Periódico galego de informaçom crítica

Umha memória histórica (ainda) muito limitada

por
Retratos de Isabel Rios Lazcano e Juana Capdevielle, re­pu­bli­ca­nas re­ta­li­a­das no fran­quismo |
Marta Paz

Elvira Bao. Maria Zambrano. Federica Montseny. Ruas e pra­ças de re­cente cri­a­çom co­me­çam a ter nome de mu­lhe­res re­pu­bli­ca­nas, in­clu­sive em lu­ga­res como na ci­dade da Corunha mu­dá­rom-se os no­mes que o fran­quismo im­pujo às ruas para co­lo­car o das pes­soas que jo­gá­rom um pa­pel im­por­tante na urbe ou as suas no­men­cla­tu­ras ori­gi­nais. Mas o re­no­me­a­mento dos es­pa­ços é abondo no tra­ba­lho pola me­mó­ria his­tó­rica? Os ca­mi­nhos para re­cu­pe­rar a me­mó­ria do povo, si­len­ci­ada com a morte e a re­pres­som da di­ta­dura fran­quista, ainda es­tám por per­cor­rer se­gundo as­si­nala a ati­vista Lola Ferreiro e mesmo a fi­lha de Elvira Bao.

Há que lem­brar to­das as pes­soas que o fas­cismo de Franco ma­tou por­que cons­ti­tuem a base do que existe hoje”, aponta Elvira Varela Bao. A fi­lha de quem foi a pri­meira pre­si­denta da Agrupaçom Republicana Feminina na Corunha e mes­tra no sa­na­tó­rio de Oça nom dis­pom de tí­tulo aca­dé­mico al­gum. Nem tam se­quer da Educaçom Geral Básica. Tampouco nom re­a­li­zou o Auxilio Social. “Estou bem lim­pi­nha”, sus­tém ao olhar de va­gar os 91 anos que já leva vi­vi­dos.

Para ace­der à edu­ca­çom re­gu­lada, Elvira Varela de­via ade­rir ao re­gime fas­cista do ge­ne­ral Francisco Franco e re­ne­gar, por­tanto, da sua mae Elvira Bao. A de­ci­som de ser leal aos seus prin­cí­pios e aos da sua fa­mí­lia im­pli­cou ser “umha apes­tada du­rante mui­tos anos” mas isso nom lhe apa­gou o or­gu­lho que sente da es­co­lha.

Elvira Varela cre que a esquerda “nom deveria esquecer o seu passado nem deixar de reivindicar a memória das pessoas que fôrom assassinadas”

Tivem a es­cola na casa polo que tam­bém sou cons­ci­ente de que fum umha pri­vi­le­gi­ada”, ex­plica Elvira Varela, Elvirita, como cos­tuma ser co­nhe­cida pola sua gente.
Elvira re­lata com emo­çom que este cinco de ou­tu­bro se inau­gu­rou a sala Elvira Bao na fa­cul­tade de Ciências de Educaçom na Corunha e em ques­tom de dias abrirá-se a re­si­dên­cia de es­tu­dan­tes Elvira Bao ade­mais da praça que leva o nome da sua mae por ini­ci­a­tiva do Concelho. “Inaugurárom duas pra­ças umha a da mi­nha mãe e ou­tra a de 8 de março, pode-lo crer?”, di sor­ri­dente.

O con­ce­lho da Corunha ini­ciou um pro­cesso de re­no­me­a­mento das ruas da ci­dade para rei­vin­di­car bem per­so­na­gens im­por­tan­tes da Corunha bem as suas no­men­cla­tu­ras tra­di­ci­o­nais. “É muito im­por­tante lem­brá-las”, in­dica, “ma­tá­rom mui­tas pes­soas”. Elvira Varela vive este pro­cesso com emo­çom e sen­ti­mento de jus­tiça mas tam­bém re­co­nhece que a es­querda “nom de­ve­ria es­que­cer o seu pas­sado nem dei­xar de rei­vin­di­car a me­mó­ria das pes­soas que fô­rom as­sas­si­na­das”.

Memória e es­pe­rança
“Ainda que se­me­lhe um tó­pico, o des­co­nhe­ci­mento da his­tó­ria pró­pria con­dena os po­vos e as pes­soas a re­peti-la”, sus­tém a ati­vista pola me­mó­ria his­tó­rica Lola Ferreiro. Considera im­pres­cin­dí­vel re­fle­xi­o­nar so­bre o que lem­bra­mos e nom lem­bra­mos já que exis­tem en­tre cinco e oito anos na me­mó­ria do povo em que se cons­truí­rom ilu­sons. Esse tempo da II República, di Ferreiro, “foi con­de­nado ao os­tra­cismo pola di­ta­dura fran­quista”. “Isso é muito no­civo por­que di­fi­culta a es­pe­rança e esta é fun­da­men­tal”.

À hora de re­cu­pe­rar a me­mó­ria das mu­lhe­res os es­for­ços du­pli­cam-se. “O pa­tri­ar­cado nom con­sente a me­mó­ria das mu­lhe­res e é algo con­tra o que há que lui­tar to­dos os dias”, in­dica a ati­vista que aponta como “or­ga­ni­za­çons po­lí­ti­cas de es­quer­das e mu­lhe­res aca­bá­rom por re­sig­nar-se”. Num exer­cí­cio de oti­mismo, Lola Ferreiro as­si­nala como “agora já se co­me­çam a re­cu­pe­rar os no­mes e his­tó­rias das nos­sas” mas este pro­cesso de re­cu­pe­ra­çom da me­mó­ria his­tó­ria nom é umha ques­tom sim­ples. Com res­peito às ini­ci­a­ti­vas que só fi­cam no re­no­me­a­mento dos es­pa­ços, Lola Ferreiro aponta que som “im­pres­cin­dí­veis mas por si soas nom abonda”.

Memória com con­texto
Nom só é ne­ces­sá­rio lem­brar os atos e as pes­soas in­di­vi­du­ais se­nom o con­texto que as en­volve. “É pre­ciso co­lo­car um marco po­lí­tico à re­pres­som so­frida” como por exem­plo as­si­na­lar o golpe mi­li­tar de 1931, pre­ce­dente do que se ini­ci­ará cinco anos de­pois. “Se nom se re­cu­pera a me­mó­ria no seu com­pleto, o pro­cesso fica coxo e até per­ver­tido”, des­taca, “é pre­ciso apli­car o con­texto, que isto en­tre nas es­co­las atra­vés das ci­ên­cias so­ci­ais”.

“O patriarcado nom consente a memória das mulheres e é algo contra o que há que luitar todos os dias”, indica Lola Ferreiro

Lola Ferreiro con­tra­pom o pro­cesso so­bre a me­mó­ria vi­vido na ci­dade da Corunha com o de Compostela. Enquanto na pri­meira ci­dade houvo atos pú­bli­cos e con­fe­rên­cias so­bre o novo no­me­a­mento das ruas e pra­ças como a de Elvira Bao, em Compostela pas­sou inad­ver­tido. “No Castinheirinho te­mos ruas como as de Carmen Laforet, Anna Frank, Maria Zambrano, Federica Montseny ou Concepción Pérez Iglesias mas nom houvo nehumha rei­vin­di­ca­çom do que elas fi­gé­rom e do que su­pujo para a nossa his­tó­ria, tam­pouco nom se anun­ciou pu­bli­ca­mente”. Ainda que lhe custa ima­gi­nar um pro­cesso so­cial, po­lí­tico e in­te­gra­dor so­bre a me­mó­ria his­tó­rica pró­ximo no tempo, Lola Ferreiro con­si­dera que é umha ques­tom vi­tal para os po­vos. É ne­ces­sá­rio ade­mais, di, des­ta­par os cri­mes do fran­quismo e que os seus res­pon­sá­veis se­jam le­va­dos à jus­tiça ao mesmo tempo que nom fi­que ne­nhum corpo das ví­ti­mas por iden­ti­fi­car.

Para ma­te­ri­a­li­zar esta ideia, Ferreiro de­fende qui­tar a agenda so­cial aos po­de­res que de­ci­dí­rom, polo de agora, até onde atinge o de­bate ao re­dor da me­mó­ria his­tó­rica. “A lei que im­pul­sou o Partido Socialista Obrero Español co­lo­cou a me­mó­ria his­tó­rica no de­bate mas só em de­ter­mi­na­dos ter­mos já que a nor­ma­tiva é am­pla­mente re­du­ci­o­nista”. Umha lei que se vê in­cum­prida po­las ins­ti­tu­çons pú­bli­cas como po­dem ser os con­ce­lhos que se ne­gam a mu­dar a sim­bo­lo­gia fas­cista ou os no­mes das ruas fran­quis­tas. A dia de hoje “ne­nhumha or­ga­ni­za­çom po­lí­tica de­nún­cia que esta lei nom abonda e as pes­soas te­nhem o di­reito a rei­vin­di­car a sua me­mó­ria e as cri­an­ças te­nhem o di­reito a co­nhe­cer a his­tó­ria, a de ver­dade”.

Elvira Varela, fi­lha da re­pu­bli­cana Elvira Bao | Héctor Barandela

Nomes apagados da história

Na sua casa, cheia de lem­bran­ças da sua mãe, Elvira Varela passa a ponta dos de­dos po­las fo­to­gra­fias da Agrupaçom Republicana Feminina pondo nome a cada cara. Uns no­mes que pro­nún­cia de cor­rido como se se tra­tasse de um exer­cí­cio diá­rio. Amparo López Jeán, “ela era a vice-pre­si­dente da Agrupaçom e sem­pre es­tava com a mi­nha mae”. Com um sor­riso di “esta mu­lher era co­nhe­cida como Lola la Rubia e nunca con­sigo lem­brar o seu ape­lido. Juanita Capdeville, pe­da­goga e bi­bli­o­te­cá­ria, “os fas­cis­tas ma­tá­rom-na a paus es­tando grá­vida de cinco me­ses”. Também Sofia, co­menta, a mu­lher do al­calde da Corunha na República, Suárez Ferrín, foi as­sas­si­nada. María Miramontes. Carmen Rei Barral. Adela Mejuto, “ela era con­ce­lheira”. “Aqui está Freijido, nom lem­bro do seu nome mas for­mava parte da Agrupaçom Republicana Feminina e ti­nha umha tenda de pre­sen­tes na rua Real”.

Muda de foto e vol­tam apa­re­cer os mes­mos no­mes com al­gumha adi­ci­o­nada. “Pepita Muñíz, que ge­ria a pri­meira aca­de­mia de me­ca­no­gra­fia e ta­qui­gra­fia da ci­dade da Corunha e o seu ma­rido que per­ten­cia ao Casino Republicano. Trinidad Villalón, se­cre­tá­ria da Agrupaçom. Teté Albajar, fi­lha de Amparo López Jeán, “tam­bém es­tava em to­das coma mim”. “E esta é Pilar Durán, mes­tra dos Castros que foi ex­pulsa da es­cola com o Golpe e mar­chou para Cuba com o seu fi­lho Juancito”.

Acho de jus­tiça que se re­co­nheça que nom fô­rom de­lin­quen­tes e que tra­ba­lhá­rom po­las de abaixo”, sus­tém Elvirita, que ad­mite que “fica muito para fa­zer pola me­mó­ria das pes­soas que lui­tá­rom pola ilu­som e con­vi­çom de que um mundo me­lhor é pos­sí­vel”.

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