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Redes decrescentistas para a sustentabilidade e a justiça ambiental e social

por
ale­jan­dro ro­za­dos

O pa­ra­digma eco­nó­mico do­mi­nante que tem di­tado as ori­en­ta­ções po­lí­ti­cas um pouco por todo o mundo está a re­ve­lar-se in­ca­paz de li­dar com a con­fluên­cia de cri­ses am­bi­en­tal, so­cial e eco­nó­mica que vi­ve­mos. Pelo me­nos, no sen­tido de con­se­guir con­fe­rir, de forma equi­ta­tiva, ní­veis ra­zoá­veis de qua­li­dade de vida à ge­ne­ra­li­dade das po­pu­la­ções, sem com­pro­me­ter o bem-es­tar das ge­ra­ções fu­tu­ras e a sus­ten­ta­bi­li­dade dos ecos­sis­te­mas de que de­pen­de­mos. Os da­dos e as con­clu­sões de re­cen­tes re­la­tó­rios e es­tu­dos in­ter­na­ci­o­nais não dei­xam mar­gem para dú­vi­das: a pros­se­cu­ção do ‘bu­si­ness as usual’ e dos ac­tu­ais pa­drões de vida dos paí­ses di­tos de­sen­vol­vi­dos é in­com­pa­tí­vel, quer com a ma­nu­ten­ção das con­di­ções am­bi­en­tais pro­pí­cias à vida hu­mana (e à de mui­tos ou­tros se­res vi­vos), quer com a ca­pa­ci­dade bi­o­fí­sica do pla­neta para ge­rar a ener­gia e os re­cur­sos ne­ces­sá­rios. Como mui­tos au­to­res vêm afir­mando, a pro­ba­bi­li­dade de ocor­rên­cia de co­lap­sos am­bi­en­tais e/ou so­ci­ais será cada vez maior. O que é ainda pos­sí­vel fa­zer para evi­tar es­tes even­tu­ais ce­ná­rios trau­má­ti­cos e para pro­mo­ver uma tran­si­ção eco-so­cial (de que fala amiúde Carlos Taibo)?

Os de­cres­cen­tis­tas põem em causa os mi­tos ne­o­co­lo­ni­ais do pro­gresso e pro­põem a re­lo­ca­li­za­ção das ac­ti­vi­da­des eco­nó­mi­cas e a re­du­ção dos ní­veis de pro­du­ção e con­sumo

Os pro­mo­to­res das pers­pec­ti­vas de­cres­cen­tis­tas, oriun­dos do meio aca­dé­mico eu­ro­peu das ci­ên­cias so­ci­ais e po­lí­ti­cas, de­nun­ciam e cri­ti­cam há vá­rios anos os mo­de­los eco­nó­mi­cos ba­se­a­dos no cres­ci­mento per­ma­nente da pro­du­ção e do con­sumo, na mer­ca­do­ri­za­ção ra­di­cal, na ex­ter­na­li­za­ção dos im­pac­tos am­bi­en­tais e na dis­tri­bui­ção in­justa dos im­pac­tos so­ci­ais. Põem tam­bém em causa os mi­tos ne­o­co­lo­ni­ais e ‘oci­den­to­cén­tri­cos’ do de­sen­vol­vi­mento e do pro­gresso tec­no­ci­en­tí­fico, e pro­põem a re­lo­ca­li­za­ção das ac­ti­vi­da­des eco­nó­mi­cas e a re­du­ção dos ní­veis de pro­du­ção e con­sumo de bens e ser­vi­ços nos paí­ses e ter­ri­tó­rios com pe­ga­das am­bi­en­tais e so­ci­ais ex­ces­si­vas. Os de­cres­cen­tis­tas de­fen­dem que a re­sul­tante re­du­ção de bens ma­te­ri­ais e de con­forto será acom­pa­nhada dum au­mento dos ní­veis de sa­tis­fa­ção emo­ci­o­nal e psi­co­ló­gica, in­di­vi­dual e co­lec­tiva, bem como do au­mento dos bens re­la­ci­o­nais e con­vi­vi­ais. Estas crí­ti­cas e pro­pos­tas têm sido não só na­tu­ral­mente re­jei­ta­das pela di­reita po­lí­tica, como tam­bém por lar­gos sec­to­res da es­querda que não con­ce­bem a pros­pe­ri­dade so­cial dis­so­ci­ada do cres­ci­mento, do pro­du­ti­vismo e do ex­trac­ti­vismo. Acresce que os gran­des meios de co­mu­ni­ca­ção têm ig­no­rado es­tas mes­mas ideias, o que leva a que se­jam des­co­nhe­ci­das da mai­o­ria dos ci­da­dãos.

As re­des de­cres­cen­tis­tas –mo­vi­men­tos de ci­da­dãos auto-or­ga­ni­za­dos e auto-ges­ti­o­na­dos, como o que sur­giu na Galiza e está a sur­gir em Portugal– emer­gem como pos­si­bi­li­dade real de in­ver­ter aquela si­tu­a­ção. Os prin­ci­pais pa­peis que es­tas re­des po­dem de­sem­pe­nhar são: di­vul­gar e cla­ri­fi­car as pro­pos­tas de­cres­cen­tis­tas no es­paço pú­blico (pu­bli­ca­ções, en­con­tros, de­ba­tes); de­nun­ciar as po­lí­ti­cas pú­bli­cas ba­se­a­das em fal­sas so­lu­ções ou em so­lu­ções in­su­fi­ci­en­tes ou in­co­e­ren­tes; di­vul­gar, po­ten­ciar e li­gar pro­jec­tos e prá­ti­cas que pro­mo­vam o de­cres­ci­mento; pro­mo­ver há­bi­tos e prá­ti­cas que não ali­men­tem ‘o sis­tema’ e que se­jam co­e­ren­tes com as pre­mis­sas do de­cres­ci­mento. Os de­cres­cen­tis­tas es­tão ci­en­tes do de­sa­fio que será im­ple­men­tar a ver­da­deira re­vo­lu­ção cul­tu­ral que per­mi­tirá des­co­lo­ni­zar o ima­gi­ná­rio e de­sin­to­xi­car as men­tes e as nar­ra­ti­vas do­mi­nan­tes – es­tou con­victo de que as re­des de­cres­cen­tis­tas te­rão um pa­pel cen­tral neste pro­cesso, que já está em an­da­mento.

é pensador e activista eco-social, membro dum projecto de rede para o decrescimento em Portugal.

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