gran­tes da as­so­ci­a­çom de ar­tes cé­ni­cas 3 mo­nos, de Lugo. 

Um curso com Idoia Zabaleta- co­reó­grafa, mes­tra e di­re­tora dumha com­pa­nhia de dança- amos­sou Neira ou­tras for­mas de ler. “Os seus tra­ba­lhos som lei­tu­ras dan­ça­das, no fes­ti­val Esceas do Cambio le­mos Os Eidos (obra do po­eta Uxío Novoneyra) do prin­cí­pio ao fim em mo­vi­mento”, conta. 

Ela vi­veu em Lisboa um tempo. “Som meio por­tu­guesa”, di com um sor­riso grande. Ali to­pou as le­tras de Llansol e de­vo­rou-nas du­rante mais dum mês “dum jeito algo fri­qui”. “Um dia vim-me sen­tada lendo‑a e pen­sei que nom fun­ci­o­nava, nem lendo sen­tada nem na casa, saim à rua e de­xei-me le­var pola lei­tura, dirigindo‑a cara o que to­pava no ca­mi­nho”, di. O apren­dido com Idoia Zabaleta foi um dos pri­mei­ros pas­sos que le­vam a Fulgor

Um dia vim-me sen­tada lendo Llansol e pen­sei que nom funcionava”

É bo­nito pen­sar que ao jo­gar com os tex­tos de Llansol, umha es­cri­tora con­si­de­rada de culto, po­des en­con­trar o teu lu­gar numha es­crita que se­me­lha her­mé­tica”, as­se­gura Neira. Em 2018, en­quanto María Grandío dava au­las fora da Galiza, a sua amiga as­sis­tiu a um curso or­ga­ni­zado pola Fundaçom Novoneyra: Novas ten­dên­cias em edi­çom literária. 

Para a parte prá­tica do curso pen­sou, junto a ou­tra com­pa­nheira, María Corral, em apli­car as ba­ses da as­so­ci­a­çom Ámboa ma­te­ri­a­li­zando-as, no fim, num li­vro. Os in­te­res­ses e fac­tos do pas­sado ali­nhá­rom-se com as ami­za­des do pre­sente. As doze mu­lhe­res da as­so­ci­a­çom de ar­tes cé­ni­cas 3 mo­nos, o pro­jeto prá­tico, apre­sen­tar o curso, o in­te­resse pola lei­tura dan­çada de Llansol e a von­tade de tra­ba­lhar com a li­te­ra­tura por­tu­guesa de­ri­vá­rom em Fulgor.  

De Lugo a Lisboa

Um re­cun­cho es­con­dido de Lugo, o claus­tro da sua ca­te­dral, foi o ce­ná­rio em que se es­cre­veu a obra. Com os li­vros es­pa­lha­dos no chao deu co­meço umha dança li­vre e im­pro­vi­sada em que as pro­ta­go­nis­tas pi­vo­ta­vam en­tre as pá­gi­nas, lendo frag­men­tos, in­te­ra­gindo en­tre si ao ritmo mar­cado po­las pa­la­vras de Llansol. 

Foi cu­ri­oso, por­que a lei­tura é pre­ci­sa­mente algo que adoi­tas fa­zer soa, um ato de per­ce­çom que nom per­mite que al­guém se in­tro­duza con­tigo”, ex­pom Neira, “da­quela, foi in­te­res­sante ver como se ia cons­truindo um texto en­tre todas”.

Os ver­sos li­dos em voz alta fô­rom su­bli­nha­dos e toda aquela co­re­o­gra­fia poé­tica fi­cou re­gis­tada polo olho da câ­mara de Mar Freire. Após o baile, che­gou o tra­ba­lho de edi­çom, re­vis­som dos ver­sos mar­ca­dos, au­di­çom das vo­zes na câ­mara e com­po­si­çom dumha obra de Llansol com­ple­ta­mente di­fe­rente: “um ca­dá­ver es­qui­sito lido”, dim as editoras. 

O con­tacto deu com frag­men­tos assim:

Não sei di­zer o que é ser humano

~

A pai­sa­gem não tem um sexo sim­ples. Nem o 

Homem, nem a mulher.

~

Figura su­blime, in­tui­tiva, nós fa­la­mos so­bre a vida. 

cur­rais domingues

Para este exer­cí­cio poé­tico con­tá­rom com apoio das in­te­gran­tes do es­paço Llansol. “Foi um ato de ge­ne­ro­si­dade, ví­rom a co­ne­xom da obra dela com esta nova ma­neira de ler, de es­tar no mundo e na lei­tura cons­truindo e es­pa­lhando”, as­se­gura Grandío. “Deixárom-nos li­ber­dade to­tal, ti­ve­mos umha sorte in­fi­nita, por­que po­dia ser visto como um des­troço”, coin­cide Neira. 

Em maio de 2019, Fulgor véu a luz e pouco de­pois vi­a­jou até Campo de Ourique, em Lisboa, no mesmo es­paço Llansol. “É o bairro na­tal dela em Lisboa e mais de Augusto, o seu com­pa­nheiro”, di Neira. Nela guar­dam-se os seus ob­je­tos, “tam im­por­tan­tes na sua obra”. No pá­tio da casa as doze mu­lhe­res vol­tá­rom dançar. 

Representar Llansol ante as cus­tó­dias da sua obra foi um gesto de de­vol­ver-lhes tanta ge­ne­ro­si­dade, mas im­pu­nha. “Fazer essa ou­sa­dia di­ante de quem ama a sua obra e em por­tu­guês, verbalizando‑a na que foi a sua casa… mas foi bem”, re­sume Grandío com um sor­riso no ros­tro. “Foi pre­ci­oso, di­xé­rom que Llansol te­ria gos­tado da obra, e, no­me­a­da­mente, de nós, da re­la­çom en­tre nós”, di Neira. 

Mais dan­ças para Ámboa

A raiz da apre­sen­ta­çom lis­bo­eta, dim as edi­to­ras, “acon­te­cé­rom mui­tas cou­sas”. “Um es­tu­dante da Universidade de Vigo fijo um tra­ba­lho pre­ci­oso so­bre Fulgor e agora que­re­mos que, num fu­turo, a gente do es­paço Llansol vi­site Lugo para fa­zer al­gum obra­doiro”, explicam. 

Neira e Grandío des­cre­vem Fulgor como um li­vro “des­bor­dado”. Um có­digo QR leva a lei­tora ao ví­deo em que pode re­vi­ver a dança no claus­tro da ca­te­dral lu­cense. As le­tras de Llansol, ma­ti­zam, nom fô­rom tra­du­zi­das, “nós po­de­mos ler em por­tu­guês”, afir­mam. “Esse é um pouco o drama, a con­tra­di­çom que marca o nosso sis­tema li­te­rá­rio e que mui­tas edi­to­ri­ais tra­tam de abrir para que po­da­mos ler em por­tu­guês, tra­du­zir nom fai sen­tido para nós”, acrescentam. 

Na es­pera de no­vos tí­tu­los, edi­to­ras e ami­gas con­vi­dam as lei­to­ras ten­tar dei­xar-se le­var e ex­pe­ri­men­tar a mis­tura da dança e a po­e­sia. Jogar com ela, as­se­gu­ram, ajuda a des­dra­ma­ti­zar e a de­sa­pren­der, a re­ti­rar esse véu de obra culta que só as pe­ri­tas po­dem de­ci­frar. “É umha forma de vol­tar ser ino­cente ou­tra vez, de dei­xar entrar”. 

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