Periódico galego de informaçom crítica

Linguagem inclusiva para mudar a realidade

por
laura wil­son

Quando era nena, mi­nha avoa ber­rava-me cada vez que in­ter­vi­nha nas dis­cus­sons dos mais ve­lhos so­bre po­lí­tica. Os mais ve­lhos eram ho­mens. Com o tempo, re­pa­rei em que esse berro se ia con­ver­tendo num si­lên­cio que ti­nha o mesmo sig­ni­fi­cado. Agora nin­guém di que te­nho que ca­lar, mas mui­tas ve­zes acho-me em si­tu­a­çons nas quais só fa­lam os ho­mens e nas quais quase é im­pos­sí­vel in­ter­vir.
Lakoff de­fi­niu na dé­cada dos se­tenta que fa­la­mos com me­tá­fo­ras e que es­tas de­ter­mi­nam o nosso pen­sa­mento. A hi­pó­tese Sapir-Whorf as­si­nala o mesmo dou­tra pers­pe­tiva, a forma em que nos co­mu­ni­ca­mos, a nossa lín­gua, con­fi­gura a nossa ma­neira de pen­sar. Nesta li­nha, as va­gas do fe­mi­nismo dos anos oi­tenta vi­nhé­rom re­mar­car o feito de que a nossa lín­gua re­flete o nosso pen­sa­mento, e non só o re­flete se­nom que tam­bém o re­pro­duz. Deste modo, quando fa­la­mos, dumha forma to­tal­mente in­cons­ci­ente es­ta­mos a con­tri­buir para que a so­ci­e­dade que cri­ti­ca­mos con­ti­nue na mesma di­ná­mica. Se ca­lhar, se mu­da­mos de lín­gua, mu­da­mos de pen­sa­mento e mu­da­mos o es­tado do mundo.

a forma em que nos comunicamos, a nossa língua, configura a nossa maneira de pensar

A lín­gua que uti­li­za­mos re­flete as re­la­çons de po­der que se in­se­rem na so­ci­e­dade pa­tri­ar­cal. Exemplo disto é o em­prego de ter­mos fe­mi­ni­nos mar­ca­dos ne­ga­ti­va­mente e de ter­mos mas­cu­li­nos de jeito po­si­tivo. Fazer-nos cons­ci­en­tes das im­pli­ca­çons que tem po­de­ria tra­zer con­sequên­cias.
Eis en­tra o fe­mi­nino in­clu­sivo, umha das fer­ra­men­tas das quais se serve a lin­gua­gem nom dis­cri­mi­na­tó­ria. O feito de uti­li­zar­mos umha forma de ex­pres­som tam mar­cada fun­ci­ona como re­vul­sivo para umha so­ci­e­dade que po­de­ria res­pon­der per­gun­tando por que nos ex­pres­sa­mos as­sim ou se nom es­ta­mos a re­pro­du­zir a mesma di­ná­mica dis­cri­mi­na­tó­ria ao in­vês.
Na li­nha de ex­pres­som em fe­mi­nino, a aca­de­mia es­pa­nhola pro­nun­ciou-se a par­tir dal­guns dos seus aca­dé­mi­cos as­si­na­lando a forma como an­ti­na­tu­ral. Os que se pro­nun­ciam cos­tu­mam ser ho­mens. Na Galiza, o de­bate so­bre o uso do fe­mi­nino in­clu­sivo nom está tam avi­vado em ter­mos ins­ti­tu­ci­o­nais. Se olha­mos a com­po­si­çom das aca­de­mias, as mu­lhe­res pa­re­cem nom ter a pre­sença que ca­be­ria es­pe­rar numha so­ci­e­dade equi­ta­tiva. Na RAE, ape­nas um 17% das pes­soas aca­dé­mi­cas som mu­lhe­res, na RAG perto do 21% . Nas di­re­çons nunca ocu­pam os car­gos vi­sí­beis (atu­al­mente na RAE as mu­lhe­res na di­re­çom som pri­meira e se­gunda vo­gal ad­jun­tas, na RAG te­sou­reira e ar­qui­vám-bi­bli­o­te­cá­ria). Por que?

Se nom temos pessoas feministas nas academias está claro que o reclamo dum uso nom discriminatório da linguagem nom vai surgir

Se nom te­mos pes­soas fe­mi­nis­tas nas aca­de­mias está claro que o re­clamo dum uso nom dis­cri­mi­na­tó­rio da lin­gua­gem nom vai sur­gir. Som as pes­soas de base as que te­nhem que pro­tes­tar para que o pa­no­rama mude. O feito de que ape­nas haja mu­lhe­res nas aca­de­mias e que es­te­jam re­le­ga­das a po­si­çons de in­vi­si­bi­li­dade dá mos­tra da si­tu­a­çom de de­si­gual­dade da qual par­ti­mos. O uso da lin­gua­gem in­clu­siva está aí para mu­dar de base es­tas si­tu­a­çons, para que a gente re­pare em que o fa­ze­mos a modo de pro­testa. A su­posta di­ná­mica dis­cri­mi­na­tó­ria ao in­vés (eles usam o mas­cu­lino que é o nom mar­cado, nós o fe­mi­nino in­clu­sivo) nom é tal quando nos de­ca­ta­mos de que nesse -a in­cluí­mos aque­las pes­soas que fô­rom ex­cluí­das do bi­nó­mio ho­mem-mu­lher que apre­sen­tam as aca­de­mias. Nesse -a, to­das fa­ze­mos vi­sí­vel o in­vi­sí­vel.
A so­ci­e­dade ga­lega tem como em­blema Rosalia, mu­lher. Mas como as­si­nala Miguelez-Carballeira a ima­gem que se deu dessa mu­lher é muito con­creta, de­tur­pando-a. Fruto da si­tu­a­çom de opres­som na que se en­con­tra a nossa terra, a ten­dên­cia se­ria pen­sar que, como as di­fe­ren­tes cau­sas de re­clamo se abra­çam, tendo em conta o re­clamo na­ci­o­na­lista tam­bém apa­reça o fe­mi­nista (e o obreiro e o eco­lo­gista e o rein­te­gra­ci­o­nista…). Mas nem sem­pre é as­sim. Inclusive na AGAL, no con­se­lho só apa­rece umha mu­lher, mais umha vez, de vo­gal.
Fazer que a lin­gua­gem seja in­clu­siva, po­de­ria fa­zer que esse si­lên­cio que nos im­po­nhem, de­sa­pa­reça de vez. Ou qui­çais nom, mas nom há nada de mau em tentá-lo.

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