Periódico galego de informaçom crítica

Prometeu na pandemia

por
guil­lermo serrano

Os pa­ra­do­xos som pre­mis­sas apa­ren­te­mente ver­da­dei­ras, mas que le­vam a con­tra­di­çons na sua de­fi­ni­çom. Em mui­tas oca­si­ons as tra­ba­lha­do­ras da cul­tura vem-se en­vol­vi­das em si­tu­a­çons pa­ra­do­xais, no­me­a­da­mente, quando se trata de re­la­çons la­bo­rais ou po­lí­ti­cas, como su­ce­deu trás as de­cla­ra­çons do mi­nis­tro de cul­tura es­pa­nhol du­rante o es­tado de alarma pola COVID-19 e a pos­te­rior con­vo­ca­tó­ria e des­con­vo­ca­tó­ria da greve de con­teú­dos em li­nha do se­tor, por nom to­mar me­di­das con­cre­tas ou pla­ni­fi­car par­ti­das or­ça­men­tá­rias es­pe­cí­fi­cas para o se­tor cultural.

Desde um ponto de vista mar­xista, a cul­tura forma parte da su­pe­res­tru­tura, de­ter­mi­nando a cons­ci­ên­cia so­cial que agroma gra­ças à es­tru­tura ma­te­rial que con­for­mam as re­la­çons de pro­du­çom. Sendo as­sim, numha es­tru­tura de re­la­çons de pro­du­çom ca­pi­ta­lista, a cul­tura (su­pe­res­tru­tura) es­ta­ria de­ter­mi­nada por essa base ca­pi­ta­lista. Como re­sume Antón Dobao “Daquela, numha so­ci­e­dade de clas­ses toda arte é clas­sista. Num sen­tido ou noutro”.

Esta de­fi­ni­çom fai fi­car a cul­tura na si­tu­a­çom pa­ra­do­xal que men­ci­o­na­mos no iní­cio, como um se­tor li­vre e pre­de­ter­mi­nado ao mesmo tempo: fora das re­la­çons de pro­du­çom, tal e como todo tra­ba­lho ideal de­ve­ria ser para Marx (a es­sên­cia do ser hu­mano que lhe per­mite de­sen­vol­ver ao má­ximo as suas ca­pa­ci­da­des e cum­prir um pa­pel na so­ci­e­dade); mas ao mesmo tempo, a cul­tura e a arte es­tám su­pe­di­ta­das aos di­ta­dos da es­tru­tura ca­pi­ta­lista, en­quanto nom se dê o câm­bio social.

Com esta base cabe pre­gun­tarmo-nos: em que me­dida a greve de con­teú­dos em li­nha foi per­ti­nente como pro­testa pola des­con­si­de­ra­çom do mi­nis­tro? Eagleton na sua obra Cultura di­fe­ren­cia en­tre ci­vi­li­za­çom como algo fun­ci­o­nal, frente da cul­tura que nom o é, mas tam­bém ad­mite que as ati­vi­da­des que nom te­nhem fun­çom (jo­gos, pra­zer, arte) som tam ne­ces­sá­rias como as fun­ci­o­nais, isto é, te­nhem um va­lor: as obras de arte som a um tempo as cou­sas mais inú­ti­les e du­ra­doi­ras, es­cre­veu Arendt. A arte e a cul­tura te­nhem um va­lor mui­tas ve­zes na me­dida em que nos afas­tam da sim­ples sub­sis­tên­cia, à vez que para po­der de­sen­vol­ver-se pre­ci­sa­mos ter co­berta essa sim­ples sub­sis­tên­cia (a nom ser que se­ja­mos umhas ro­mân­ti­cas ou umhas to­las). Noutra li­nha dis­tinta, mas se­me­lhante, es­tava o po­eta Maiakovski re­cla­mando-lhe a Staline que in­for­masse da pro­du­çom de po­e­mas como in­for­mava da pro­du­çom de aço e es­cre­vendo ver­sos de acordo com as exi­gên­cias da Terceira Internacional, ten­tando re­cu­pe­rar a ca­pa­ci­dade cri­a­tiva ex­traída polo ca­pi­ta­lismo às trabalhadoras.

A arte e a cul­tura te­nhem um va­lor mui­tas ve­zes na me­dida em que nos afas­tam da sim­ples subsistência”

A dis­tân­cia des­tes ar­gu­men­tos está a crí­tica de Pasolini a certa cul­tura con­tem­po­râ­nea re­du­zida a pura in­dús­tria do en­tre­ti­mento, afas­tada dessa arte e cul­tura cri­a­ti­vas que nos abrem ou­tros mun­dos e al­ter­na­ti­vas re­fle­xi­vas mais hu­ma­nas e exis­ten­ci­ais. Segundo esta crí­tica, a mai­o­ria da cul­tura atual age como um se­tor pro­du­tivo mais em que os pro­du­tos te­riam um va­lor de uso e de câm­bio, imersa to­tal­mente na es­tru­tura ca­pi­ta­lista, afas­tada de todo mo­vi­mento li­ber­ta­dor e longe de ser umha al­ter­na­tiva ao sis­tema he­ge­mó­nico: de­sor­dem de me­di­o­cri­da­des in­di­vi­du­ais para Baudelaire, in­te­lec­tu­a­lismo nu­ga­lhám em ter­mos grams­ci­a­nos, gozo im­pe­ra­tivo do su­pe­rego se­gundo Zizek. Como ve­mos, mui­tos au­to­res coin­ci­dem nesta di­ag­nose de cul­tura vazia. 

O certo é que am­bos ti­pos de cul­tura co­e­xis­tem, a li­ber­ta­dora e con­tra-he­ge­mó­nica e a sub­si­diá­ria e sis­té­mica, e mui­tas ve­zes nom o fam dum jeito puro. Entrelaçam-se e mis­tu­ram-se numha sorte de jogo en­tre os prin­cí­pios e a ne­ces­si­dade, a que tanto gosta de nos fa­zer jo­gar o ca­pi­ta­lismo sis­té­mico. Temos que ser cons­ci­en­tes pe­rante qual­quer obra, açom, mo­vi­mento ou au­to­ria cul­tu­ral que os seus ob­je­ti­vos e efi­cá­cia es­tám si­tu­a­dos num campo so­ci­o­po­lí­tico, como as­si­nala Isaac Lourido. É neste ponto onde te­mos que en­qua­drar a greve de con­teú­dos di­gi­tais em li­nha. Ao tempo que a arte e a cul­tura se de­fi­nem a si mes­mas, es­tám cons­ti­tuindo umha re­a­li­dade à qual aco­lher-se (Butler), longe hoje em dia e polo de agora, da­quela ideia de uni­dade de fins e ob­je­ti­vos do tra­ba­lho ma­nual e do tra­ba­lho in­te­lec­tual que acaba com a dis­tin­çom en­tre cul­tura de elite e cul­tura de mas­sas, pre­sente na Estética da re­sis­tên­cia de Weis, no facto de que abrir um ca­derno para es­cre­ver numha ofi­cina ou numha nave de mon­ta­gem seja um gesto natural.

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