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Racismo e privilégios

por
ga­liza con­trainfo

As mi­gra­das cons­ti­túem o 3,2% das pes­soas em­pa­dro­a­das na Galiza se­gundo o Instituto Galego de Estatística. Umha po­pu­la­çom in­vi­si­bi­li­zada, per­se­guida e dis­cri­mi­nada por múl­ti­plos ra­cis­mos. “Cada dia apro­xi­ma­da­mente duas pes­soas mi­gra­das som de­ti­das no nosso ter­ri­tó­rio por ca­re­cer de do­cu­men­ta­çom”, ex­plica a ati­vista do Foro Galego de Imigraçom Mari Fidalgo. Os pri­vi­lé­gios das ga­le­gas bran­cas con­tri­buem na per­pe­tu­a­çom do sis­tema xe­nó­fobo. “O dis­curso de que as ga­le­gas fu­mos emi­gran­tes e que por­tanto nom so­mos ra­cis­tas é umha es­cusa para nom to­car o ra­cismo”, des­taca a an­tro­pó­loga Luzia Oca.

Nom che vou dei­xar ver os teus fi­lhos puta ne­gra de merda, mar­cha ao teu país”. Esta foi umha das ame­a­ças que re­ce­beu Gloria, tra­ba­lha­dora na casa, por parte do fi­lho do que era o seu em­pre­ga­dor. “Maltratava-me, nom me dei­xava em paz”, ex­plica. Superado o medo, de­ci­diu de­nun­ciá-lo pe­rante o jul­gado do pe­nal de Compostela por um de­lito de ame­a­ças. “Passei-no mui mal, fi­quei trau­mada de­pois des­tas ame­a­ças e de que me fi­gesse a vida im­pos­sí­vel até o ponto em que, fi­nal­mente, aca­bei por re­ti­rar a de­nún­cia”, ex­plica.

Calcula-se que perto de 80 % das agres­sons ra­cis­tas e xe­nó­fo­bas nom es­tám a ser de­nun­ci­a­das. Entre os mo­ti­vos, des­taca a vul­ne­ra­bi­li­dade na que as Administraçons dei­xam a po­pu­la­çom mi­grante junto à im­pu­ni­dade so­cial de quem agride.

Aumento das agres­sons ra­cis­tas
O in­forme anual do 2017 apre­sen­tado por SOS Racismo Galiza con­ta­bi­liza 70 agres­sons ra­cis­tas, o que re­flexa um au­mento do mais de 50 % des­tas vi­o­lên­cias a res­peito do ano an­te­rior. Contudo, a mai­o­ria dos ata­ques xe­nó­fo­bos nom som de­nun­ci­a­dos e ape­nas se fam pú­bli­cos.

O Observatório para a de­fensa dos di­rei­tos e li­ber­da­des, Esculca, con­ta­bi­liza mais dumha dú­zia de agres­sons cara ao co­le­tivo mi­grante e ra­ci­a­li­zado nos úl­ti­mos sete anos. A mai­o­ria pro­du­zí­rom-se na Corunha onde a fi­nais do ano pas­sado iden­ti­fi­cá­rom ex­pres­sa­mente duas mu­lhe­res que le­va­vam hi­jab quando se di­ri­giam jus­ta­mente a um con­gresso so­bre Islamofobia e Género. Na mesma ci­dade, dous agen­tes da po­lí­cia lo­cal fô­rom ab­sol­tos em 2016 dos de­li­tos de tor­tura e le­sons cara a umha pes­soa mi­grante.

No re­la­tó­rio, tam­bém apa­re­cem mul­tas a pes­soas por pro­cu­ra­rem co­mida no lixo e re­da­das com vi­o­lên­cia con­tra ven­de­do­res am­bu­lan­tes. Um dos ca­sos mais du­ros su­ce­deu o pri­meiro dia dos sal­dos de in­verno de 2011, quando a po­lí­cia mu­ni­ci­pal da Corunha re­a­li­zou umha re­dada na rua real con­tra os ven­de­do­res am­bu­lan­tes. O ope­ra­tivo, que con­tou com umha am­pla co­ber­tura de meios, de po­lí­cias pai­sano a agen­tes mo­to­ri­za­dos, aca­ba­ria com a de­ten­çom de dous ven­de­do­res.

“Agás as razias policiais contra os vendedores ambulantes, a represom nom é tam espetacular como noutros lugares senom que é muito mais sutil ainda que igual de violenta”, sustém Mari Fidalgo

Do Foro Galego de Inmigraçom, Mari Fidalgo aponta que “agás as ra­zias po­li­ci­ais que se exe­cu­tam no Sam Froilán ou na rua real da Corunha con­tra os ven­de­do­res am­bu­lan­tes, a re­pre­som nom é tam es­pe­ta­cu­lar como acon­tece nou­tros lu­ga­res se­nom que é muito mais su­til ainda que igual de vi­o­lenta”. Coloca de exem­plos, as re­da­das po­li­ci­ais que se fam cha­mando à co­mis­sa­ria para re­sol­ver qual­quer as­sunto de trâ­mite de per­mis­sons e que pode aca­bar numha de­por­ta­çom ex­pressa, que se re­solve em 72 ho­ras com es­cas­sas ou nu­las ga­ran­tias ju­rí­di­cas. “Ou que a po­lí­cia acuda di­re­ta­mente aos do­mi­cí­lios para pe­dir do­cu­men­ta­çom, si­tu­a­çom que é fre­quente no caso das tra­ba­lha­do­ras se­xu­ais”, aponta.

Deportaçons ex­pres­sas
Nos úl­ti­mos me­ses, as de­por­ta­çons es­tám em au­mento por or­dem da Uniom Europeia. Nos jul­ga­dos de Vigo re­a­li­zam-se até três pro­ce­di­men­tos deste tipo cada se­mana. Numha ses­som de ma­ra­tó­nia, o pas­sado 6 de ju­nho o jul­gado do Contencioso-Administrativo nú­mero 1 desta ci­dade che­gou a ce­le­brar cinco juí­zos em que mi­gran­tes em si­tu­a­çom ir­re­gu­lar re­cor­riam umha or­dem go­ver­na­men­tal de ex­pul­som.

Estas or­dens de ex­pul­som aber­tas a imi­gran­tes sem do­cu­men­ta­çom su­pe­ram as 1.800 en­tre os anos 2012 e 2017, se­gundo os da­dos da de­le­ga­çom do go­verno es­pa­nhol na Galiza. A Corunha é onde se re­gis­tra o maior nú­mero de ex­pul­sons exe­cu­ta­das com mais do 40 % do to­tal.

A ci­fra enocn­tra-se em suba de­vido ao im­pacto que cau­sou a sen­tença do tri­bu­nal eu­ro­peu de 2015 que obriga as au­to­ri­da­des do Reino de Espanha a apli­ca­rem a re­pa­tri­a­çom de mi­gran­tes em si­tu­a­çom ad­mi­nis­tra­tiva ir­re­gu­lar. Desde aquela, os juí­zes já nom aten­dem as con­di­çons pes­so­ais da afe­tada se­nom que emi­tem umha ful­mi­nante or­dem de ex­pul­som.

Racismo ins­ti­tu­ci­o­nal

Mobilizaçom con­tra as po­lí­ti­cas mi­gra­tó­rias da Uniom Europeia na ci­dade da Corunha | ga­liza con­trainfo

Estas po­lí­ti­cas do(s) Estado(s) con­tri­buem a so­li­di­fi­car o ra­cismo e xe­no­fo­bia ins­ti­tu­ci­o­nal que, para Fidalgo, se ma­te­ri­a­liza na “ex­clu­som de di­rei­tos e li­ber­da­des e na con­ce­çom ba­rato e ser­vi­cial do que bo­tar mao e nom como su­jeita de di­rei­tos e, por­tanto, umha con­cep­çom pro­fun­da­mente co­lo­nial e uti­li­ta­rista”. Por exem­plo, do Foro Galego de Inmigraçom ob­ser­vá­rom que a apli­ca­çom in­for­má­tica que em­pre­gava a Concelharia de Educaçom para tra­mi­tar as aju­das a li­vros de texto nom per­mi­tia in­cluir um nú­mero de pas­sa­porte da adulta res­pon­sá­vel, umha ques­tom téc­nica que po­de­ria dei­xar fora as cri­a­tu­ras cu­jas nais e pais es­ti­ves­sem em si­tu­a­çom ir­re­gu­lar. As tra­vas bu­ro­crá­ti­cas re­pe­tem-se num sem-fim de ca­sos como o aceso a es­co­las in­fan­tis.

Outras ve­zes as vi­o­lên­cias cara às mi­gra­das re­per­cu­tem di­re­ta­mente nas suas vi­das como é no caso da saúde. A mor­ta­li­dade en­tre pes­soas mi­gran­tes au­men­tou um 15% de­pois do go­verno es­pa­nhol ex­pulsá-las em 2012 da saúde pú­blica. Em to­tal, se­gundo o es­tudo re­a­li­zado pola Universitat Pompeu Fabra, “Els efec­tes mor­tals de per­dre la co­ber­tura sa­nità­ria”, o Reino de Espanha dei­xou sem car­tons sa­ni­tá­rios 873.000 pes­soas. “Geram fron­tei­ras en­tre a po­pu­la­çom es­ta­be­le­cendo aque­las que som su­jei­tas de di­reito as que nom o som”, ex­plica Mari Fidalgo.

Burela, o mito da in­te­gra­çom
A an­tro­pó­loga Luzia Oca é clara ao de­nun­ciar que todo o dis­curso que re­a­liza a Junta com res­peito à in­te­gra­çom so­cial é “pura fa­chada”. A in­ves­ti­ga­dora es­tu­dou du­rante anos a co­mu­ni­dade cabo-ver­di­ana de Burela, onde vive, e plas­mou esse co­nhe­ci­mento em pa­pel na obra Caboverdianas en Burela (1978–2008). Migración, re­la­cións de xé­nero e in­ter­ven­ción so­cial. Com a sua che­gada há qua­renta anos, a de Burela é a co­mu­ni­dade preta mais an­tiga de Galiza. “Usou-se muito a ima­gem de Burela como um exem­plo de in­te­gra­çom, mas todo é fume e pro­pa­ganda”, aponta. Sustém que a base do con­ceito da in­te­gra­çom deve ser o dum pro­cesso mul­ti­di­men­si­o­nal que te­nha em conta o mundo la­bo­ral, os di­rei­tos da ci­da­da­nia e a vi­vên­cia das cul­tu­ras. “As pes­soas mi­gran­tes te­nhem, no mí­nimo, duas cul­tu­ras polo que de­vem exis­tir umhas iden­ti­da­des mais flui­das e aber­tas”.

“Nom se trabalha a diversidade nem os referentes das cabo-verdianas que som pretas ou as peruanas que som indígenas”, aponta Luzia Oca

tar­sila do ama­ral

Muitas das vi­o­lên­cias que so­frem as pes­soas mi­gra­das per­pe­tuam-se com as se­guin­tes ge­ra­çons que en­con­tram idên­ti­cos ou se­me­lhan­tes obs­tá­cu­los ra­cis­tas. No caso de Burela “há umha se­pa­ra­çom muito clara en­tre as co­mu­ni­da­des de toda a vida: a ilha de in­do­né­sios e a de cabo-ver­di­a­nos. Existem bar­rei­ras in­vi­sí­veis de re­la­çons nos ba­res, dis­co­te­cas… Também há de­si­gual­da­des con­sequên­cia do ra­cismo como o fra­casso es­co­lar, que nom vai ser su­pe­rado nom ha­vendo mu­dan­ças na raiz das vi­o­lên­cias”.

Precisamente, o sis­tema es­co­lar tam­bém é um dos ei­xos em que se per­pe­tua o ra­cismo. “Nom se tra­ba­lha a di­ver­si­dade nem os re­fe­ren­tes das cabo-ver­di­a­nas que som pre­tas ou as pe­ru­a­nas que som in­dí­ge­nas”. Em Burela “pre­sume-se de mul­ti­cul­tu­ra­li­dade, polo que o ra­cismo é um tema tabu so­ci­al­mente e con­verte-se em algo di­fí­cil de tra­tar”.

Desta forma, o ra­cismo é sus­ten­tado pola pró­pria so­ci­e­dade. “Dá-se um dis­curso do ‘bu­e­nismo‘, como as ga­le­gas fo­mos emi­gran­tes nom po­de­mos ser ra­cis­tas e isso é umha es­cusa para nom tratá-lo”, des­taca Luzia Oca.

O ra­cismo gera vi­o­lên­cias so­bre as pre­tas, asiá­ti­cas, ára­bes… E to­das as iden­ti­fi­ca­das como ‘nom bran­cas’, tam­bém so­bre a co­mu­ni­dade ci­gana que co­me­çou a as­sen­tar na Galiza en­tre os sé­cu­los XIX e XX. De facto, o an­ti­ci­ga­nismo cons­ti­tui-se como um tipo es­pe­cí­fico de ide­o­lo­gia ra­cista que o ati­vista ci­gano, Valeriu Nicolae, fo­ca­liza nos “dis­cur­sos e re­pre­sen­ta­çons do mundo da po­lí­tica, a aca­de­mia e a so­ci­e­dade ci­vil, a se­gre­ga­çom, a de­su­ma­ni­za­çom, a es­tig­ma­ti­za­çom, as­sim como a agres­som so­cial e a ex­clus­som so­ci­o­e­co­nó­mica”.

O pri­vi­lé­gio das pes­soas bran­cas
Maria Fidalgo, desde a sua opi­niom e ex­pe­ri­ên­cia pes­soal como mi­grada, fala da co­lo­ni­a­li­dade como “sis­tema de opres­som que opera ali­men­tando umha vi­som das pes­soas mi­gra­das como um mero re­curso do que bo­tar mao quando in­te­ressa, por­tanto, uti­li­ta­rista, ou ig­no­rando e in­vi­si­bi­li­zando as nos­sas re­a­li­da­des e pro­ble­má­ti­cas”. Coloca umha ci­fra: a cada dia apro­xi­ma­da­mente duas pes­soas mi­gran­tes som de­ti­das no nosso ter­ri­tó­rio por ca­re­ce­rem de do­cu­men­ta­çom, que pode aca­bar com umha ex­pul­som em 72 ho­ras ou o in­gresso num Centro de Internamento de Estrangeiros (CIE), que pouco se di­fe­rença dum cár­cere. “Quem de­nun­cia essa pres­som?”

Cada dia, arredor de duas pessoas migrantes som detidas no nosso território por carecerem de documentaçom

je­an­nie phan

Luzia Oca con­si­dera que o an­tir­ra­cismo é ainda umha ta­refa pen­dente, ainda que desde o mo­vi­mento fe­mi­nista per­cebe mais cons­ci­ên­cia. Fidalgo, que tam­bém par­ti­cipa do mo­vi­mento fe­mi­nista, ma­tiza a im­pli­ca­çom das fe­mi­nis­tas no an­tir­ra­cismo. “Muitas da­mos a cur­tir co­mu­ni­da­des e fa­la­mos da ne­ces­si­dade de des­cons­truir os pri­vi­lé­gios, mas é raro ver a com­pa­nhei­ras dis­pos­tas a de­di­car tem­pos e ener­gias em par­ti­lhar es­pa­ços com mu­lhe­res mi­gra­das”. Fai es­pe­cial ên­fase nas tra­ba­lha­do­ras da casa e sec­to­res de muita ex­plo­ra­çom em que os dias de li­vrança re­du­zem-se a sá­ba­dos de tarde ou do­min­gos. “Quantas es­ta­mos dis­pos­tas a de­di­car­mos esse tempo para ge­rar ali­an­ças e vín­cu­los com es­sas mu­lhe­res?”.

Reconhece que es­tas som per­gun­tas “incô­mo­das” e “an­ti­pá­ti­cas” para mui­tas pes­soas, mas con­si­dera que “já é hora de as tra­tar­mos de forma ho­nesta e a sé­rio”. Recalca que “po­si­ci­o­nar-se de fir­me­mente con­tra as po­lí­ti­cas mi­gra­tó­rias e de con­trolo de fron­tei­ras que se ma­te­ri­a­li­zam nas vi­das de pes­soas que som as nos­sas vi­zi­nhas é com­ba­ter e re­sis­tir a umha or­dem in­justa e as­sas­sina”.

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