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Há campanhas a fazer apologia dumha ideologia de ódio contra as pessoas LGTBI

por
pa­blo san­ti­ago

Bianka Rodrigues, de El Salvador, é diretora-executiva e presidenta da Concavis Trans, umha organizaçom liderada por mulheres trans no Salvador que trabalha pola reivindicaçom e o cumprimento dos direitos humanos das pessoas LGTBI. Bianka sorri muito. Nom é fácil entrever algumhas das experiências com que tivo de lidar desde que na infância a mae dela a tivera oito anos encerrada em casa por se “comportar como umha menina”. Bianka sofreu atentados contra a sua vida e foi sequestrada numha ocasiom. Porém, ela tivo sorte, umha vez que muitas das amigas dela acabárom sendo assassinadas por serem trans. Aos seus 26 anos, Bianka di que lhe restam 7, pois 33 é a média de vida das mulheres trans no Salvador. Falamos com ela na Lila de Lilith sobre a importância de que tanto as leis quanto a educaçom amparem e defendam o feminismo e os coletivos LGTBI.

Como é a si­tu­a­çom das pes­soas trans e LGTBI no Salvador?

No Salvador, como em quase todo o mundo, fa­lar na si­tu­a­çom das pes­soas LGTBI é fa­lar num con­texto de vul­ne­ra­çom dos di­rei­tos hu­ma­nos e numha vi­o­lên­cia cons­tante. No Salvador nom con­ta­mos com nen­gumha lei que pro­teja ou rei­vin­di­que os di­rei­tos LGTBI, ape­nas umha re­forma do Código Penal que ti­pi­fica as ame­a­ças e cri­mes por ódio mo­ti­va­dos pola ori­en­ta­çom se­xual e a iden­ti­dade de gé­nero. Porém, esta re­forma, que en­trou em vi­gor em 2015, nom está a ser apli­cada. Em ge­ral, aquilo que se ve­ri­fica é umha re­sis­tên­cia à pro­mo­çom e pro­te­çom dos di­rei­tos hu­ma­nos da po­pu­la­çom LGTBI, mesmo que se te­nham dado avan­ços na cri­a­çom de po­lí­ti­cas pú­bli­cas de in­clu­som que som po­si­ti­vas, mas a grande di­fi­cul­dade que existe é ver os no­vos mi­nis­tros, que irám as­su­mir o cargo em ju­nho, a to­mar como vin­cu­lante essa boa prá­tica que o Estado dei­xou para ser apli­cada po­los vá­rios mi­nis­té­rios.

Participas ainda numha ini­ci­a­tiva por umha Lei de iden­ti­dade de gé­nero.

Sim, nom te­mos umha lei que re­co­nheça e pro­mova os di­rei­tos eco­nó­mi­cos, ci­vis e cul­tu­rais da po­pu­la­çom trans. Até agora, por exem­plo, as mu­lhe­res e ho­mens trans nom po­dem mu­dar o nome de acordo com a sua iden­ti­dade e ex­pres­som de gé­nero. Muitas de­las en­fren­tam de­sa­fios no mer­cado de tra­ba­lho, sendo que a maior parte de­las nom con­se­guem ace­der a um em­prego digno e, se o fam, som dis­cri­mi­na­das. A mai­o­ria acaba por exer­cer a pros­ti­tui­çom ou por tra­ba­lhar em em­pre­gos in­for­mais como o co­mér­cio am­bu­lante ou em fá­bri­cas onde som ex­plo­ra­das. E se al­gumha quer de­di­car-se a ou­tra cousa, é ata­cada sis­te­ma­ti­ca­mente.

Na edu­ca­çom às pes­soas trans nom se lhes per­mite es­tu­dar mos­trando a sua iden­ti­dade ou ex­pres­som de gé­nero. Às que con­se­guem ace­der ao mundo aca­dé­mico e se que­rem gra­duar, é‑lhes ne­gado o tí­tulo até por­que se lhes exige apa­re­ce­rem nas fo­tos com o as­peto de gé­nero que ti­nham ao nas­ce­rem. Está-se o tempo todo a fa­lar em po­lí­ti­cas de in­clu­som, mas a mai­o­ria das ve­zes nom se aplica.

pa­blo san­ti­ago

Para além de en­tra­ves ins­ti­tu­ci­o­nais, as pes­soas trans, es­pe­ci­al­mente as mu­lhe­res trans, so­frem de epi­só­dios de vi­o­lên­cia con­tí­nuos.

As mu­lhe­res trans no Salvador te­nhem umha ex­pe­ta­tiva de vida de 33 anos, de acordo com o es­tudo re­a­li­zado pola pro­cu­ra­do­ria dos DDHH e o pro­grama da ONU. O es­tudo re­vela que so­frem da vi­o­la­çom de 11 di­rei­tos fun­da­men­tais.

A vi­o­lên­cia re­flete-se, so­bre­tudo, em mu­lhe­res trans dos 17 aos 28 anos, mu­lhe­res que te­nhem que fu­gir do país na pro­cura de pro­te­çom por­que so­frem ame­a­ças e agres­sões fí­si­cas cons­tan­tes. Muitas pre­ci­sam que al­guém lhes ofe­reça se­gu­rança e pro­te­çom, mas as ins­ti­tui­ções pú­bli­cas com­pe­ten­tes mais nom fa­zem do que dar-lhes um do­cu­mento que cer­ti­fica que apre­sen­tá­rom umha queixa. Onde é que es­tám os ver­da­dei­ros pro­gra­mas de pro­te­çom que de­via ter essa po­pu­la­çom? Há um pro­grama de pro­te­çom a ví­ti­mas que nom é vin­cu­lante para as pes­soas LGTBI. Ora bem, esta si­tu­a­çom de vi­o­lên­cia re­flete-se ainda nas mu­lhe­res lés­bi­cas, nas bis­se­xu­ais ou nos ho­mens trans, que som as­se­di­a­dos por qua­dri­lhas pola sua iden­ti­dade. Muitas ve­zes so­frem de as­sé­dio fí­sico e se­xual por gan­gues quando com­pro­vam que te­nhem um nome fe­mi­nino no seu do­cu­mento. E há mesmo ca­sos do­cu­men­ta­dos de ofi­ci­ais das for­ças ar­ma­das e da po­lí­cia na­ci­o­nal que fam o mesmo, polo que as quei­xas, mesmo que se apre­sen­tem, nom ga­ran­tem a se­gu­ran­çam em nen­gum caso.

As mu­lhe­res lés­bi­cas so­frem vi­o­la­çons cor­re­ti­vas como prá­tica “res­tau­ra­dora” da sua he­te­ros­se­xu­a­li­dade, pra­ti­ca­das prin­ci­pal­mente por fa­mi­li­a­res que pen­sam que com umha vi­o­la­çom ‑com a pe­ne­tra­çom- a fi­lha po­derá “cu­rar-se”. Os ho­mens gais pas­sam por te­ra­pias de re­con­ver­som à base de ele­tro­cho­que, ou os pais le­vam os fi­lhos a bor­deis para se­rem as­se­di­a­dos por umha tra­ba­lha­dora se­xual a fim de cor­ri­gir aquilo que con­si­de­ram ser umha des­vi­a­çom da sua “hom­bría”.

O Estado nom fai qual­quer cousa para mu­dar a si­tu­a­çom de vi­o­lên­cia con­tí­nua dos di­rei­tos hu­ma­nos?

O dis­curso de ódio enerva e exa­gera ainda mais a vi­o­lên­cia cara às pes­soas LGTBI

Nom. A ati­tude do Estado é pas­siva, ape­sar de que se fai vi­sí­vel e se de­nun­cia. Há umha Secretaria de Diversidade Sexual que de­via era ter um pa­pel mais pro­ta­go­nista, mas está mui li­mi­tada. Desde 2011 que es­ta­mos a ten­tar avan­çar com a Lei de Identidade de Género, mas de­pois de em março do ano pas­sado ter en­trado à as­sem­bleia le­gis­la­tiva, aca­bou por ser ar­qui­vada pola falta de von­tade po­lí­tica dos de­pu­ta­dos. Temos ainda 84 de­pu­ta­dos a co­lo­ca­rem a sua re­li­giom à frente do seu de­ver cons­ti­tu­ci­o­nal. El Salvador é um es­tado laico de acordo com a Constituiçom, mas te­mos umha Assembleia em que se ce­le­bram mis­sas, com a ima­gem da Virgem a sur­gir por toda a parte, em vez de co­lo­ca­rem a mao por cima da Constituiçom para ju­ra­rem o seu cargo, pre­fe­rem é a Bíblia, que con­si­de­ram o li­vro sa­grado. Ademais, o Estado per­mite que gru­pos anti-di­rei­tos pas­sem a sua men­sa­gem de ódio con­tra a ori­en­ta­çom se­xual e a iden­ti­dade de gé­nero das pes­soas. É certo que vi­ve­mos num país no que há li­ber­dade de ex­pres­som, mas se se pas­sam men­sa­gens de ódio para a so­ci­e­dade, isso de­via es­tar re­gu­lado. É mui grave. Este dis­curso de ódio enerva e exa­gera ainda mais a vi­o­lên­cia cara as pes­soas LGTBI. E nom está re­gu­lado. Na co­mu­ni­ca­çom so­cial há cam­pa­nhas a fa­la­rem nesta ide­o­lo­gia de ódio, como se pas­sou no es­tado es­pa­nhol com o au­to­carro da Hazte Oír. Eles cha­mam-no de “ide­o­lo­gia de gé­nero”, mas nom é ide­o­lo­gia de gé­nero por­que é o pró­prio es­tado a cri­mi­na­li­zar as mu­lhe­res que re­sol­vem abor­tar, ao ponto de que mesmo tendo de­ci­dido avan­çar com a ideia de se­rem maes, ao so­fre­rem um aborto na­tu­ral, po­dem aca­bar por ser con­de­na­das a 50 anos de cár­cere por ho­mi­cí­dio. No Salvador há mui­tas mu­lhe­res na pri­som por es­tas cir­cuns­tân­cias (sendo ainda ata­ca­das po­las pre­sas por­que o aborto está mui mal visto). Embora te­nha­mos leis que pro­te­gem a in­fân­cia e a ado­les­cên­cia, es­tas nom se apli­cam. Há me­ni­nas de 10 anos com fi­lhos, me­ni­nas a cui­da­rem de me­ni­nos, mui­tas ve­zes por causa do as­sé­dio a que fô­rom sub­me­ti­das por fa­mi­li­a­res ou co­nhe­ci­dos. E onde é que es­tám es­ses as­se­di­a­do­res a cum­pri­rem pena por isso? Nom es­tám.

El Salvador é, por as­sim di­zer, um es­tado fa­lido com umha falta de ins­ti­tu­ci­o­na­li­dade gra­vís­sima.

Como com­pa­ra­rias esta si­tu­a­çom a do es­tado es­pa­nhol ou dou­tras par­tes do mundo?

No mundo a si­tu­a­çom avan­çou um pouco. Começou por ser re­gu­lado na América Latina e no Caribe: em 2017 apa­re­ceu a Opiniom Consultiva nú­mero 24 à luz da Comissom Interamericana dos DDHH. Afora o de­bate em torno de se deve ser ou nom vin­cu­la­tivo, nela fala-se no re­co­nhe­ci­mento dos di­rei­tos re­la­ti­vos à ex­pres­som e iden­ti­dade de gé­nero, e os ma­tri­mó­nios en­tre pes­soas do mesmo sexo. Para além de se re­co­nhe­cer na Convençom, os es­ta­dos de­viam aten­der para es­tas re­co­men­da­ções e ga­ranti-los. Porém, há ainda paí­ses a im­po­rem pe­nas de morte polo facto de se ser LGTBI, sem ir mais longe, numha po­tên­cia mun­dial como é a Rússia.

No es­tado es­pa­nhol re­gis­tá­rom-se mui­tos avan­ços, mas es­ses di­rei­tos po­dem es­tar em risco, se nom som ‘as­si­na­dos em pe­dra’. Se o es­ti­ves­sem, po­día­mos fi­car des­can­sa­das, mas nom é bem as­sim.

pa­blo san­ti­ago

Para o re­co­nhe­ci­mento das pes­soas trans, aju­dava ter­mi­nar com a ideia de que ape­nas exis­tem dous gé­ne­ros, e que as mu­lhe­res te­nhem va­gina e os ho­mens, pene?

O pro­blema é a he­te­ro­nor­ma­ti­vi­dade, que che di como tem que ser um ho­mem e como tem que ser umha mu­lher, e tudo aquilo que es­ti­ver por fora disso, está er­rado. É certo que mui­tas mu­lhe­res trans ado­tam umha iden­ti­dade fe­mi­nina e os ho­mens trans umha mas­cu­lina, mas tam­bém é ver­dade que es­tám a sur­gir mais gé­ne­ros que é ne­ces­sá­rio va­li­dar. Nom se aceita é esta re­a­li­dade polo pa­tri­ar­cado e o sis­tema opres­sor em que vi­ve­mos. Ademais, se as mu­lhe­res trans som más dis­cri­mi­na­das que os ho­mens trans é por­que elas re­nun­ciam aos pri­vi­lé­gios que ti­nham en­quanto ho­mens, e isso o pa­tri­ar­cado nom o to­lera. A cousa vai para além de fa­lar em pe­nes e va­gi­nas. Além disso, se o pen­sar­mos bem, ter­mos pene ou va­gina, para que é que serve? Há pes­soas que acham que serve para re­pro­du­zirmo-nos, mas, en­tom, umha mu­lher es­té­ril deixa de o ser por isso? Esta ide­o­lo­gia de que as mu­lhe­res te­nhem vulva e ser­vem para a re­pro­du­çom fi­cou ob­so­leta, es­cra­viza as mu­lhe­res e tem de de­sa­pa­ra­cer.

És oti­mista so­bre o fu­turo?

A ju­ven­tude é agente de mu­dança, é ela que pode edu­car os seus pais no fe­mi­nismo e no mo­vi­mento LGTBI

A chave é nom dei­xar de lu­tar. O mo­vi­mento so­cial tem que re­for­çar-se a par­tir da base, a luta so­cial cons­trói-se na rua e nom a par­tir de um es­cri­tó­rio ou de um par­la­mento, por­que é na rua que se ge­ram as exi­gên­cias e os di­rei­tos. De nada serve ter­mos as leis do nosso lado se a so­ci­e­dade ci­vil está de­sin­for­mada e nom con­si­dera os di­rei­tos LGTBI como di­rei­tos hu­ma­nos. É pre­ciso ape­lar para a uni­dade para evi­tar­mos a perda de di­rei­tos, um exem­plo é a Costa Rica, que viu os avan­ços fe­mi­nis­tas e LGTBI a se­rem ame­a­ça­dos por um pas­tor evan­ge­lista, mas a so­ci­e­dade, agindo em con­junto, con­se­guiu en­tra­var a ame­aça. Por isso é tam im­por­tante a edu­ca­çom e fa­lar nos li­ceus. A ju­ven­tude é agente de mu­dança, é ela que pode edu­car os pais no fe­mi­nismo e no mo­vi­mento LGTBI, mos­trar-lhes que nada há de er­rado em se ser trans ou ho­mos­se­xual, mas, an­tes polo con­trá­rio, ter umha iden­ti­dade pró­pria ajuda as pes­soas a se­rem fe­li­zes.

O fa­lo­cen­trismo e o pa­tri­ar­cado es­tám um pouco por toda a parte, até nas to­ma­das elé­tri­cas que cha­ma­mos de ma­cho e fê­mea de acordo com como as in­tro­du­za­mos, nom é?

(ri­sos) Claro, a so­ci­e­dade está se­xu­a­li­zada com base no fa­lo­cen­trismo, com a mu­lher a as­su­mir o pa­pel de su­jeito pas­sivo, como sendo pe­ne­trá­vel, como as to­ma­das. A sub­missa. O ho­mem é o que tem a van­ta­gem, o que exerce o po­der. E isto com­prova-se por toda a parte. Até que isso nom mude, a si­tu­a­çom para as mu­lhe­res e pes­soas trans nom vai mu­dar.

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