Periódico galego de informaçom crítica

Umha luita com base na investigaçom histórica

por
@19demeiras

O trabalho historiográfico tivo umha especial releváncia no longo caminho que deu na sentença dos julgados de primeira instáncia da Corunha em favor da declaraçom do Paço de Meirás como propriedade do estado. A documentaçom arredor de como este prédio passou às maos do ditador assentou as bases da resoluçom judicial. Por outra banda, também se pom em questom o relato oficial da ‘Transición’ espanhola, que já vinha sendo questionado pola própria historiografia.

O ca­te­drá­tico de his­tó­ria con­tem­po­rá­nea na Universidade de Santiago de Compostela, Xosé Manuel Núñez Seixas, con­si­dera que a sen­tença a fa­vor da de­vo­lu­çom ao es­tado do Paço de Meirás “pode ser um ponto de vi­ra­gem his­tó­rico”. Sabedor de que ainda ca­bem re­cur­sos pe­rante a Audiência Provincial e o Tribunal Supremo es­pa­nhol, Núñez Seixas di sen­tir-se “mo­de­ra­da­mente oti­mista”. Esta re­so­lu­çom, na opi­niom do ca­te­drá­tico, “mos­tra um per­fil di­fe­rente, e que fal­tava na ju­ris­pru­dên­cia es­pa­nhola, que é um res­peito po­las in­ves­ti­ga­çons his­tó­ri­cas que se le­vá­rom a cabo com fun­da­mento so­bre a a ques­tom do paço de Meirás”. “A vi­som crí­tica do pas­sado di­ta­to­rial e das li­mi­ta­çons do pro­cesso de tran­si­çom nom só de­vem ser elu­ci­da­das pola his­to­ri­o­gra­fia ou o dis­curso in­te­lec­tual, tam­bém te­nhem que che­gar à ju­di­ca­tura e tra­du­zir-se numha po­lí­tica de re­pa­ra­çons con­creta”, é nisto no que Núñez Seixas en­con­tra que esta sen­tença é um ponto de viragem.

Xosé Manoel Núñez Seixas, ca­te­drá­tico de his­tó­ria con­tem­po­rá­nea da USC, acha que a sen­tença a fa­vor da de­vo­lu­çom do Paço “pode ser um ponto de vi­ra­gem histórico”

Núñez Seixas, que foi pre­si­dente da co­mis­som de pe­ri­tos no­me­ada pola Conselharia de Cultura para cum­prir o man­dado par­la­men­tá­rio de es­tu­dar a pos­si­bi­li­dade de as Torres de Meirás pas­sa­rem à pro­pri­e­dade pú­blica, tam­bém con­si­dera que a sen­tença vai além da ques­tom da pro­pri­e­dade de Meirás, da Casa Cornide na Corunha ou as es­tá­tuas do Pórtico da Glória. “É per­gun­tar-se quanto fran­quismo resta na so­ci­e­dade”, sa­li­enta o ca­te­drá­tico, quem opina que esta sen­tença “mos­tra que há um novo con­senso so­cial e que é pre­ciso afa­zer o dis­curso da me­mó­ria de­mo­crá­tica a ele”.

Documentando a memória

O his­to­ri­a­dor Manuel Pérez Lorenzo é co­au­tor, com Carlos Babío, da obra ‘Meirás. Un pazo, un cau­dillo, un es­po­lio ’ e par­ti­ci­pou na ela­bo­ra­çom do re­la­tó­rio his­tó­rico-ju­rí­dico da Deputaçom da Corunha so­bre o Paço de Meirás. Natural de Sada, mu­ni­cí­pio onde se lo­ca­liza o Paço, Pérez Lorenzo con­si­dera que a in­ves­ti­ga­çom his­to­ri­o­grá­fica e a in­for­ma­çom do­cu­men­tal fô­rom fun­da­men­tais para a sen­si­bi­li­za­çom para a ne­ces­si­dade de in­cor­po­ra­çom deste edi­fí­cio ao pa­tri­mó­nio pú­blico. Antes de todo este tra­ba­lho de in­ves­ti­ga­çom, “cir­cu­la­vam umha sé­rie de ideias: que as pes­soas fo­ram obri­ga­das a con­tri­buir, que a al­gumhas pes­soas lhes ti­ra­ram as suas pro­pri­e­da­des…”, ex­póm. Após as pes­qui­sas, es­sas me­mó­rias po­pu­la­res fô­rom documentadas.

Quando em 2007 se ini­ci­ara o pro­cesso de de­cla­ra­çom das Torres de Meirás como Bem de Interesse Cultural (BIC), que coin­ci­diu com o go­verno bi­par­tido da Junta e o pri­meiro au­tarca na­ci­o­na­lista em Sada, a di­reita fi­gera cam­pa­nha con­tra esta re­so­lu­çom, mas Pérez Lorenzo as­si­nala que o novo con­senso so­cial em torno de Meirás torna di­fí­cil hoje acei­tar dis­cur­sos con­trá­rios ao facto de que o Paço seja um bem pú­blico. “Em Sada ve­ri­fi­cou-se umha mu­dança im­por­tante», su­bli­nha este his­to­ri­a­dor, so­bre­tudo tendo em conta que du­rante quase trinta anos ti­nha go­ver­nado um au­tarca que man­ti­vera no seu ga­bi­nete o re­trato de Franco até 2003.

lois chan­tada

A in­de­fi­ni­çom da propriedade

Na di­ta­dura exis­tia umha in­de­fi­ni­çom ab­so­luta en­tre a fi­gura de Franco e a fi­gura do chefe de Estado”. Esse foi um dos pon­tos ful­crais que fa­ci­li­tou que Meirás pas­sasse às maos da fa­mí­lia do di­ta­dor. “Se Franco nom fosse chefe de es­tado pro­cla­mado na al­tura polo bando su­ble­vado, nom se te­ria pro­du­zido esse aga­sa­lho por parte da ‘Junta Pró-Paço’ em 1938”, sa­li­enta Pérez Lorenzo. Este his­to­ri­a­dor sa­li­enta que nes­ses anos ainda está a ser es­tru­tu­rada a ar­qui­te­tura ju­rí­dica do re­gime, e só é em 1940 que é apro­vada a Lei do Património do Estado, pola que as pro­pri­e­da­des da Coroa que fô­rom as­su­mi­das pola República pas­sam à Chefatura do Estado. “O paço de Meirás po­dia ser afe­tado por essa lei, com base na es­cri­tura do 38 da que foi ob­se­qui­ado o Chefe de Estado. É nessa al­tura quando se re­dige umha es­cri­tura nova, que é frau­du­lenta por­que a parte que ven­dera o edi­fí­cio no 38 volta a vendê-lo quando já nom era seu. E no 41 volta a ven­der-se o edi­fí­cio e agora nom é a ‘Junta Pro-Paço’ quem o com­pra, mas Franco, ade­mais a um preço sen­si­vel­mente in­fe­rior ao do 38”, ex­póm Pérez Lorenzo.

O novo con­senso so­cial em torno de Meirás torna di­fí­cil hoje acei­tar dis­cur­sos con­trá­rios ao facto de que o Paço seja um bem público

Após a morte do di­ta­dor o paço nom pas­sará a ser pro­pri­e­dade do Estado, num exem­plo de per­pe­tu­a­çom das eli­tes e pre­ben­das fran­quis­tas. Pérez Lorenzo pom as­sim o foco em Fernando Fuentes de Villavicencio e Ricardo Catoira, al­tos car­gos da Casa Civil do Chefe de Estado, or­ga­nismo que ge­ria as re­si­dên­cias do di­ta­dor ‑en­tre elas o paço de Meirás‑, que con­ta­vam tam­bém com car­gos em Patrimonio Nacional. Estas duas pes­soas per­ma­ne­ce­riam nos seus pos­tos em Patrimonio e pas­sa­riam tam­bém a de­sem­pe­nhar o seu la­bor na Casa Real. “Eram a gente que es­tivo du­rante toda a di­ta­dura a ge­rir o Paço de Meirás para Franco. Pensar que agora iam mu­dar as cou­sas era im­pos­sí­vel, pois es­tas duas pes­soas con­ti­nu­a­vam a ter o mesmo po­der. E é um exem­plo de como em mui­tos ám­bi­tos per­sis­tí­rom umha sé­rie de es­tru­tu­ras de po­der que nom ra­chá­rom nem com a morte de Franco nem com a Transiçom”, sa­li­enta Pérez Lorenzo. Ademais, umha das pri­mei­ras açons le­va­das a cabo pelo rei Juan Carlos I foi do­tar de tí­tulo no­bre a re­la­çom da es­posa de Franco, Carmen Polo, com o paço, cri­ando o ‘Senhorio de Meirás’.

Umha vi­o­lên­cia saqueadora

Antonio Miguez Macho é pro­fes­sor de História Contemporánea da USC. É um dos gran­des co­nhe­ce­do­res da di­ta­dura fran­quista no nosso país, e um dos pri­mei­ros in­te­lec­tu­ais que, no nosso con­torno, de­li­mi­tou te­o­ri­ca­mente o termo ‘ge­no­cí­dio’ para des­cre­ver o que acon­te­ceu na nossa Terra a par­tir de 1936. Para Miguez, Meirás é “a ponta do ice­berg, o exem­plo mais vi­sí­vel, mas nom ne­ces­sa­ri­a­mente o mais im­por­tante” de umha prá­tica de pre­da­çom e sa­que as­so­ci­ada à vi­o­lên­cia de Franco. Umha vi­o­lên­cia que é, para o in­ves­ti­ga­dor, “fun­da­dora e con­ti­nu­a­mente recriada”.

Família Franco e fa­mí­lia real es­pa­nhola às por­tas do Paço de Meirás em 1971.

O paço se­ria um si­nal de que a vi­o­lên­cia do re­gime de Franco nom é ape­nas fí­sica, ho­mi­cida, mas “passa por uma enorme trans­fe­rên­cia de po­der eco­nó­mico”. O fran­quismo, além de des­truir os seus ini­mi­gos, «apro­pria-se dos seus bens e de­preda tudo o que é pa­tri­mó­nio da so­ci­e­dade”. Para atin­gir es­ses ob­je­ti­vos, as es­tra­té­gias som vá­rias: «do­a­çons e as­si­na­tu­ras po­pu­la­res, co­er­çom e en­gano.” Para es­ta­be­le­cer o re­gime, diz Miguez, a nar­ra­tiva fran­quista pre­ci­sava “tor­nar o ne­ga­ci­o­nismo he­ge­mó­nico na so­ci­e­dade es­pa­nhola. Nega que che­gara ao po­der por meio dum golpe de Estado, nega que uti­li­zasse a vi­o­lên­cia para ex­ter­mi­nar os que con­si­dera os seus ini­mi­gos e, ob­vi­a­mente nega que sa­que­asse, de­pre­dasse sistematicamente”.

Impunidade le­gal

A per­vi­vên­cia do con­ten­ci­oso de Meirás tan­tas dé­ca­das após o fim do Regime ilus­tra em certa me­dida a ló­gica do es­que­ci­mento que do­mi­nou a cha­mada ‘Transiçom’. “Meirás amossa que a ideia de im­pu­ni­dade que dá molde ao mo­delo de jus­tiça tran­si­ci­o­nal es­pa­nhol é in­se­pa­rá­vel da ne­ga­çom das con­sequên­cias ju­rí­di­cas e da res­pon­sa­bi­li­dade in­di­vi­dual do pas­sado e da vi­o­lên­cia mas­siva”. O facto de Meirás ter es­tado nas maos dos Francos e agora pas­sar para as maos do Estado nom sig­ni­fica, para o his­to­ri­a­dor, “a so­bre­vi­vên­cia dessa im­pu­ni­dade. Na re­a­li­dade, nom há pu­ni­çom para quem co­me­teu cri­mes, rou­bou bens ou aju­dou ou­tros a fazê-lo.»

A re­cente de­ci­som ju­di­cial pode ser en­ten­dida como um du­plo triunfo: “po­los mo­vi­men­tos so­ci­ais e po­lí­ti­cos que tra­vá­rom a luita, e tam­bém po­los his­to­ri­a­do­res e pe­ri­tos que nos acon­se­lhá­rom no pro­cesso”, acha o his­to­ri­a­dor Míguez Macho

Na con­for­ma­çom de umha nova nar­ra­tiva con­tra-he­ge­mó­nica, a his­to­ri­o­gra­fia e a so­ci­e­dade or­ga­ni­zada te­nhem jo­gado o seu pa­pel. “O in­te­resse da his­to­ri­o­gra­fia no caso de Meirás é de­si­gual, mas cres­cente. Isto deve-se a ser ex­pres­som dum fe­nó­meno trans­ver­sal, se­me­lhante ao caso das es­tá­tuas do Pórtico, que como sa­be­mos, se re­sol­veu, quanto me­nos em pri­meira ins­tán­cia, num sen­tido dis­tinto”. Qual se­ria o pa­pel do his­to­ri­a­dor nesse de­bate: “acho que de­ve­mos ofe­re­cer à so­ci­e­dade umha nar­ra­tiva que ajude a en­ten­der a com­ple­xi­dade do pas­sado da vi­o­lên­cia mas­siva. Nom sendo ape­nas cro­nis­tas do que já aconteceu.

A re­cente de­ci­som ju­di­cial pode ser en­ten­dida como um du­plo triunfo: “po­los mo­vi­men­tos so­ci­ais e po­lí­ti­cos que tra­vá­rom a luta, e tam­bém po­los his­to­ri­a­do­res e pe­ri­tos que nos acon­se­lhá­rom no pro­cesso”. Mas Miguez alerta que a aná­lise nunca deve ser iso­lada: “O pro­blema de Meirás nom é ape­nas um ex­cesso ou um ca­lote de Franco, do re­gime e dos seus su­ces­so­res. É umha con­sequên­cia de um mo­delo de im­pu­ni­dade ju­rí­dica con­subs­tan­cial ao re­gime tran­si­tó­rio que es­ta­mos longe de ter mu­dado e sem pers­pe­tiva de vir a ser mu­dado brevemente.»

Um de­bate europeu

O pro­fes­sor Núñez Seixas es­tivo a in­ves­ti­gar os lu­ga­res de me­mó­ria li­ga­dos à bi­o­gra­fia de di­ta­do­res na Europa, como po­dem ser as suas ca­sas na­tais ou os seus tú­mu­los. Em re­la­çom à di­ta­dura de Franco su­bli­nha o facto de exis­ti­rem duas pe­cu­li­a­ri­da­des. Umha de­las é a já re­fe­rida nde­fi­ni­çom en­tre o que é pro­pri­e­dade do Estado e o que é pro­pri­e­dade pri­vada do di­ta­dor ‑do que Meirás é um exemplo‑, e por ou­tro o facto de a me­mó­ria de Franco ser tam­bém a me­mó­ria da guerra ci­vil e da repressom.

Praticamente em toda a Europa, tanto no caso das di­ta­du­ras fas­cis­tas como no caso das di­ta­du­ras co­mu­nis­tas, sem­pre houve pro­ble­mas so­bre o que fa­zer para ad­mi­nis­trar es­ses es­pa­ços”, ad­mite Núñez Seixas. Assim, chama a aten­çom para o facto de que “os lu­ga­res que evo­cam a in­fán­cia, o co­ti­dino, ou a morte de um di­ta­dor som lu­ga­res em que o di­ta­dor apa­rece hu­ma­ni­zado. Implicitamente, qual­quer nar­ra­tiva feita num mu­seu por qual­quer crí­tico pode cair no pe­rigo de ado­çar a me­mó­ria da­que­les di­ta­do­res.» No en­tanto, Núñez Seixas tam­bém se per­gunta, “mas será que po­de­mos apa­gar re­pen­ti­na­mente 80 anos de his­tó­ria, quando Meirás para as ge­ra­çons mais re­cen­tes está ob­vi­a­mente li­gado à fa­mí­lia Franco?”. Desta forma, de­verá ser aberto um de­bate na so­ci­e­dade so­bre os usos que o Estado terá de dar ao Paço de Meirás, sede de ve­rao do apa­re­lho es­ta­tal franquista.

Um de­bate que se pode con­si­de­rar pre­sente, já que é a Fundaom Francisco Franco que gere as vi­si­tas ao BIC de Torres de Meirás, o que foi um ca­ta­li­sa­dor do atual con­senso nas for­ças po­lí­ti­cas par­la­men­ta­res pola re­cu­pe­ra­çom de Meirás para o pa­tri­mó­nio pú­blico. Ainda pen­dente de uma sen­tença firme, os pri­mei­ros pas­sos para a re­cu­pe­ra­çom dos sa­que­a­dos pola fa­mí­lia Franco já fô­rom dados.

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