Periódico galego de informaçom crítica

Histórias placebo

por
ne­rea v. la­meiro

Qualquer re­mé­dio, com ex­ce­çom dos ho­me­o­pá­ti­cos, tem de pas­sar umha sé­rie de pro­vas de con­trolo que re­que­rem que se mos­tre mais efe­tivo que o efeito pla­cebo, para ser re­co­nhe­cido como me­di­ca­mento e po­der ser co­mer­ci­a­li­zado e sub­mi­nis­trado como tal. Nestes es­tu­dos as pes­soas vo­lun­tá­rias som di­vi­di­das em gru­pos, de forma que um re­cebe a droga e ou­tro toma um falso me­di­ca­mento, sem sa­ber disto nem a pes­soa que a con­some nem a que a ad­mi­nis­tra (du­plo-cego). Com esta pes­quisa é pos­sí­vel ava­liar se o re­mé­dio aporta efei­tos po­si­ti­vos, com­pa­rando o grupo re­al­mente me­di­cado com o grupo que es­tivo a con­su­mir pí­lu­las de açú­car. Em re­sumo, é o pla­cebo o que per­mite pon­de­rar a efi­cá­cia da subs­tan­cia quí­mica.
Estudos re­cen­tes mos­tram que o efeito pla­cebo está a dar al­gumha dor de ca­beça à co­mu­ni­dade ci­en­tí­fica, pois desde que se es­tuda (lá por 1799) até os nos­sos dias, nom tem dei­xado de me­drar, as­so­ci­ando-se a va­riá­veis do mais in­sig­ni­fi­can­tes, como o ta­ma­nho ou a cor da pí­lula, o trato amá­vel do pes­soal me­dico ou o preço — e a pu­bli­ci­dade — do pro­duto.

O efeito placebo está a dar algumha dor de cabeça à comunidade científica, pois desde que se estuda (lá por 1799) até os nossos dias, nom tem deixado de medrar, associando-se a variáveis do mais insignificantes, como o tamanho ou a cor da pílula, o trato amável do pessoal medico ou o preço - e a publicidade - do produto

Na me­di­cina con­ven­ci­o­nal esta é umha ques­tom de que se fala com a boca pe­quena e acon­tece-nos, a quem fo­mos adou­tri­na­das neste mesmo jeito de en­ten­der, que fi­ca­mos con­fu­sas quando ve­mos como o efeito pla­cebo é uti­li­zado sem re­pa­ros como mais umha fer­ra­menta para a sa­na­çom. E isto acon­tece de se­guido nas pra­ti­can­tes da me­di­cina tra­di­ci­o­nal ba­se­ada no uso de er­vas me­di­ci­nais.
Antes de po­der eu com­pre­en­der (e pra­ti­car) isto, en­con­trei-me numha vila ru­ral com um grupo de mu­lhe­res fa­lando so­bre plan­tas. Na apre­sen­ta­çom fa­lou umha co­nhe­cida mi­nha que, se­gundo a sua de­ta­lhada ver­som dos fei­tos, que se­ria mui longa para re­pro­du­zir aqui, ti­nha cu­rado as fe­ri­das que lhe cau­sa­ram uns to­ros de pi­nheiro que caí­ram da carga de um trac­tor, co­lhendo-lhe a per­nas à al­tura dos gé­meos, com um óleo de ár­nica que eu lhe ti­nha apre­sen­tado numha oca­siom. A his­tó­ria nom se­ria in­ve­ro­sí­mil, se nom ti­vesse afir­mado com to­tal de­ter­mi­na­çom “a ma­nhá se­guinte nom ti­nha nada!”. Ainda nom sa­bia eu da im­por­tán­cia ra­di­cal de fo­men­tar este tipo de cren­ças so­bre os re­mé­dios an­tes de aplicá-los, e nom pui­dem evi­tar fi­car ver­me­lha ao sen­tir-me adu­lada.
Agora que já co­nhe­cim mui­tos re­la­tos as­sim fum-me fa­mi­li­a­ri­zando com essa bo­nita ma­neira de fa­lar do má­gico po­der das er­vas, e com­pre­en­dim o sen­tido de essa ora­tó­ria. O que an­tes achava de lar­cheios des­ne­ces­sá­rios para se re­fe­rir às pro­pri­e­da­des cu­ra­ti­vas de um re­mé­dio, agora co­bram sen­tido no fio de um pro­to­colo onde a aten­çom ao corpo nom pode des­li­gar-se da aten­çom à mente, onde a en­fer­mi­dade nom é aten­dida como umha fa­lha me­cá­nica se­nom como um mo­mento da vida. E to­das as his­tó­rias que acom­pa­nham a ár­nica como a ou­tras das mais re­co­nhe­ci­das er­vas da nossa tra­di­çom me­di­ci­nal, malva, chan­ta­gem, ver­bena, den­ta­bru,.. for­mam parte do seu po­ten­cial me­di­ca­men­toso.
De se­guro que mui­tas das lei­to­ras se te­rám to­pado no meio de umha con­versa onde se lou­va­vam as pro­pri­e­da­des mi­la­gro­sas de al­gum re­mé­dio, que ti­nham mu­dado a vida de al­guém que vi­via no de­ses­pero. Gravem nas suas me­mó­rias! Sem ainda umha ex­pli­ca­çom ci­en­tí­fica para as ca­pri­cho­sas ma­ni­fes­ta­çons do efeito pla­cebo, é o jeito de con­ser­var a nossa me­di­cina nas me­lho­res con­di­çons para quando pre­ci­sar­mos dela.

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