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Ouro branco no país da burla negra

por
dre­na­gem ácida de umha mina.

Logo do ouro de Corcoesto, o co­bre de Touro, a ca­liça de Cova Eirós, o seixo do Pico Sacro e da Terra Chá e o vol­frâ­mio de Sanfins e Barilongo che­gou a fe­bre do lí­tio que nos úl­ti­mos anos tem co­lo­cado em pé as ter­ras ir­mãs d’Além-Minho. O lí­tio que a UE di­ta­mi­nou este ano ser uma ma­té­ria-prima crí­tica, jus­ti­fi­cando imen­sas trans­fe­rên­cias de fun­dos eu­ro­peus para o de­sen­vol­vi­mento de pro­je­tos de mi­ne­ra­ção como os da Serra d’Arga, a Serra da Estrela, as Terras do Barroso Barroso ou a Serra da Mosca em Cáceres.

O mesmo lí­tio que con­su­mi­mos com­pul­si­va­mente em apa­re­lhos ele­tró­ni­cos que mi­nam as nos­sas vi­das e que mesmo está cha­mado –di­zem– a sal­var do caos cli­má­tico um mundo que irá de pas­seio em carro Tesla.

Esse me­tal que, mesmo sendo ple­na­mente re­ci­clá­vel, fi­na­liza a sua vida nos ater­ros do mundo: na Europa, mais de 95% acaba sub­mer­gido nos ma­res de re­sí­duos in­dus­tri­ais. Para 2030, es­ta­re­mos jo­gando fora em ater­ros mais de 2 mi­lhões de to­ne­la­das por ano. Triste tra­gé­dia –aca­bar no­va­mente so­ter­rado sob a terra, ou o lixo– para um me­tal cuja ex­tra­ção das en­tra­nhas do nosso pla­neta causa tanta destruição.

A Galiza não é alheia a esta tra­gé­dia, na qual so­mos si­mul­ta­ne­a­mente réus e ver­du­gos. O pri­meiro pro­jeto de lí­tio em curso pre­tende abrir uma funda fenda –de 300 me­tros de pro­fun­di­dade e quase 30 km de lon­gi­tude, para ser­mos pre­ci­sas– ao pé das ser­ras do Cando e do Suído, nas ca­be­cei­ras do Lérez e Doade.

O pri­meiro pro­jeto de lí­tio em curso pre­tende abrir uma funda fenda –de 300 me­tros de pro­fun­di­dade e quase 30 km de lon­gi­tude– ao pé das ser­ras do Cando e do Suído, nas ca­be­cei­ras do Lérez e Doade

Presqueiras, Correia, Doade, Azevedo, Rubilhom, Taboaças … são os no­mes das co­mu­ni­da­des na fenda. E tam­bém o nome das dis­tin­tas fa­ses nas que a em­presa pro­mo­tora, pouco a pouco, pre­tende es­fo­lar e abrir va­les e mon­ta­nhas, dei­tando fóra águas áci­das de mina car­re­ga­das com me­tais pe­sa­dos –para as que não se prevê ne­nhum tra­ta­mento– e mi­né­rios radioativos.

Conhecedoras das con­sequên­cias, em­presa e ad­mi­nis­tra­ção con­sen­su­a­ram fur­tar o pro­jeto do co­nhe­ci­mento pú­blico. Sob pre­tex­tos ab­sur­dos, pre­ten­de­ram ou­tor­gar as li­cen­ças pres­cin­dindo do trâ­mite de ava­li­a­ção de im­pacto am­bi­en­tal. Com isto, não só se pre­ten­dia ocul­tar a des­feita mas, prin­ci­pal­mente, omi­tir um se­gui­mento am­bi­en­tal fu­turo que a po­ria em evidência.

A ma­no­bra fra­cas­sou pe­rante uma vi­zi­nhança atenta e com­ba­tiva, mas ilus­tra uma pauta con­ti­nu­ada e sis­te­má­tica por parte da Administração de mi­nas da Junta na pro­cura de evi­tar a par­ti­ci­pa­ção so­cial e o con­trolo ambiental.

Reproduz-se as­sim uma es­tra­té­gia que já fora uti­li­zada em pro­je­tos como os de Sanfins, em Lousame, Barilongo, em Santa Comba, ou Cova Eirós, em Triacastela, em que as con­sequên­cias desta omis­são se sen­tem em rios e rias con­ta­mi­na­dos por me­tais pe­sa­dos e pa­tri­mó­nio cul­tu­ral único des­truído para sempre.

Conhecedoras das con­sequên­cias, em­presa e ad­mi­nis­tra­ção con­sen­su­a­ram fur­tar o pro­jeto do co­nhe­ci­mento pú­blico. Sob pre­tex­tos ab­sur­dos, pre­ten­de­ram ou­tor­gar as li­cen­ças pres­cin­dindo do trâ­mite de ava­li­a­ção de im­pacto am­bi­en­tal. Com isto, não só se pre­ten­dia ocul­tar a des­feita mas, prin­ci­pal­mente, omi­tir um se­gui­mento am­bi­en­tal fu­turo que a po­ria em evidência

Se na­que­les pro­je­tos os em­pre­sá­rios ‘ami­gos’ pro­ce­diam de uma ten­ta­tiva de re­con­ver­são mi­neira após o fim da bo­lha imo­bi­liá­ria, a pro­mo­tora da mina de lí­tio não é ou­tra que uma fi­lial de SAMCA, ‘Sociedad Minera Catalano Aragonesa’, um hol­ding em pro­cesso de re­con­ver­são desde a mi­na­ria do car­vão para a do lí­tio e ou­tros de­no­mi­na­dos mi­né­rios ‘crí­ti­cos’.

SAMCA é tris­te­mente fa­mosa polo seu vín­culo com cen­tral tér­mica de Andorra, em Teruel, uma das mais po­luin­tes da Europa até que fe­chou em fe­ve­reiro deste ano e res­pon­sá­vel pola chuva ácida que ar­ra­sou 200.000 hec­ta­res de bos­ques da co­marca de El Maestrat nos anos oi­tenta. Hoje a des­feita de El Mastrat po­de­ria co­me­çar de novo nas fra­gas de Porto Espinho e Girarga e po­luir com dre­na­gens áci­das todo o vale do rio Doadee.

Não se­ria a pri­meira vez que se tenta tal des­feita. Entre 2013–2014 ten­tou-no a an­te­rior ti­tu­lar dos ‘di­rei­tos mi­nei­ros’, es­ses que per­mi­tem a ex­pro­pri­a­ção for­çosa apli­cando a Lei de Minas de 1973 e a Lei de Expropriação de 1954, am­bas fran­quis­tas e vi­go­ran­tes. Direitos aos que as mi­nei­ras co­lo­cam no­mes de san­tos ou de mu­lhe­res, no caso deste úl­timo gé­nero: Alberta (I e II), Maite, Carlota e Macarena. Engenharia social.

Solid Mines España, fi­lial da ‘ju­nior’ ca­na­dense Solid Resources, ini­ciou em 2013 o mesmo trâ­mite que agora tenta SAMCA às ago­cha­das, mas aban­do­nou an­tes de que fosse de­ter­mi­nada a ne­ces­si­dade de sub­me­ter o pro­jeto a ava­li­a­ção de im­pacto am­bi­en­tal. A tempo para ven­der –como fa­zem as ‘ju­ni­ors’ quando con­se­guem con­ven­cer al­guém de que de­ram com um bom ne­gó­cio– e de­sa­pa­re­cer. Já na al­tura o pro­jeto cau­sara re­volta nos va­les de Doade e Presqueiras. Ninguém esqueceu.

No en­tanto, a “Alberta I” con­tra a qual se le­van­tou no­va­mente a re­volta, era ape­nas um dos di­rei­tos com os que Solid Mines e as suas em­pre­sas afins pre­ten­diam le­var o lí­tio, tan­tá­lio e ou­tros mi­ne­rais “crí­ti­cos” que ago­cham es­tas ter­ras. Salamanca Ingenieros S.L. ado­tou o nome de guerra es­pe­cu­la­tivo “Sequoia Venture Capital”, pronta a ven­der ao me­lhor pos­tor a “Maite” (que ocupa as pa­ró­quias de Avião, Moreiras, Feás, Córcores e Cardelhe, no mesmo vale do rio Doade), “Macarena” (nas de Beariz e Baíste) e “Carlota” (nas de Couso, Avelenda, Amiudal, A Granha, Nieva e Prado ).

Com a “Alberta II” fi­cou Strategic Minerals Spain, a mesma em­presa que se fez com a mina e nió­bio, tan­tâ­lio e es­ta­nho da Penouta em Viana do Bolo, parte do an­tigo im­pé­rio do mag­nate es­pa­nhol Ruiz Mateos ex­pro­pri­ado por Felipe González em 1985. Ninguém lem­brou o de­sas­tre am­bi­en­tal que dei­xou de­trás a mina e nem o Estado nem a Junta de­ram conta da res­tau­ra­ção. A “Alberta II” pro­mete um le­gado si­mi­lar ao sul da sua irmã do norte, ame­a­çando com fa­zer avan­çar a fenda de Rubilhom e Toboaças para a pa­ró­quia de Couso.

Alberta II” será o pró­ximo pro­jeto a ten­tar de­sen­vol­ver-se e, ci­en­tes da forte opo­si­ção lo­cal a um pro­jeto de mi­ne­ra­ção des­tru­tiva e con­ta­mi­nante, Strategic Minerals adi­an­tou-se a SAMCA unindo-se à “Tarantula”, um pro­jeto fi­nan­ci­ado com 7 mi­lhões de eu­ros da União Europeia que tem en­tre os seus ob­je­ti­vos avan­çar na cha­mada “li­cença so­cial para ope­rar” (SLO). SLO é o novo eu­fe­mismo para as tá­ti­cas de en­ge­nha­ria so­cial, vi­o­lên­cia, su­bor­nos e ‘gre­enwashing’ com os que as mi­nei­ras pre­ten­dem de­sar­mar a opo­si­ção social.

A cres­cente pres­são da UE para au­men­tar a es­pe­cu­la­ção por volta das ma­té­rias-pri­mas crí­ti­cas abriu já um novo campo de ba­ta­lha para a de­fesa da terra e da dig­ni­dade das co­mu­ni­da­des ru­rais, onde po­de­mos e de­ve­mos apren­der dos er­ros e acer­tos de lu­tas como as de Touro ou Corcoesto para ga­ran­tir que o lema ani­qui­la­dor “Galicia es una mina” nunca che­gue a ser realidade.

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Rede ContraMINAção som um conjunto de coletivos sociais posicionados contra a mineraçom destrutiva na Galiza.

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