Periódico galego de informaçom crítica

Sobre viver o confinamento no rural

por
agos­tiño igle­sias

No primeiro dia da quarentena acordei e olhei pola janela. Umha névoa pousava-se delicada sobre as árvores do monte. Todo estava igual que no dia anterior. Quando saim a levar o lixo para o contentor, recebeu-me umha estrada baleira e silenciosa. Nom vim ninguém. Nada novo. Todo continuava na mesma.  

Quando se de­cre­tou o es­tado de alarme e lim as me­di­das a to­mar, dei por as­sente que as nor­mas que es­ta­vam a im­por nas gran­des ci­da­des nom iam ser as mes­mas que as que de­viam apli­car-se para as zo­nas que com­po­nhem o que se co­nhece como a «Espanha ba­lei­rada». Na mi­nha pa­ró­quia, por exem­plo, há me­nos de 300 pes­soas vi­vendo num ter­ri­tó­rio bas­tante ex­tenso e iso­lado: a gente que chega a sair de casa, di­fi­cil­mente adoita sair da al­deia e me­nos che­gar até a ci­dade.  

Que sen­tido tem con­fi­nar como se fijo com os cen­tros ur­ba­nos os lu­ga­res que pola ex­clu­som ter­ri­to­rial já vi­vem per­ma­nen­te­mente num es­tado de semi-con­fi­na­mento? 

Mas nom. Nem todo con­ti­nu­ava na mesma. Nom pas­sou muito tempo até que me de­ca­tei dos dis­cur­sos do medo es­ta­vam a ge­rar os meios mas­si­vos. Discursos que eram con­su­mi­dos dia e noite pola mi­nha vi­zi­nhança. Nos no­ti­ciá­rios todo o mundo es­tava a mor­rer num caos que se as­se­me­lhava a umha apo­ca­lipse que já nin­guém po­de­ria con­ter.  

O medo e os meios  

No caso de mi­nha al­deia, que su­po­nho que será o caso das de­mais, a mai­o­ria da po­pu­la­çom tem mais de 65 anos e está ju­bi­lada. Na falta dum bom ser­viço pú­blico de mo­bi­li­dade, as­sim como de ini­ci­a­ti­vas cul­tu­rais, a te­le­vi­som tem-se con­ver­tido no meio de la­zer por ex­ce­lên­cia. Som pou­cas as pes­soas que nom te­nhem tele li­gada toda a tarde, ainda à hora do jan­tar.  

A es­pe­ta­cu­la­ri­za­çom das no­tí­cias é umha ca­rac­te­rís­tica par­ti­cu­lar do es­tado es­pa­nhol. É quase como se, em lu­gar de as­sis­tir aos no­ti­ciá­rios, se es­ti­vesse a as­sis­tir a um filme de sus­pense em que só apa­rece as pi­o­res no­tí­cias que som da­das com um ma­te­rial au­di­o­vi­sual que, acom­pa­nhado por umha mú­sica do mais sé­ria e dra­má­tica, gera nas te­le­vi­den­tes umha sen­sa­çom de per­ma­nente de pe­rigo.  

Que sen­tido tem con­fi­nar como se fijo com os cen­tros ur­ba­nos os lu­ga­res que pola ex­clu­som ter­ri­to­rial já vi­vem per­ma­nen­te­mente num es­tado de semi-con­fi­na­mento?

De ma­neira que nom era de es­tra­nhar que no se­gundo dia da qua­ren­tena já cor­ria o falso ru­mor por toda a al­deia de que ha­via duas pes­soas in­fe­ta­das no nosso con­ce­lho. Algumha gente até co­me­çou a des­pir-se an­tes de en­trar na casa para logo ati­rar os sa­pa­tos pola ja­nela an­tes de to­mar du­che.  

As ima­gens dos hos­pi­tais so­bre­car­re­ga­dos e da gente idosa nos cui­da­dos in­ten­si­vos, fi­gé­rom que a mi­nha vi­zi­nhança se re­co­nhe­cesse como o grupo so­cial mais vul­ne­rá­vel da COVID, cousa que é real. Máis as re­a­çons fô­rom sendo cada vez máis des­pro­por­ci­o­na­das e tor­na­vam vi­sí­vel que o medo ani­qui­lava todo pen­sa­mento crí­tico so­bre a pan­de­mia. Quanto mais fa­tal era umha no­tí­cia, mais se lhe dava im­por­tân­cia. Deixárom de im­por­tar as es­ta­tís­ti­cas, as re­co­men­da­çons, os fac­tos; a te­le­vi­som apro­vei­tava-se da vul­ne­ra­bi­li­dade e en­ri­que­cia com o pa­vor da gente. 

A po­lí­tica do medo

No quinto dia no es­tado de alarme saim da casa com o meu com­pa­nheiro para fa­zer a com­pra. Um vi­zi­nho fa­lou-nos desde o seu por­tom: “Hai que es­tar na casa. Que onte já véu a garda ci­vil e man­dá­rom à casa o Roberto e o seu ir­mao que es­ta­vam aqui fora a fa­lar. À pró­xima mul­tam”. 

Ainda as­sim, tí­nha­mos que fa­zer a com­pra. Como já nom ha­via bu­ses, a nossa única op­çom foi ca­mi­nhar umha hora até a vila mais pró­xima. Quando ía­mos pola es­trada, sen­tia so­bre nós a mi­rada acu­sa­sora da gente mais nin­guém dixo rem. Já na vila, um par de po­lí­cias gri­tou-nos vi­o­len­ta­mente desde a pa­tru­lha: “Que nom po­de­des sair os dous. Só um. Para vós os no­vos todo é um chiste e fa­ze­des que vos dá a gana”. Mas, em que tipo de mundo vi­vem? Qual é a sua ideia da re­a­li­dade ga­lega? Nom vi­ve­mos numha ci­dade. Nom há jeito al­gum de que umha pes­soa poda su­bir ao monte a pé le­vando às cos­tas a com­pra para duas se­ma­nas. 

agos­tiño igle­sias

Pouco tempo de­pois, as me­di­das es­ta­be­le­cé­rom que nom po­día­mos ir além de pou­cos me­tros ao re­dor da casa. As mu­lhe­res que ti­nham os seus ani­mais fora da casa, iam cor­rendo com medo cara às cor­tes.  

A ma­neira que o Estado ar­ran­jou para fa­zer cum­prir as me­di­das do con­fi­na­mento é o que re­al­mente dá pa­vor. Controlar a po­pu­la­çom atra­vés do medo e da ame­aça do uso da força fa­zia-nos re­tro­ce­der no tempo; para nom fa­lar­mos da gente ce­le­brando a en­trada do exér­cito nas ci­da­des com com­pleta na­tu­ra­li­dade.  

Mas o que tam­bém sal­tava à vista era o ab­surdo que re­sul­ta­vam cer­tas nor­mas pen­sa­das para con­fi­nar as ci­da­des apli­ca­das ao mundo ru­ral. Os me­tros das ur­bes con­ti­nuá­rom aber­tos e aqui nom se pode sair ao monte para ca­mi­nhar em soi­dade sem ter medo de que a Guarda Civil che faga umha amo­es­ta­çom.  

Sobre vi­ver

Ontem, quase um mês de­pois de que co­me­çou o con­fi­na­mento, Carme, umha mu­lher de idade que vive soa, con­tou-me por te­le­fone: “Tento nom pen­sar em nada disto e ser po­si­tiva. Mas te­nho-che medo por­que sinto que nom tarda que caia numha de­pres­som. De ma­neira que falo por te­le­fone todo o tempo. Chamo e chamo a gente. Até agora vou es­ca­pando mais eu nom sei ma­nhá”. 

Enquanto o go­verno da Bélgica re­co­menda à sua ci­da­da­nia sair a ca­mi­nhar ou fa­zer des­porto por­que tanto o sol, como o exer­cí­cio e o des­canso vi­sual dumha mu­dança de am­bi­ente, som fa­to­res fun­da­men­tais para a saúde fí­sica e men­tal, no es­tado es­pa­nhol é proi­bido, di­reta ou in­di­re­ta­mente, à gente sair a dar umha volta pola na­tu­reza. Mesmo nos ter­ri­tó­rios com o ín­dice de po­pu­la­çom mais baixo.  

Cabe per­gun­tar: en­tom, quais som as pri­o­ri­da­des deste Estado e em quem pensa quando fai po­lí­tica? E, por ou­tra banda, nom há ou­tro jeito de fa­zer po­lí­tica e co­mu­ni­car-se com a ci­da­da­nia que nom seja atra­vés da im­po­si­çom dum cas­tigo? 

Os vín­cu­los so­ci­ais de co­o­pe­ra­çom ca­rac­te­rís­ti­cos da co­mu­ni­dade no ru­ral de­mons­tram que po­de­ria ha­ver ou­tra ma­neira de nos or­ga­ni­zar e cui­dar. Em vez disso, es­tes va­lo­res es­tám a ser fra­tu­ra­dos polo medo, a soi­dade, o iso­la­mento e o es­pe­tá­culo do ter­ror dos meios mas­si­vos que se en­car­re­gam de mol­dar certo tipo de mo­ral nas es­pe­ta­do­ras.

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