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Percebim que nalgum momento irei ser dona dalgumhas terras”

por
A ar­tista Carla Souto | mi­guel au­ria

Desde há alguns meses, a artista Carla Souto (A Corunha, 1994) mora na aldeia de Loureiro, no concelho de Nogueira de Ramuim, onde tem estado a tratar de um projeto a partir das leiras da família materna.

Estudaste o grau em Belas Artes, tendo-te es­pe­ci­a­li­zado em es­cul­tura. Quando re­sol­veste to­mar este ca­mi­nho?

Desde pe­quena que os meus pais po­ten­ciá­rom as mi­nhas ap­ti­dons ar­tís­ti­cas. Até que che­guei à car­reira, aquilo que ti­nha tra­ba­lhado mais ti­nha sido a pin­tura. Quando ter­mi­nei aper­ce­bim-me de que pre­ci­sava apren­der das téc­ni­cas es­cul­tó­ri­cas, to­mar mais cons­ci­ên­cia da tri­di­men­si­o­na­li­dade, as­sim como da per­ce­çom do meu pró­prio corpo e as pos­si­bi­li­da­des dos ma­te­ri­ais.  

Em vá­rios pro­je­tos (‘Obstetra: que cuida’, ‘Muller ou ár­bore’, 2017) apon­tas para a des­co­ne­xom das pes­soas em re­la­çom à na­tu­reza e ex­plo­ras a re­la­çom en­tre esta e o corpo.

Nom tanto das pes­soas, mas da re­la­çom da mu­lher com a na­tu­reza. Quando re­a­li­zei es­tas sé­ries de obras es­tava a co­me­çar a in­ves­ti­gar so­bre este nexo. Agora, com pers­pe­tiva, julgo se­rem uns tra­ba­lhos com um certo tom es­sen­ci­a­lista, onde som com­pa­ra­das a mu­lher e a na­tu­reza como cri­a­do­ras de vida. Para além deste vín­culo, in­tento apre­ciar e de­se­xu­a­li­zar as for­mas cor­po­rais fe­mi­ni­nas equi­pa­rando-as com a or­ga­ni­ci­dade das for­mas do am­bi­ente na­tu­ral. Quero pen­sar que este in­te­resse co­me­çou por umha ne­ces­si­dade de pro­cu­rar umha co­ne­xom pes­soal com o meio e por umha es­cas­sez de con­tato com a na­tu­reza.

Em ‘Conquistar Montañas’ (2018) acres­cen­tas umha de­nún­cia so­bre a pro­pri­e­dade e ex­plo­ra­çom da terra.

Sim. Quando dei polo ab­surdo de que um só in­di­ví­duo possa ser dono de umha mon­ta­nha e ex­plorá-la é que me aper­ce­bim da ne­ces­si­dade de abor­dar esta ques­tom. Conquistar Montañas fala da pai­sa­gem, do es­paço na­tu­ral e ur­bano, ao tempo que pro­póm umha re­fle­xom crí­tica so­bre a posse da terra. Para isto, de­di­quei-me a con­quis­tar mon­ta­nhas cri­a­das polo ser hu­mano, que de­pois se­riam re­co­lhi­das por ele mesmo, e co­lo­cava-me acima de­las com so­le­ni­dade para en­fa­ti­zar o facto de te­rem sido to­ma­das por mim. Esta con­quista nom en­vol­via qual­quer tipo de re­sis­tên­cia. A par­tir disto, per­gun­tava-me como po­día­mos iden­ti­fi­car a per­tença desse lo­cal e em que me­dida so­mos «do­nos» de um es­paço. A par­tir de um re­gisto fo­to­grá­fico, mos­tro açons efé­me­ras que per­du­ram ape­nas na do­cu­men­ta­çom.

Feminista ou eco­lo­gista som ad­je­ti­vos que te­nham a ver com a tua obra?

Talvez se trate de prá­ti­cas e ide­o­lo­gias cada vez mais pre­sen­tes, e com mais força, na mi­nha vida e, por­tanto, na mi­nha obra.

Atualmente tra­ba­lhas nas lei­ras que per­ten­cé­rom à túa avó, hoje à tua mae, um pro­jeto com umha forte carga emo­ci­o­nal. Como é que surge e como se foi de­sen­vol­vendo?

Surge de­pois do pro­jeto Conquistar Montañas. A par­tir das dú­vi­das an­tes men­ci­o­na­das, per­ce­bim que nal­gum mo­mento iria ser dona real dal­gumhas ter­ras. Apercebim-me de toda a his­tó­ria que tem Galiza de re­sis­tên­cia e luita dos la­bre­gos po­los di­rei­tos so­bre a terra e com­pa­rei-na com o mo­mento atual, em que a mi­nha ge­ra­çom e já al­gumhas an­te­ri­o­res mos­tram es­ta­rem des­vin­cu­la­das da terra, dos cui­da­dos e res­pon­sa­bi­li­da­des ine­ren­tes. A par­tir do solo, o nome deste pro­jeto, é umha to­mada de cons­ci­ên­cia so­bre a fu­tura posse da terra e as res­pon­sa­bi­li­da­des que isto pode tra­zer.

Como foi a ex­pe­ri­ên­cia de vol­tar à al­deia dos ve­raos da in­fân­cia? Como mu­dá­rom os teus la­ços com o lu­gar?

É um lu­gar que sem­pre es­tivo muito pre­sente nos meus pro­pó­si­tos vi­tais. Ao de­sen­vol­ver este pro­jeto, ti­vem que me mu­dar para po­der ter con­tato di­reto com as lei­ras e as suas ime­di­a­çons. Tomei as­sim con­tato tam­bém com a gente e fi­quei a sa­ber das de­si­gual­da­des que so­frem as mu­lhe­res do lu­gar e da ne­ces­si­dade exis­tente de que se es­ta­be­leça um diá­logo en­tre to­das para po­der­mos evo­luir en­quanto co­mu­ni­dade.

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