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Por quê chamar-lhe rewilding quando queremos dizer renaturalização?

por
bi­sonte eu­ro­peu (‘Bison bo­na­sus’). mi­chael gäbler

Uma te­o­ria di­vide nos úl­ti­mos tem­pos o mo­vi­mento con­ser­va­ci­o­nista, cha­mam-lhe rewil­ding. O termo foi usado pola pri­meira vez em 1990 no ar­tigo de Jennifer Foote “Trying to take back the pla­net”, pu­bli­cado na re­vista norte-ame­ri­cana Newsweek. Seriam os tam­bém es­tado-uni­den­ses David Foreman, em 1993, e Michael Soulé e Reed Noss, em 1998, aque­les que de­sen­vol­ve­riam e apri­mo­ra­riam o conceito.

Com o rewil­ding pro­cura-se uma ges­tão dos ecos­sis­te­mas como forma de au­tor­re­gu­la­ção, que pre­serve a sua fun­ci­o­na­li­dade e que man­te­nha e mesmo re­cu­pere a bi­o­di­ver­si­dade. Para a sua con­cre­ti­za­ção, pro­põe-se uma res­tau­ra­ção dos pro­ces­sos na­tu­rais de­gra­da­dos ba­se­ada em três pi­la­res fun­da­men­tais:  Conservação, me­di­ante fi­gu­ras de pro­te­ção am­bi­en­tal es­tri­tas, de gran­des áreas na­tu­rais com a su­per­fí­cie su­fi­ci­ente para se­rem re­si­li­en­tes face às per­tur­ba­ções am­bi­en­tais; exis­tên­cia de cor­re­do­res na­tu­rais, que as man­te­nham in­ter­li­ga­das; e re­cu­pe­ra­ção de es­pé­cies chave, que se­riam os dri­vers ou con­du­to­res no res­ta­be­le­ci­mento das di­nâ­mi­cas naturais. 

O rewil­ding im­plica um tipo de ges­tão ativa à pro­cura dum fu­turo hi­po­té­tico onde a nossa in­ter­ven­ção so­bre o ter­ri­tó­rio fosse mí­nima; trans­cende, por con­sequên­cia, a sim­ples re­na­tu­ra­li­za­ção pas­siva, onde não existe qual­quer in­ter­ven­ção hu­mana nos ecos­sis­te­mas. Neste sen­tido, atri­bui-se um grande pro­ta­go­nismo à me­ga­fauna (gran­des her­ví­bo­ros e pre­da­do­res), de­fen­dendo uma po­lé­mica rein­tro­du­ção de es­pé­cies sel­va­gens já de­sa­pa­re­ci­das, que no caso de es­ta­rem ex­tin­tas em todo o Planeta, se­riam subs­ti­tuí­das po­los seus pro­xies ou re­pre­sen­tan­tes atu­ais ta­xo­no­mi­ca­mente pró­xi­mos. Falaremos dal­guns des­tes pro­xies que po­de­riam ser dri­vers no rewil­ding pe­nin­su­lar (sorry!).

O ‘rewil­ding’ atri­bui grande pro­ta­go­nismo à me­ga­fauna (gran­des her­ví­bo­ros e pre­da­do­res), de­fen­dendo uma po­lé­mica rein­tro­du­ção de es­pé­cies sel­va­gens desaparecidas

O mais co­nhe­cido é o bi­sonte-eu­ro­peu (Bison bo­na­sus), so­bre o qual exis­tem vá­rios pro­je­tos de “(re)-introdução” na Cordilheira Cantábrica e nou­tros pon­tos da Península. Por en­quanto, es­tes exem­pla­res vi­vem atu­al­mente em cer­ca­dos que não dei­xam de ser me­ros par­ques zo­o­ló­gi­cos. Porém os bi­son­tes que até prin­cí­pios do Holoceno ha­bi­ta­ram na Europa me­ri­di­o­nal, os que apa­re­cem nas pin­tu­ras ru­pes­tres de Altamira e Lascaux, per­ten­ce­riam a uma ou­tra es­pé­cie, o de­sa­pa­re­cido bi­sonte-da-es­tepe (Bison pris­cus). Falaríamos, logo, da in­tro­du­ção duma es­pé­cie alóc­tone e eco­lo­gi­ca­mente di­fe­rente (a pri­meira é pró­pria de bos­ques, a se­gunda de ter­re­nos abertos). 

Pretendem, do mesmo modo, in­tro­du­zir pro­xies do tarpã (Equus fe­rus fe­rus), o ca­valo sel­va­gem eu­ro­a­siá­tico que se ex­tin­guiu na Rússia no sé­culo XIX. Neste caso ofe­re­cem di­fe­ren­tes al­ter­na­ti­vas: Cavalos-de-Przewalski (E. fe­rus pr­zewals­kii), uma ou­tra su­bes­pé­cie sel­va­gem, na­tiva da Mongólia; pre­ten­sas re­cri­a­ções do tarpã como os ca­va­los de Heck ou mesmo ou­tras ra­ças do­més­ti­cas, su­pos­ta­mente, pri­mi­ti­vas como os sor­raias ribatejanos.

No caso do ex­tinto au­ro­que (Bos pri­mi­ge­nius pri­mi­ge­nius) uti­li­zam re­cri­a­ções como os bo­vi­nos de Heck ou Taurus… 

E os mais ra­di­cais apos­tam, mesmo, pola “(re)-introdução” na Europa de ele­fan­tes, leões, hi­e­nas, le­o­par­dos… Sim, du­rante o Pleistoceno, exis­ti­ram ma­mu­tes-la­no­sos (Mammuthus pri­mi­ge­nius) e até le­o­par­dos (Panthera par­dus) nas nos­sas ser­ras orientais. 

ilus­tra­ção dum tarpã numa cova de Lascaux (França)

Argumentam que a apa­ri­ção dos se­res hu­ma­nos foi de­ter­mi­nante na grande ex­tin­ção de me­ga­fauna, que acon­te­ceu na tran­si­ção en­tre o Paleolítico (Pleistoceno) e o Neolítico (Holoceno). Trataria-se de pro­te­ger a na­tu­reza, devolvendo‑a ao “es­tado na­tu­ral”, pré­vio à in­ter­ven­ção hu­mana. Mas, lem­bre­mos, que a che­gada à Europa do Homo sa­pi­ens pode ser da­tada em 40.000 anos atrás!

Portanto, qual é a bi­o­di­ver­si­dade que que­re­mos pre­ser­var? A exis­tente no Pleistoceno? A do Holoceno? Ou a de tem­pos his­tó­ri­cos? Pois, por mais sur­pre­en­dente que nos pa­reça, exis­tem par­ti­dá­rios do rewil­ding pleis­to­cé­nico, do rewil­ding holocénico…

A sé­rio, onde po­mos a data? Certamente, não existe uma res­posta fá­cil à per­gunta de qual é a nossa li­nha de re­fe­rên­cia tem­po­ral quando que­re­mos mar­car ob­je­ti­vos no campo da con­ser­va­ção da na­tu­reza. Um pro­blema que já foi for­mu­lado em 1995 por Daniel Pauly, que o no­meou Síndrome de Deslocamento da Linha de Referência.

Achamos que o rewil­ding peca dum ex­cesso de es­sen­ci­a­lismo que o leva a pro­cu­rar o re­torno a uma es­pé­cie de Jardim do Éden. Podemos con­cor­dar, no en­tanto, com al­gu­mas das suas pro­pos­tas, como a ne­ces­si­dade de pro­te­ger­mos es­pa­ços na­tu­rais mais ex­ten­sos e in­ter­co­ne­ta­dos me­di­ante cor­re­do­res eco­ló­gi­cos. Desde 1967, os es­tu­dos so­bre a bi­o­ge­o­gra­fia de ilhas de MacArthur e Wilson es­ta­be­le­ce­ram a im­por­tân­cia de con­si­de­rar o ta­ma­nho e o iso­la­mento das áreas de con­ser­va­ção da vida sel­va­gem, con­cluindo que es­pa­ços na­tu­rais pe­que­nos e iso­la­dos en­tre si, con­ti­nu­a­vam a ser ex­tre­ma­mente vul­ne­rá­veis às extinções. 

O ‘rewil­ding’ peca dum exe­cesso de es­sen­ci­a­lismo, mas o des­po­vo­a­mento do campo, traz no­vas opor­tu­ni­da­des para pro­ces­sos de res­tau­ra­ção eco­ló­gica, como os que se es­tão a dar na atu­a­li­dade no nosso país

Acreditamos, por ou­tro lado, que o des­po­vo­a­mento do campo, traz no­vas opor­tu­ni­da­des para pro­ces­sos de res­tau­ra­ção eco­ló­gica, como os que, de facto, se es­tão a dar na atu­a­li­dade no nosso país, onde gran­des car­ní­vo­ros (lo­bos e ur­sos) e un­gu­la­dos (ja­va­lis, cor­ços, ve­a­dos, re­be­ços, ca­bras-bra­vas, ga­mos…) re­co­lo­ni­zam uma Galiza que se vai es­va­zi­ando de gente.

As nos­sas ser­ras aco­lhem, desde há sé­cu­los, pro­xies dos tar­pãs e dos au­ro­ques. Os nos­sos tar­pãs são os gar­ra­nos, os ca­va­los de monte que vi­vem em es­tado sel­va­gem todo o ano, e que hoje se vêem ame­a­ça­dos por bu­ro­cra­tas que os tra­tam como sim­ples gado do­més­tico. Os nos­sos au­ro­ques são es­sas ra­ças au­tóc­to­nes de va­cas cri­a­das em ex­ten­sivo, mui­tas ve­zes em plena li­ber­dade: Marelas, Cachenas, Caldelãs, Limiãs… 

Existem tam­bém in­te­res­san­tes ini­ci­a­ti­vas po­pu­la­res de cus­tó­dia do ter­ri­tó­rio como a Fundação Fragas do Mandeu ou as dos Montes em Mão Comum de Frojão e Covelo. A ou­tro ní­vel tra­ba­lha-se no es­pe­ran­çoso pro­jeto de criar o grande cor­re­dor eco­ló­gico no su­do­este eu­ro­peu, um cor­re­dor que co­ne­ta­ria os Ancares com os Alpes, atra­ves­sando a Cordilheira Cantábrica, os Pirinéus e o Maciço Central.

Em de­fi­ni­tivo, não ne­ces­si­ta­mos im­por­tar mo­das ame­ri­ca­nas. O tal rewil­ding pa­rece-nos dis­pen­sá­vel, ergo uma re­na­tu­ra­li­za­ção vai ser tão ne­ces­sá­ria quanto inevitável.

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