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Luta cidadã contra o glifosato e outros agroquímicos

por
has­sim vaio mundo

O gli­fo­sato vol­tou re­cen­te­mente a sair à pa­les­tra me­diá­tica de­vido à re­no­va­ção da au­to­ri­za­ção para o uso deste her­bi­cida por parte da Comissão Europeia por mais cinco anos. Isto acon­te­ceu de­pois de me­ses de ne­go­ci­a­ções e po­lé­mi­cas, vá­rias vo­ta­ções e uma sur­pre­en­dente mu­dança fi­nal de voto por parte dos re­pre­sen­tan­tes da Alemanha, com o voto con­trá­rio fran­cês, o apoio es­pa­nhol e a abs­ten­ção por­tu­guesa.

O gli­fo­sato é ma­ci­ça­mente uti­li­zado pe­las ad­mi­nis­tra­ções pú­bli­cas, por em­pre­sas e por pes­soas par­ti­cu­la­res em mui­tas ati­vi­da­des de pro­du­ção agrí­cola e flo­res­tal, em par­ques e jar­dins, nas ber­mas das es­tra­das, etc. De facto, este her­bi­cida da Monsanto, que a Organização Mundial da Saúde iden­ti­fi­cou como uma subs­tân­cia “pro­va­vel­mente can­ce­rí­gena” em março de 2015 e cu­jos efei­tos no­ci­vos nos ani­mais e no am­bi­ente fo­ram ci­en­ti­fi­ca­mente cons­ta­ta­dos, é hoje um dos agroquí­mi­cos mais usa­dos no mundo.

Mas o gli­fo­sato, que se tor­nou o sím­bolo da luta con­tra os agroquí­mi­cos a ní­vel pla­ne­tá­rio, é ape­nas a ponta do ice­berg dou­tros mui­tos bi­o­ci­das e pro­du­tos fi­to­far­ma­cêu­ti­cos ma­ci­ça­mente usa­dos desde a ex­pan­são da de­no­mi­nada “re­vo­lu­ção verde”, e que fa­zem parte do mo­delo e da ló­gica do ne­gó­cio agroquí­mico. Para fi­car­mos com uma ideia do vo­lume de ne­gó­cio li­gado aos pro­du­tos agroquí­mi­cos, baste re­fe­rir que, só na Galiza, con­forme in­di­cam os úl­ti­mos da­dos dis­po­ní­veis, a des­pesa anual em ve­ne­nos agrí­co­las as­cende a cerca de 20 mi­lhões de eu­ros, cor­res­pon­den­tes a mais de 2.200 to­ne­la­das de fun­gi­ci­das, her­bi­ci­das, aca­ri­ci­das, in­se­ti­ci­das e ou­tros agro­tó­xi­cos.

Concelhos ga­le­gos sem gli­fo­sato e ou­tros her­bi­ci­das
Entre nós a sen­si­bi­li­za­ção a res­peito des­tes pro­du­tos está a au­men­tar. Deste modo, di­fe­ren­tes ações e cam­pa­nhas têm pro­mo­vido nos úl­ti­mos anos a apre­sen­ta­ção de mo­ções nos con­ce­lhos, para pa­ra­li­sar o uso de her­bi­ci­das com gli­fo­sato nos es­pa­ços pú­bli­cos, fa­vo­re­cendo o de­bate ci­da­dão em re­la­ção a este e ou­tros her­bi­ci­das. Assim, os mo­vi­men­tos so­ci­ais es­tão a le­var a cabo cam­pa­nhas para re­cla­mar a subs­ti­tui­ção des­tes agro­tó­xi­cos por mé­to­dos me­câ­ni­cos e/ou bi­o­ló­gi­cos não po­lu­en­tes, inó­cuos para a saúde e o am­bi­ente.

Na Galiza a despesa anual em venenos agrícolas ascende a perto de 20 milhões de euros

Efetivamente, nos úl­ti­mos anos, em mui­tos mu­ni­cí­pios fo­ram apre­sen­ta­das mo­ções para a de­cla­ra­ção de con­ce­lhos li­vres de gli­fo­sato ou de her­bi­ci­das. Assim, por exem­plo, au­tar­quias como a de Ames, Arçua, Compostela, Marim, Poio, Gondomar, Ponte Areias e Ourense apro­va­ram mo­ções nessa di­re­ção. É de sa­li­en­tar que mui­tas des­tas ini­ci­a­ti­vas nas­cem de mo­vi­men­tos am­bi­en­ta­lis­tas ou da so­ci­e­dade ci­vil or­ga­ni­zada e são uma ma­ni­fes­ta­ção de que a cons­ci­ên­cia ci­dadã em re­la­ção aos agroquí­mi­cos está a cres­cer de modo sig­ni­fi­ca­tivo en­tre nós. Cada vez mais, o uso des­tes pro­du­tos, con­trá­rios às prá­ti­cas da agri­cul­tura bi­o­ló­gica, está a ser posto em dis­cus­são pela so­ci­e­dade ga­lega, que já não con­sente apli­ca­ções ma­ci­ças sem con­tes­ta­ção po­pu­lar.

Certamente, ainda que a le­gis­la­ção es­pa­nhola exis­tente seja muito per­mis­siva quanto às apli­ca­ções de pro­du­tos fi­tos­sa­ni­tá­rios, o Real-Decreto 1311/2012 de uso sus­ten­tá­vel dos pro­du­tos fi­tos­sa­ni­tá­rios es­ta­be­lece que deve dar-se pri­o­ri­dade, quando tal for pos­sí­vel, aos mé­to­dos não quí­mi­cos, pre­cau­ção que pa­rece não ser res­pei­tada por mui­tas ad­mi­nis­tra­ções ga­le­gas, já que não é es­tra­nho en­con­trar­mos vi­a­tu­ras fu­mi­gando nas ber­mas das es­tra­das o que está a im­pul­sar o in­cre­mento da sen­si­bi­li­za­ção e mo­bi­li­za­ção ci­dadã. No mesmo sen­tido, o qua­dro nor­ma­tivo es­ta­be­lece a ne­ces­si­dade do cum­pri­mento de uma sé­rie de con­di­ções, de dis­tân­cias mí­ni­mas e de me­di­das es­pe­cí­fi­cas para áreas mais sen­sí­veis como as zo­nas de ex­tra­ção de água para con­sumo hu­mano que é ne­ces­sá­rio co­nhe­cer.

Conflitos só­cio-am­bi­en­tais li­ga­dos aos pro­du­tos agroquí­mi­cos
Na Galiza nos úl­ti­mos anos têm ha­vido di­fe­ren­tes con­fli­tos só­cio-am­bi­en­tais li­ga­dos à uti­li­za­ção de pro­du­tos agroquí­mi­cos. Em di­ver­sos pon­tos do País, mo­bi­li­za­ções po­pu­la­res em de­fesa dos re­cur­sos na­tu­rais pró­prios, como a água para o con­sumo hu­mano, tra­du­zi­ram-se em mi­cro­con­fli­tos só­cio-am­bi­en­tais, como o que ocor­reu em Ponte Areias e que deu lu­gar à pos­te­rior apro­va­ção da mo­ção em ple­ná­rio mu­ni­ci­pal con­tra o uso de her­bi­ci­das. Assim, pouco a pouco, por força da pres­são so­cial, al­guns con­ce­lhos es­tão a mu­dar os agroquí­mi­cos por mé­to­dos me­câ­ni­cos e sis­te­mas al­ter­na­ti­vos com ou­tros pro­du­tos não agres­si­vos para com o am­bi­ente.

Em muitos municípios foram apresentadas moções para a declaração de concelhos livres de glifosato

No mesmo sen­tido, em prin­cí­pios desta dé­cada as fu­mi­ga­ções me­di­ante mé­dios aé­reos com agroquí­mi­cos ge­ra­ram um grande con­flito am­bi­en­tal, que se ar­ti­cu­lou atra­vés da Plataforma con­tra as fu­mi­ga­ções e que or­ga­ni­zou di­fe­ren­tes ações pú­bli­cas. Estas ati­vi­da­des ti­ve­ram uma im­por­tante pre­sença de or­ga­ni­za­ções apí­co­las como a Associação Galega de Apicultura. Efetivamente, as abe­lhas tor­na­ram-se um sím­bolo da luta con­tra os agroquí­mi­cos ao ní­vel pla­ne­tá­rio e a Galiza não fi­cou à mar­gem deste mo­vi­mento, e or­ga­ni­za­ram-se im­por­tan­tes mo­bi­li­za­ções con­tra o uso dos agroquí­mi­cos que afe­tam es­tes in­se­tos, como a que teve lu­gar em Compostela no ano 2012.

Mas, se­gu­ra­mente, os con­fli­tos mais ha­bi­tu­ais nesta al­tura pren­dem-se com a uti­li­za­ção de her­bi­ci­das nas ber­mas das es­tra­das por parte das ad­mi­nis­tra­ções pú­bli­cas au­to­nó­mi­cas e pro­vin­ci­ais, e que está a mo­ti­var a or­ga­ni­za­ção de cam­pa­nhas de di­fe­ren­tes co­le­ti­vos am­bi­en­ta­lis­tas e so­ci­ais em mui­tos pon­tos do ter­ri­tó­rio ga­lego, de­nun­ci­ando as apli­ca­ções des­tes pro­du­tos e pres­si­o­nando os ges­to­res para que seja a pró­pria ad­mi­nis­tra­dor a dar exem­plo de boas prá­ti­cas am­bi­en­tais des­car­tando o uso de pro­du­tos agroquí­mi­cos.

Todos es­tes con­fli­tos, junto aos mo­vi­men­tos ci­da­dãos, am­bi­en­ta­lis­tas, apí­co­las e so­ci­ais re­la­ci­o­na­dos, es­tão a for­ta­le­cer a cons­ci­ên­cia ci­dadã em re­la­ção aos agroquí­mi­cos e a fo­men­tar o de­bate em re­la­ção à ne­ces­si­dade da uti­li­za­ção des­tes pro­du­tos quí­mi­cos.

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