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Nos bastidores da Lei de Depredação

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A cha­mada Lei de Depredação da Galiza (eu­fe­mis­ti­ca­mente de­no­mi­nada Lei de Fomento da Implantação de Iniciativas Empresariais) é um texto le­gal que nem a pró­pria Junta da Galiza teve co­ra­gem de apre­sen­tar como ini­ci­a­tiva do go­verno. Há neste pro­ce­der ra­zões de con­ve­ni­ên­cia (o trâ­mite de ur­gên­cia e ‘agos­to­si­dade’ pro­cu­ra­ram fur­tar o de­bate pú­blico) mas tam­bém de fundo. Mais além da evi­dente sin­to­nia en­tre o PP – pro­mo­tor da lei – e os mais evi­den­tes be­ne­fi­ci­a­dos –os gran­des lob­bies ex­tra­ti­vis­tas –, a re­da­ção evi­den­cia a guerra in­terna no seio da ad­mi­nis­tra­ção mo­ti­vada po­las pra­xes de­so­nes­tas ou ma­ni­fes­ta­mente ilí­ci­tas que nem sem­pre são acei­tes polo fun­ci­o­na­ri­ado.

Não se du­vida que fosse o pró­prio di­re­tor-ge­ral de Energia e Minas, Ángel Bernardo Tahoces, um dos re­da­to­res na som­bra da pro­po­si­ção da lei, re­es­cre­vendo li­te­ral­mente boa parte da le­gis­la­ção que re­gula os se­to­res mi­neiro e ener­gé­tico. No en­tanto, al­guns dos ar­ti­gos mais con­tes­ta­dos pe­los mo­vi­men­tos so­ci­ais são os que li­mi­tam ou di­re­ta­mente im­pos­si­bi­li­tam os con­tro­les e con­tra-pe­sos dos res­tan­tes ór­gãos se­to­ri­ais da ad­mi­nis­tra­ção, muito par­ti­cu­lar­mente das Águas da Galiza. A vi­ru­lên­cia da nova le­gis­la­ção con­tra a ad­mi­nis­tra­ção hi­dráu­lica é ver­da­dei­ra­mente inu­si­tada.

Só um mês para os re­la­tó­rios de Águas da Galiza
Nas mo­di­fi­ca­ções à lei de or­de­na­mento da ex­plo­ra­ção mi­neira, o prazo para que Águas emita os seus re­la­tó­rios fica re­du­zido para ape­nas um mês, in­di­cando que “não se te­rão em conta os pro­nun­ci­a­men­tos re­ce­bi­dos com pos­te­ri­o­ri­dade” (mesmo que ne­ga­ti­vos). No de­par­ta­mento de mi­nas sabe-se que o cum­pri­mento deste prazo por uma ad­mi­nis­tra­ção hi­dráu­lica es­va­zi­ada de pes­soal e meios é im­pos­sí­vel, ga­ran­tindo o si­lên­cio em re­la­ção a fu­tu­ros pro­je­tos po­lu­en­tes. Mesmo as­sim, o ar­tigo chega a in­cluir ele­men­tos co­er­ci­vos para pu­nir os fun­ci­o­ná­rios dou­tros de­par­ta­men­tos “res­pon­sá­veis de de­mora”.

Alguns artigos limitam ou impossibilitam os controles e contra-pesos de órgãos setoriais da administração

O in­tuito da lei não é ape­nas de­bi­li­tar e im­pe­dir os di­fe­ren­tes con­tro­los subs­tan­ti­vos às ati­vi­da­des sob res­pon­sa­bi­li­dade da Direção da Energia e Minas, mas eri­gir o pró­prio de­par­ta­mento em ente om­ni­po­tente, cu­jos re­la­tó­rios subs­ti­tui­rão “para to­dos os efei­tos, as cor­res­pon­den­tes au­to­ri­za­ções que (…) a so­li­ci­tante es­teja obri­gada a so­li­ci­tar des­ses ór­gãos [se­to­ri­ais]”. Veremos as­sim Tahoces au­to­ri­zando des­car­gas de águas re­si­du­ais no do­mí­nio pú­blico hi­dráu­lico, de­cla­rando a pre­va­lên­cia da uti­li­dade pú­blica para usos mi­nei­ros ou ener­gé­ti­cos so­bre ter­re­nos agro­pe­cuá­rios, ou per­mi­tindo a des­trui­ção de co­vas e cas­tros. Na ver­dade, to­dos es­tes ca­sos não são hi­po­té­ti­cos, mas exem­plos re­ais dos úl­ti­mos anos; ex­pe­ri­ên­cias que ex­pli­cam a emer­gên­cia desta lei.

Desde que em 2009 Tahoces as­sume a Direção-Geral da Energia e Minas em múl­ti­plas oca­siões são ou­tros de­par­ta­men­tos da Junta que de­vem pa­rar os pés à vo­ra­gem des­tru­tiva e po­lu­ente sob o lema Galicia es una mina. No caso das Minas de Sanfins, em Lousame, Tahoces ig­no­rou com­ple­ta­mente o con­di­ci­o­nante de sub­me­ter a ex­plo­ra­ção ao pro­ce­di­mento de ava­li­a­ção de im­pacto am­bi­en­tal, au­to­ri­zando-a ape­sar da ge­ra­ção de dre­na­gens áci­das de mina des­car­re­ga­das em gran­des quan­ti­da­des a pou­cos qui­ló­me­tros da ria de Muros e Noia, sem qual­quer tra­ta­mento. Esta si­tu­a­ção foi le­vada ao co­nhe­ci­mento das Águas da Galiza em 2016, que pa­ra­li­sou par­ci­al­mente o pro­jecto, ape­sar de nu­me­ro­sos es­cri­tos e cha­ma­dos do pró­prio di­re­tor-ge­ral de Minas vi­sando per­mi­tir a des­carga de cen­te­nas de mi­lha­res de me­tros cú­bi­cos de águas con­ta­mi­na­das por me­tais pe­sa­dos sem tra­ta­mento e à mar­gem do pro­ce­di­mento de au­to­ri­za­ção le­gal­mente es­ta­be­le­cido. Com a Lei de Depredação, este trâ­mite se­ria apro­pri­ado di­re­ta­mente polo Departamento de mi­nas.

Diretor-geral de Energia e Minas Ángel Bernardo Tahoces tem o objetivo de converter o órgão numa verdadeira prolongação do 'lobby' mineiro dentro da Junta

Desde a sua che­gada ao de­par­ta­mento, Tahoces pro­cu­rou pri­meiro so­lu­ci­o­nar as dis­si­dên­cias in­ter­nas com o ob­je­tivo de con­ver­ter o ór­gão numa ver­da­deira pro­lon­ga­ção do lobby mi­neiro den­tro da Junta. Noutra co­nhe­cida mina do mesmo grupo em­pre­sa­rial da de Sanfins, a mina de Varilongo, em Santa Comba, Tahoces en­con­trou-se, as­sim que che­gou em 2009, com um re­la­tó­rio da en­ge­nheira-fun­ci­o­ná­ria res­pon­sá­vel pola ex­plo­ra­ção a in­di­car que a mina de­via sub­me­ter-se a ava­li­a­ção de im­pacto am­bi­en­tal por ge­rar dre­na­gens áci­das de mina. Quatro me­ses de­pois, a en­ge­nheira pas­sava a ser sub­di­re­tora-ge­ral de Recursos Minerais, subs­ti­tuindo-a o mesmo en­ge­nheiro atu­ante so­bre as mi­nas de Sanfins, que ela­bora no­vos re­la­tó­rios nos quais o pro­blema das dre­na­gens áci­das de mina de­sa­pa­rece (polo rio abaixo). Nos dous exem­plos, de­ci­sões de­fi­ni­ti­vas que es­ta­be­le­ciam o con­di­ci­o­nante de sub­me­ter a ati­vi­dade ex­tra­tiva a ava­li­a­ção de im­pacto am­bi­en­tal, são ig­no­ra­das. A nova lei fa­ci­li­tará a su­pre­ma­cia do de­par­ta­mento de mi­nas à mar­gem de ór­gãos subs­tan­ti­vos como Águas, Ambiente, Meio Rural ou Património ge­rando ‘ava­li­a­ções am­bi­en­tais ex­press’ con­tro­la­das por pes­soal fun­ci­o­ná­rio afim ao se­tor.

Ataque ao di­reito de in­for­ma­ção am­bi­en­tal
Outra das prin­ci­pais ba­ta­lhas tra­va­das por Tahoces é con­tra o di­reito de in­for­ma­ção am­bi­en­tal, re­co­nhe­cido pola Convenção de Aarhus. O de­par­ta­mento de mi­nas tem atu­al­mente de­ze­nas de quei­xas aber­tas junto da Comissão de Transparência, a Valedora do Povo e mesmo junto do Comité de Cumprimento da Convenção de Aarhus nas Nações Unidas. A in­for­ma­ção é fun­da­men­tal para que vi­zi­nhança afe­tada e en­ti­da­des am­bi­en­ta­lis­tas pos­sam en­fren­tar no­vos e ve­lhos pro­je­tos com co­nhe­ci­mento de causa, o qual tem mo­ti­vado a de­ne­ga­ção sis­te­má­tica de pe­di­dos de in­for­ma­ções, quer da parte da Direção-Geral, quer das Chefias Territoriais mais aber­ta­mente com­pro­me­ti­das com a li­nha po­lí­tica pró-se­tor, obri­gando as en­ti­da­des a gas­ta­rem mi­lha­res de eu­ros em lon­gos pro­ces­sos ju­di­ci­ais para con­se­guir um feixe de có­pias. Na prá­tica, a es­tra­té­gia di­la­tó­ria con­se­gue a des­pro­te­ção pro­cu­rada.

Os aspectos mais problemáticos de qualquer projecto ambientalmente sensível serão ocultados do escrutínio público


Com a nova Lei de Depredação, a de­ter­mi­na­ção dos da­dos sub­me­ti­dos a si­gilo pro­fis­si­o­nal e de pro­pri­e­dade in­te­lec­tual e in­dus­trial deixa-se nas mãos das pró­prias mi­nei­ras so­li­ci­tan­tes, de modo que os as­pec­tos mais im­por­tan­tes e pro­ble­má­ti­cos de qual­quer pro­jecto am­bi­en­tal­mente sen­sí­vel (pro­jeto de­ta­lhado dos sis­te­mas de tra­ta­mento de águas re­si­du­ais, re­a­ti­vos e ou­tros ele­men­tos quí­mi­cos uti­li­za­dos nas ins­ta­la­ções de be­ne­fí­cio, etc.) se­rão ocul­ta­dos do es­cru­tí­nio pú­blico, for­çando no­va­mente as en­ti­da­des e pes­soas a lon­gos pro­ces­sos ju­di­ci­ais para ob­ter in­for­ma­ção am­bi­en­tal bá­sica.

Mas o mais pre­o­cu­pante da lei não é o seu con­teúdo, mas o con­texto da sua apro­va­ção, no me­ri­di­ano da le­gis­la­tura e di­ante de um mas­sivo con­curso de di­rei­tos mi­nei­ros que po­de­ria im­pli­car a apro­va­ção de de­ze­nas de mega-pro­je­tos em ques­tão de pou­cos me­ses, tendo de­sar­ti­cu­lado pre­vi­a­mente a ca­pa­ci­dade de res­posta das res­tan­tes ad­mi­nis­tra­ções se­to­ri­ais e da so­ci­e­dade, im­pe­di­das de emi­ti­rem re­la­tó­rios ou ace­der à in­for­ma­ção. A re­a­ção ci­vil deve pas­sar polo for­ta­le­ci­mento das ca­pa­ci­da­des de res­posta, co­la­bo­ra­ção e auto-or­ga­ni­za­ção do mo­vi­mento con­tra o ex­tra­ti­vismo, acom­pa­nhada de uma ba­ta­lha le­gal con­tra umha lei im­pos­sí­vel.

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