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Porno feminista? O prazer é nosso

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A por­no­gra­fia é, sim­ples­mente, a re­pre­sen­ta­çom ex­plí­cita do sexo que pre­tende pro­du­zir exi­ta­çom no pú­blico (nom só por meios au­di­o­vi­su­ais, ainda que nos cen­tra­re­mos ne­les, se­nom tam­bém na li­te­ra­tura, ar­tes grá­fi­cas, cé­ni­cas, etc). Porém, se acu­di­mos ao di­ci­o­ná­rio es­va­ece-se de ime­di­ato a neu­tra­li­dade de tal de­fi­ni­çom ao to­parmo-nos com a “obs­ce­ni­dade”, quer di­zer, com juí­zos mo­rais, so­ci­al­mente de­ter­mi­na­dos, his­to­ri­ca­mente al­ter­nan­tes e, neste caso, es­trei­ta­mente li­ga­dos à re­pres­som e ao tabu a res­peito da se­xu­a­li­dade.

da­guer­ro­tipo pin­tado a mao em 1850

O tema com­plica-se e a po­lé­mica que o en­volve pro­voca de­ba­tes con­tro­ver­ti­dos tam­bém den­tro dos fe­mi­nis­mos. O lu­gar co­mum de que o “porno é ma­chista”, ainda que em ge­ral poda re­sul­tar ade­quado, tem certo pa­ra­le­lismo com a fo­ca­gem que mesma crí­tica deita a res­peito do reg­ge­ton ao tempo que se ób­via ou di­lui a de­nún­cia do ma­chismo nou­tros gé­ne­ros mu­si­cais. Em am­bos ca­sos, existe umha in­cli­na­çom ide­o­ló­gica es­tru­tu­ral que con­verte as len­tes mo­ra­das numha lupa, con­cen­trando a luz num ponto con­creto e dei­xando fora do foco o resto do pa­no­rama vi­sual. O pro­blema deste fe­nó­meno, ade­mais do re­forço de es­que­mas dis­cri­mi­na­tó­rios e do es­tigma (con­si­de­rado o pior do seu tra­ba­lho po­las pró­prias atri­zes, se­gundo o es­tudo de há mais de 10 anos ar­re­dor do porno da in­ves­ti­ga­dora Mireille Young), é a perda de pers­pe­tiva que im­plica pe­dir a proi­bi­çom ou cen­sura do ci­nema por­no­grá­fico e nom a do ci­nema de Hollywood.

Esta ló­gica nom im­plica umha de­fesa da mi­li­o­ná­ria in­dús­tria por­no­grá­fica, den­tro da que se pro­du­zem vi­o­la­çons e abu­sos (“Quem veja Garganta Profunda está a ver umha vi­o­la­çom”, de­cla­rava Linda Lovelace), onde exis­tem trata de mu­lhe­res com fins de ex­plo­ra­çom se­xual, da que se lu­cram es­pe­ci­al­mente os ho­mens e que ofe­rece umha re­pre­sen­ta­çom da se­xu­a­li­dade ob­je­ti­fi­ca­dora e mi­só­gina, trans­foba, ra­cista… e di­ri­gida ao ho­mem. O im­por­tante é en­ten­der que o porno que co­nhe­ce­mos mai­o­ri­ta­ri­a­mente é deste jeito por­que se ins­creve den­tro da ali­ança pa­tri­ar­cado-ca­pi­ta­lismo, mas nom é ine­ren­te­mente as­sim; ao igual que o ci­nema con­ven­ci­o­nal nom tem por­que ser ma­chista, ape­sar de Woody Allen, Bertolucci e Marlon Brando ou de que ainda agora pou­cos fil­mes su­pe­rem o li­mi­tado Test de Bechdel; ou que ga­nhar-se a vida como cos­tu­reira nom tem por­que im­pli­car sem­pre ser es­crava numha das sub­con­tra­tas des­lo­ca­das de Inditex. O im­por­tante é ter pre­sente que o pro­blema real em canto à se­xu­a­li­dade ado­les­cente é a falta dumha edu­ca­çom pre­coce, de qua­li­dade e sem pre­con­cei­tos, e nom a pro­li­fe­ra­çom do porno, que só pode mal-edu­car pola au­sên­cia desta.

O pós-porno, como movimento cultural, é segundo Paul Preciado “um processo de empoderamento e reapropiaçom da representaçom sexual” onde as minorias tomam o controlo para construir as suas próprias subjetividades

Em pa­la­vras da atriz, por­nó­grafa, per­for­mer e edu­ca­dora se­xual Annie Sprinkle “a so­lu­çom ao mal nom é proi­bir o porno, se­nom fa­zer me­lho­res fil­mes”. Existem al­ter­na­ti­vas, e nom nas­cê­rom agora. Já na dé­cada de ‘80 a atriz porno e fe­minsta Candida Royalle fun­dou Femme Productions com o ob­je­tivo de pro­du­zir con­teúdo atra­vés dumha pers­pe­tiva di­fe­rente (com, por exem­plo, ce­nas de pa­re­lha onde ela es­ta­be­lece li­mi­tes e exige ne­ces­si­da­des dum jeito que, ainda agora, é di­fí­cil de to­par mesmo na re­pre­sen­ta­çom de re­la­çons sexo-afe­ti­vas de pro­du­çons au­di­o­vi­su­ais con­ven­ci­o­nais). Já no ano 1989, Royalle, Sprinkle e Verónica Vera, en­tre ou­tras, as­si­na­vam Postoporn Modernist, um Manifesto que ad­vo­gava por umha ati­tude po­si­tiva cara ao sexo. O pós-porno, como mo­vi­mento cul­tu­ral, é se­gundo Paul Preciado “um pro­cesso de em­po­de­ra­mento e re­a­pro­pi­a­çom da re­pre­sen­ta­çom se­xual” onde as mi­no­rias to­mam o con­trolo para cons­truir as suas pró­prias sub­je­ti­vi­da­des, ques­ti­o­nando os me­ca­nis­mos de ob­ten­çom do pra­zer e o dis­curso do­mi­nante a res­peito das ca­te­go­rias de gé­nero e da se­xu­a­li­dade. Atualmente, é pre­ciso di­fe­ren­ciar en­tre cer­tos ter­mos que pa­re­cem as­so­la­par-se mas nom som tro­cá­veis. Por umha parte, o “porno das mu­lhe­res”, do que a maior re­pre­sen­tante é Erika Lust, foca-se em pro­du­zir con­teú­dos di­ri­gi­dos a elas, que ao ir-se des­fa­zendo aos pou­cos da re­pres­som se­xual (sim, já nos mas­tur­ba­mos!) vam de­man­dando mais ma­te­rial e cri­ando as­sim um ni­cho de mer­cado es­pe­cí­fico. Segundo da­dos de Pornhub, di­a­ri­a­mente 60 mi­lhons de mu­lhe­res con­so­mem porno, e pre­fe­rem con­teú­dos com mais con­texto e ar­gu­mento. Segundo um es­tudo da re­vista Marie Claire, em ge­ral mos­tram pre­o­cu­pa­çom polo trato da in­dús­tria por­no­grá­fica cara as mu­lhe­res e po­los es­te­reó­ti­pos re­pro­du­zi­dos. Ainda que exis­tem ini­ci­a­ti­vas in­te­res­san­tes, como a se­rie X Confessions de Erika Lust, na que se leva ao ecrám as fan­ta­sias se­cre­tas que lhe es­cre­vem mu­lhe­res re­ais e anó­ni­mas, esta ótica é in­su­fi­ci­ente. Ad

Annie Sprinkle, Beth Stephens, Paul Preciado num en­con­tro em 2013 em Madrid

emais do li­mi­tado dos seus ob­je­ti­vos, a sua de­no­mi­na­çom re­sulta pro­ble­má­tica, pois pode de­ri­var fa­cil­mente na per­pe­tu­a­çom de ro­les tra­di­ci­o­nais, es­te­re­o­ti­pando a se­xu­a­li­dade das mu­lhe­res, que pola con­tra é muito he­te­ro­gé­nea: ou será que to­das que­re­mos ver ce­nas de sexo su­ave e ca­ri­nhoso em co­res pas­tel?

Annie Sprinkle: “a soluçom ao mal nom é proibir o porno, senom fazer melhores filmes”

Por ou­tro lado, o “porno ético”, termo ins­tau­rado pola por­nó­grafa fe­mi­nista e edu­ca­dora se­xual Tristan Taormino, cen­tra-se mais no que su­cede de­trás das câ­ma­ras que pró­prio pro­duto fi­nal, ainda que tam­pouco o deixe de lado. Assim, pro­duz-se de jeito le­gal, baixo con­di­çons jus­tas com um sa­lá­rio digno, res­pei­tando os di­rei­tos la­bo­rais e os li­mi­tes, ne­ces­si­da­des, pre­fe­rên­cias e bem-es­tar das pes­soas en­vol­tas, es­pe­ci­al­mente das atri­zes, as­sim como va­lo­rando as suas ache­gas e pondo ên­fase nos cui­da­dos.

Um passo além, o “porno fe­mi­nista” surde de apli­car a pers­pe­tiva fe­mi­nista de jeito trans­ver­sal em todo o pro­cesso de pro­du­çom, jun­tando os ob­je­ti­vos do porno ético com a ques­tom da agên­cia das mu­lhe­res em to­dos os es­tá­dios do pro­cesso (guiom, pro­du­çom, re­a­li­za­çom, atu­a­çom…) e com a ques­tom da vi­si­bi­li­dade, do tra­ta­mento nom dis­cri­mi­na­tó­rio e da re­pre­sen­ta­çom da di­ver­si­dade de se­xu­a­li­da­des, ori­en­ta­çons, iden­ti­da­des, cor­pos e prá­ti­cas. Assim, dumha ati­tude po­si­tiva cara ao sexo, até as prá­ti­cas mais ex­tre­mas do BDSM som fan­ta­sias fe­mi­nis­tas vá­li­das, em tanto se­jam con­sen­su­a­li­za­das e se re­pre­sen­tem ex­pli­ci­ta­mente como tal.

Em pa­la­vras de Tristan Taormino, o “porno fe­mi­nista está de­di­cado à igual­dade e à jus­tiça so­cial. O seu ob­je­tivo é em­po­de­rar a quem atua atra­vés de prá­ti­cas la­bo­rais éti­cas e a quem o vê atra­vés de re­pre­sen­ta­çons da se­xu­a­li­dade que di­fi­ram da norma, ex­pan­dindo as ideias so­bre o de­sejo, a be­leza, a sa­tis­fa­çom e o po­der”.

A di­ver­si­dade exis­tente atinge desde as pro­pos­tas queer de Shine Louise Houston (Pink&White Productions) e Jiz Lee ou as ar­tís­ti­cas pro­du­çons de Vex Ashley com Four Chambers, pas­sando po­los fil­mes de guiom ela­bo­rado como Marriage 2.0 de Paul Deeb ou a pa­ró­dia kitsch Queen Bee Empire de Samuel Shanahoy, até o pro­jeto de Dirty Diaries de Mia Engberg fi­nan­ci­ado polo go­verno su­eco. Ademais de ser Linda Williams, para in­ves­ti­gar tanto a ní­vel de pro­du­çom como de cri­té­rios guia do porno fe­mi­nista, pode-se co­me­çar po­las pá­gi­nas dos pi­o­nei­ros Feminist Porn Awards fun­da­dos em 2006 em Toronto ou os PorYes Awards (Berlim, 2009), as­sim como do fes­ti­val iti­ne­rante da Muestra Marrana (Barcelona, 2007) ou dos se­mi­ná­rios Feminismo Porno Punk (Donostia. 2008). Como se leva este dis­curso à prá­tica e quais som os re­sul­ta­dos des­tas te­o­rias? A me­lhor forma de co­nhe­cer a res­posta é… vendo muito porno!

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