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Livres até o final. Lei de eutanásia, umha vitória no caminho

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Dia da Morte Digna 2020, em Porto Doçom.

A luita polo di­reito a umha morte digna no es­tado es­pa­nhol, vem de bem longe. De forma or­ga­ni­zada, desde o ano 1984 quando é fun­dada a as­so­ci­a­çom Direito a Morrer Dignamente. Em 17 de de­zem­bro úl­timo, o Parlamento es­pa­nhol apro­vou a “Lei de Regulaçom da Eutanásia”. Encontra-se pen­dente de apro­va­çom no Senado.

Desde Ramón Sampedro, que lui­tou polo di­reito a dis­por da sua vida e foi aju­dado a mor­rer por Ramona no ano 1998, até María José Carrasco que le­vou avante a mesma luita e mor­reu aju­dada por Ángel no ano 2019, mi­lha­res de pes­soas dé­rom mi­lha­res de pas­sos para con­se­guir que esta lei com am­plo con­senso so­cial (se­gundo da­dos da Metroscopia de 2019, 87% das pes­soas con­sul­ta­das som a fa­vor), fosse aprovada.

Moitas de­las tor­ná­rom pú­blica a sua morte vo­lun­tá­ria umha vez acon­te­cida, ou­tras fô­rom en­tre­vis­ta­das an­tes de da­rem o passo, umas fi­gé­rom-no por si pró­prias e ou­tras com ajuda. Algumas re­cor­rê­rom à jus­tiça para so­li­ci­tar o di­reito a mor­rer den­tro da le­ga­li­dade sem te­rem que com­pro­me­ter  nin­guém. E cen­tos, pos­si­vel­mente mi­lha­res fazendo‑o na in­ti­mi­dade, de forma clandestina.

As pes­soas que de­fen­de­mos o di­reito à eu­ta­ná­sia, con­si­de­ra­mos que só nós so­mos ca­pa­zes de con­si­de­rar o mo­mento em que a nossa vida deixa de ser digna e que­re­mos dei­xar de a viver

As/os que de­fen­de­mos o di­reito à eu­ta­ná­sia, con­si­de­ra­mos que só nós so­mos ca­pa­zes de con­si­de­rar o mo­mento em que a nossa vida deixa de ser digna e que­re­mos dei­xar de a vi­ver Pensamos que a nossa vida é nossa, nem de um deus, nem do es­tado, nem da so­ci­e­dade ou das nos­sas fa­mí­lias. Defendemos tam­bém que, como todo di­reito, é para ser exer­cido se­gundo a nossa von­tade, por­tanto nom é umha obri­ga­çom. Por úl­timo, de­fen­de­mos que es­teja re­gu­lado e que seja o es­tado que o ga­ranta com re­cur­sos pú­bli­cos.

É bom lem­brar­mos que nos paí­ses onde a eu­ta­ná­sia há tempo que está le­ga­li­zada, o ín­dice de mor­tes as­sis­ti­das é de en­tre 1 e 4% do to­tal de mor­tes anuais.

A lei apro­vada em de­zem­bro é ga­ran­tista, ao nosso ver de mais. É ne­ces­sá­rio um di­ag­nós­tico de do­ença grave, cró­nica, in­va­li­dante, in­cu­rá­vel, num con­texto de so­fri­mento que a pes­soa con­si­dera ina­cei­tá­vel e nom pode ser mi­ti­gado. A pes­soa deve es­tar in­for­mada de to­das as pos­si­bi­li­da­des de tra­ta­mento, in­cluindo os cui­da­dos pa­li­a­ti­vos. Deve ex­pres­sar-se a von­tade duas ve­zes no prazo de 15 dias pe­rante dous fa­cul­ta­ti­vos di­fe­ren­tes. Posteriormente, umha co­mis­som es­tu­dará o caso e é pre­ciso re­a­fir­mar-se ainda duas ve­zes mais. O pro­cesso pode du­rar dois me­ses. A pe­ti­çom pode ser apro­vada ou rejeitada.

Que é o que acon­tece com as pes­soas com do­ença de Alzheimer ou com de­mên­cias se­nis? E com al­guém que fi­que em es­tado de coma após um aci­dente? Por ou­tra parte, a lei deixa fora da sua apli­ca­çom me­no­res de 16 a 18 anos (quando, por exem­plo, a essa idade po­dem ser do­a­do­res de ór­gaos) e tam­bém ex­clui quem pa­dece do­en­ças mentais.

Mesmo as­sim, pen­sa­mos que esta lei é um gran­dís­simo passo no ca­mi­nho cara umha lei em que cai­bam to­dos os ca­sos e a von­tade da pes­soa que so­li­cite a eu­ta­ná­sia, con­forme as suas cren­ças e fi­lo­so­fia de vida, fi­que por riba de tudo.

Entretanto há que se man­ter vi­gi­ante ante a sua apli­ca­çom, cri­ando re­des en­tre a ci­da­da­nia e o pes­soal da saúde que pres­tem in­for­ma­çons e apoio para a apli­ca­çom da lei por­que ha­verá mé­di­cos e mé­di­cas que “ob­je­tem”, ha­verá de­nún­cias, ha­verá cam­pa­nhas nos meios mais re­a­ci­o­ná­rios e de sec­to­res li­ga­dos à igreja ca­tó­lica, mas o di­reito a mor­rer dig­na­mente vai avante.

A luita polo di­reito a dis­por das nos­sas vi­das na Galiza tam­bém vem de bem longe e tivo um grande pulo com a luita de Ramón Sampedro. A DMD-Galiza ins­ti­tuiu em 2019, o dia 12 de ja­neiro ani­ver­sa­rio do seu pas­sa­mento, como “Dia da Morte Digna na Galiza”.

A importância do testamento vital

Concentraçom em Vigo o dia da apro­va­çom da lei.

O “Testamento vi­tal” ou “Instruçons pré­vias” re­co­lhe os cui­da­dos mé­di­cos aos quais a pes­soa de­seja ou nom ser sub­me­tida se che­gasse a umha si­tu­a­çom em que nom lhe fosse pos­sí­vel ma­ni­fes­tar a sua von­tade. Normalmente é as­si­nado por quem não quer ver a sua vida pro­lon­gada numa si­tu­a­çom ir­re­ver­sí­vel e em con­di­çons que nom con­si­dera dignas.

Pode-se, e é re­co­men­dá­vel, no­mear umha pes­soa que nos re­pre­sente e sirva de in­ter­lo­cu­tora com o pes­soal mé­dico que nos trata.

A exis­tên­cia deste do­cu­mento está le­gis­lada há já mui­tos anos, na Galiza desde o ano 2002 na “Lei de au­to­no­mia do do­ente”. No 2007 re­gula-se o “Documento de Instruçons Prévias”. Em 2014 é ins­ti­tuído um re­gisto, que de­pende da Conselharia da Saúde, in­ter­li­gado com um re­gisto es­ta­tal. Registado este do­cu­mento apa­re­cerá na nossa his­to­ria clí­nica. O Testamento Vital é re­vo­gá­vel em qual­quer momento.

Na atu­a­li­dade, este do­cu­mento ape­nas pode ser as­si­nado em 36 pon­tos, dis­tri­buí­dos de forma ir­re­gu­lar se­gundo as províncias

Na Galiza, a dia de hoje, ainda nom está su­fi­ci­en­te­mente pu­bli­ci­tada a exis­tên­cia deste di­reito.  Na atu­a­li­dade ape­nas pode ser as­si­nado em 36 pon­tos, dis­tri­buí­dos de forma ir­re­gu­lar se­gundo as pro­vín­cias; se­riam as Delegaçons Provinciais da Junta, os hos­pi­tais e um es­casso 4% de Centros de Saúde, sendo es­tes os lo­cais mais aces­sí­veis para toda a po­pu­la­çom. A ad­mi­nis­tra­çom nem fa­ci­lita nem pro­move en­tre a po­pu­la­çom nem en­tre o pes­soal mé­dico o exer­cí­cio deste di­reito, pondo todo tipo de en­tra­ves para o re­gisto. É as­sim que, en­quanto em Nafarroa, à ca­beça no es­tado, ou na Catalunha há as­si­na­dos mais de um 13 por mil tes­ta­men­tos vi­tais, na Galiza ape­nas che­ga­mos ao 4,18.

Convém re­se­nhar a “Lei so­bre di­rei­tos e ga­ran­tias das pes­soas do­en­tes ter­mi­nais” de 2015 que con­tem­pla, en­tre ou­tras pres­ta­çons, o di­reito a cui­da­dos pa­li­a­ti­vos até a se­da­çom ter­mi­nal. Essa lei nom é do­tada de re­cur­sos su­fi­ci­en­tes para que es­tas pres­ta­çons se­jam aces­sí­veis a toda a po­pu­la­çom no pró­prio do­mi­cí­lio, re­si­dên­cia ou hospital.

Se ti­ver­mos as­si­nado e re­gis­tado este do­cu­mento e a nossa fa­mí­lia, ami­za­des e a nossa mé­dica ou mé­dico de fa­mí­lia sa­bem da nossa von­tade, da ideia de vida digna que te­mos, de como nom que­re­ría­mos vi­ver, em de­fi­ni­tivo, do mo­mento em que pe­di­ría­mos, se es­ti­vés­se­mos cons­ci­en­tes, a apli­ca­çom da eu­ta­ná­sia, tudo pode, ou em te­o­ria deve, ser mais fácil.

Temo-nos que ani­mar a ser mais ati­vas no mo­mento de exi­gir in­for­ma­çons e de tor­nar efe­ti­vos es­tes di­rei­tos por­que que­re­mos ser li­vres até o fi­nal.

Luisa Cuevas Raposo e Isabel blanco domínguez som feministas e ativistas polo direito a morrer com dignidade.

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