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Os miúdos nas ruas de Melilha

por
ro­bert bo­net

A galega María Antúnez participou junto com mais três raparigas na posta em andamento da associaçom Harraga para ajudarem, através dela, menores estrangeiros em situaçom de rua.

María Antúnez che­gou a Melilha com umha bolsa Séneca, para con­ti­nuar os seus es­tu­dos em Educaçom Social que co­me­çara em Santiago de Compostela. Com a co­lega de quarto co­meça a co­la­bo­rar num pro­jeto da ONG Melilla Acoge: umha sé­rie de ati­vi­da­des na Casa de Correçom La Purísima de Melilla, quar­tel mi­li­tar re­con­ver­tido que aco­lhe atu­al­mente em torno de 500 ra­pa­zes, um nú­mero mui acima da­quele que foi o seu má­ximo ini­cial, es­ta­be­le­cido em 180. Malgrado as re­for­mas, e dos cerca de cinco mi­lhons de eu­ros de or­ça­mento anual do cen­tro, mui­tos de­les te­nhem de dor­mir em col­chons no piso.

Estima-se que em torno de cem crianças moram na rua na cidade

Tanto María quanto a co­lega dela, iriam re­pe­tir es­tá­gio com a mesma ONG e na mesma casa. Organizavam ati­vi­da­des de tempo li­vre e tra­ba­lha­vam nos cui­da­dos das cri­an­ças. Admite que em am­bos os ca­sos a ex­pe­ri­ên­cia foi boa, mas que che­gou umha al­tura em que ela e ou­tras co­le­gas aca­bá­rom por sen­tir a falta de dous ra­pa­zes. “Perguntámos aos de­mais onde es­ta­vam e ex­pli­cá­rom-nos que ti­nha ha­vido um pro­blema no cen­tro e que es­ta­vam a mo­rar na rua”, re­lata. Alarmadas, María e ou­tras co­le­gas saí­rom na pro­cura de­les. Foi en­tom que vi­rá­rom ci­en­tes da quan­ti­dade de ra­pa­zes que es­ta­vam a mo­rar nas ruas de Melilha.

Hoje es­tima-se que se­jam mais de cem as cri­an­ças a mo­ra­rem na rua. Muitos de­les de ori­gem ma­gre­bina que pro­cu­ram o mo­mento certo para co­a­rem-se nos bar­cos que atra­ves­sam o es­treito. O go­verno cen­tral tudo tem feito para di­fi­cul­tar umha em­presa já pe­ri­gosa atra­vés da ins­ta­la­çom de cer­ca­dos e con­cer­ti­nas que se­pa­ram mais ainda as cri­an­ças do seu ob­je­tivo. “Muitos já pas­sá­rom po­las por­tas dal­guma casa de cor­re­çom”, ex­plica María, e nom que­rem re­gres­sar. As com­pa­nhei­ras Nora Driss, Rosa García, Sara Olcina, e a pró­pria María, re­sol­vem co­me­çar a tra­ba­lhar com as cri­an­ças da rua.

Os menores som criminalizados pola populaçom

A co­mu­ni­ca­çom com as cri­an­ças nom era fá­cil, con­fessa. Enquanto na casa de cor­re­çom a maior parte das cri­an­ças ar­ra­nha­vam o cas­te­lhano, aque­les que en­con­tra­vam lá fora mal con­se­guiam di­zer al­guma cousa. Usando dal­guns ges­tos e da ajuda dos pou­cos ra­pa­zes que sa­biam fa­lar um pouco, con­se­guí­rom en­ten­der-se. Começárom logo no in­verno a tra­ba­lhar com eles, o seu pri­meiro ob­je­tivo foi con­se­guir co­ber­to­res e aga­sa­lhos para os ra­pa­zes. “Achávamos iló­gico e inu­mano to­das es­sas cri­an­ças na rua”, e in­cide em que “som cri­an­ças, ne­ces­si­tam de cui­da­dos”. Porque em Melilha, as si­glas Menor Extranjero No Acompañado, os MENA, tra­zem con­sigo imen­sos pre­juí­zos. Para grande parte da ci­da­da­nia, tam­bém para as au­to­ri­da­des, nom som per­ce­bi­dos como sendo cri­an­ças. “Som ion­quis, som moi­nan­tes”, in­cide María, “mas cri­an­ças nom”.

Foi atra­vés do tra­ba­lho com as cri­an­ças da rua que co­me­çou o as­sé­dio po­li­cial, de­nun­cia María. “Metiam-nos medo”, ga­rante, “di­ziam-nos que ha­via umha in­ves­ti­ga­çom aberta con­tra nós, ou im­por­tu­na­vam-nos”. Foi en­tom que em 2014 re­sol­vé­rom en­ce­tar umha co­la­bo­ra­çom com a ONG Pro.De.In Melilla. “Pro.De.In é com­posta por um ca­sal, som ape­nas duas pes­soas”, co­menta, “os que de­nun­ci­a­vam nos meios lo­cais de Melilha essa si­tu­a­çom eram eles, que le­vam vinte anos a tra­ba­lha­rem imenso”, tanto ela quanto as co­le­gas cen­trá­rom o seu ati­vismo na de­nún­cia e o acom­pa­nha­mento a cri­an­ças. “Se que­riam en­trar numa casa de cor­re­çom, tra­tá­va­mos das for­ma­li­da­des, se ti­nham uma or­dem de ex­pul­som ía­mos ao en­con­tro da so­lu­çom, acom­pa­nhá­vamo-las ao mé­dico”, sem­pre com o as­ses­so­ra­mento da Pro.De.In.

Imagem de ‘Melilha: con­ti­nua a po­lí­tica de rom­per vín­cu­los fa­mi­li­a­res’ | as­so­ci­a­çom pro.de.in — me­li­lha

O nas­ci­mento da Harraga
Harraga fai re­fe­rên­cia àque­las cri­an­ças que tra­tam de atra­ves­sar a fron­teira. María, Sara, Rosa e Nora re­sol­vé­rom fun­dar esta as­so­ci­a­çom para au­men­tar as vo­zes que de­nun­ciam a si­tu­a­çom em Melilha. Para além do acom­pa­nha­mento a hos­pi­tais, tri­bu­nais ou à casa de cor­re­çom criou-se o pro­jeto “Fútbol”. Perguntou-se-lhes às cri­an­ças qual era “o des­porto de que mais gos­ta­vam”. Com isto as in­te­gran­tes da Harraga que­riam era que es­que­ces­sem por al­gum tempo os me­dos diá­rios. “Necessitam de brin­car”, afirma María, “as pre­o­cu­pa­çons que te­nhem com a po­lí­cia, com se­rem de­por­ta­dos, com nom te­rem ali­men­tos… som pre­o­cu­pa­çons que nom de­viam ter”.

Em 2016 Melilha nom ti­nha ca­bi­mento na gre­lha te­le­vi­siva, a nom ser o caso de mi­gran­tes que tra­tas­sem de atra­ves­sar a fron­teira. Ora, pou­cas ve­zes se fa­lava nos me­no­res. A Harraga trouxe a pú­blico em 2016 um re­la­tó­rio ela­bo­rado de­pois de me­ses de in­ves­ti­ga­çom em que se mos­tra a si­tu­a­çom das cri­an­ças na ci­dade au­tó­noma. Nele de­nun­ciam o aban­dono ins­ti­tu­ci­o­nal que es­sas cri­an­ças so­frem, bem como a in­su­fi­ci­ên­cia das po­lí­ti­cas so­ci­ais do par­tido no go­verno, o Partido Popular.

A as­so­ci­a­çom con­ta­tou co­le­ti­vos do País Basco, Catalunha ou Madrid para que aju­das­sem a di­vul­gar e par­ti­lhar o re­la­tó­rio. “Houvo pes­soas de Estremadura que acu­dí­rom a Melilha”, acres­centa María “para gra­var um do­cu­men­tá­rio”. Ainda, um co­le­tivo de Compostela aju­dou-as a lan­çar umha cam­pa­nha de fi­nan­ci­a­mento co­le­tivo para an­ga­riar fun­dos e com­prar roupa para os ra­pa­zes, co­ber­to­res e col­chons no­vos.

O governo do PP nom exerce a tutela a que está obrigado por Lei

Antes e en­quanto fijo parte da Harraga, María tivo que li­dar com si­tu­a­çons di­fí­ceis. Somente en­con­trá­rom uma ra­pa­riga a mo­rar na rua, es­tig­ma­ti­zada “muito mais polo facto de ser mu­lher”. Um dos pas­sos mais com­ple­xos foi con­ta­tar, em 2015, com a fa­mí­lia dum me­nor que fa­le­cera quando ten­tava che­gar a um barco que o le­vasse à pe­nín­sula. As au­to­ri­da­des po­li­ci­ais di­fi­cul­tá­rom imenso a si­tu­a­çom, con­ven­cendo os fa­mi­li­a­res do me­nor de que as ra­pa­ri­gas eram jor­na­lis­tas “que que­riam lu­crar com a dor de­les!”. Embora os obs­tá­cu­los e se sen­tir in­ca­paz de re­gres­sar a Melilha, María fai um ba­lanço po­si­tivo: “apren­dim mui­tís­simo das cri­an­ças, mui­tís­simo”.

Depois de dei­xar a Harraga e re­gres­sar à Galiza, María con­ta­tou ou­tras co­le­gas para lan­çar mais um pro­jeto. Conseguir an­ga­riar quar­tos para que duas pes­soas con­si­gam tra­ba­lhar no ter­reno de forma au­to­ge­rida. Tanto ela quanto as co­le­gas com­pa­ti­bi­li­za­vam ati­vismo e em­prego. Foi mui com­plexo e Maria acres­centa que a duas co­le­gas “nom lhe re­no­vá­rom o con­trato por fa­ze­rem parte da Harraga”.

Umha ges­tom con­tro­ver­tida
O go­verno do PP em Melilha, pre­si­dido por Juan José Imbroda, es­tivo em vá­rias oca­si­ons na mira po­las suas po­lí­ti­cas so­ci­ais. O atual con­se­lheiro de bem-es­tar so­cial, Daniel Ventura, é co­nhe­cido po­las suas po­lé­mi­cas de­cla­ra­çons em meios lo­cais e re­des so­ci­ais. Em co­me­ços de 2018 a or­ga­ni­za­çom Save The Children pe­dia ao Provedor de Justiça, Francisco Fernando Marugán, para in­ves­ti­gar a si­tu­a­çom dos cen­tros, des­pois de que dous me­no­res ti­ves­sem fa­le­cido sob a tu­tela do es­tado. Em am­bos os ca­sos foi a ONG Pro.De.In a que tivo que lo­ca­li­zar as suas fa­mí­lias, de­vido à de­sí­dia das ins­ti­tui­çons pú­bli­cas. Fernando Marugán abriu umha in­ves­ti­ga­çom de ofi­cio no mês de ja­neiro.

Para María, a chave re­side no facto de Melilha ser “a fron­teira sul”. Explica que tanto o Reino de Espanha quanto a Uniom Europeia “pre­ten­dem res­trin­gir e con­tro­lar o mo­vi­mento mi­gra­tó­rio.” Pensa que “en­quanto Melilha cum­pra com isso tanto fai o mé­todo que apli­que”. As au­to­ri­da­des da ci­dade con­ti­nu­a­rám a re­ce­ber sub­ven­çons po­las cri­an­ças e con­si­dera pouco pro­vá­vel umha mu­dança no meio prazo. “Fizérom-se per­gun­tas no Congresso, Maribel Mora (Podemos) vi­si­tou Melilha, e o Provedor de Justiça tam­bém está a fa­zer pres­som com o as­sunto”. Contudo, la­menta, “pa­rece com que nin­guém mais se pre­o­cupe com a ges­tom em Melilha”.

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