Umha música para um país

por
ca­xade

Quando lá polo 1940 o nosso Castelao dava forma so­bre o pa­pel a aquela for­mosa frase do ainda pre­ma­turo Sempre em Galiza que di­zia “umha lín­gua é mais do que umha obra de arte; é ma­triz ines­go­tá­vel de obras de arte”, nom ima­gi­nava da­quela quanto che­ga­ria a acer­tar, nem quanto acre­di­ta­ría­mos as gen­tes de 2017 em que as­sim é. Pois a cul­tura, que pode ter mui­tas for­mas, ocupa-nos hoje dum jeito mui es­pe­cial, com a hu­milde pre­ten­som de pôr em va­lor o prós­pero país que so­mos e que mais po­de­ría­mos ser em mui­tos sen­ti­dos, tam­bém atra­vés da mú­sica.

Pois é a nossa mú­sica, a mú­sica ga­lega, é ma­triz ines­go­tá­vel de obras de arte que co­bram vida le­va­das po­los nos­sos so­nhos, os nos­sos an­seios e as nos­sas uto­pias mais re­ais.

Embora so­nhe­mos – e so­nhar é bom para o es­pí­rito – há algo que nom se eva­pora no ar com a fu­ga­ci­dade dum pen­sa­mento, dumhas no­tas que se to­cá­rom uns mi­nu­tos e de­sa­pa­re­cê­rom. É a verba es­crita. As ver­bas, coma as que es­cre­via Castelao, sem­pre fi­cam aí para nos lem­brar quem so­mos, qual é o nosso ca­mi­nho. Castelao ti­nha-o mui claro quando quijo aga­sa­lhar-nos para a pos­te­ri­dade com a frase “em Portugal fi­cou a me­tade da nossa terra, do nosso es­pí­rito, da nossa lín­gua, da nossa cul­tura, da nossa vida, do nosso ser na­ci­o­nal”. Como ele, tam­bém o ti­vê­rom claro – e ainda o te­nhem – as ga­le­gas que fam mú­sica com o som na ca­beça e com as ver­bas no co­ra­çom. Através dessa cul­tura, dessa lín­gua que nos fi­cou em Portugal, fô­rom mui­tas as ga­le­gas rein­te­gra­ci­o­nis­tas que pu­gê­rom o seu arte e o seu sen­tir ao ser­viço do idi­oma, la­vrando umha his­tó­ria mu­si­cal que con­ti­nua hoje e que deve con­ti­nuar.

Na me­tade da dé­cada de 1990, quando apa­re­cê­rom Nen@s da Revolta, desde o hard­core à mes­ti­ça­gem, che­gando ao hip-hop, a mú­sica ga­lega con­tava já com umhas re­pre­sen­tan­tes rein­te­gra­ci­o­nis­tas, que edi­tá­rom o seu pri­meiro al­bume em 1998, Raggaliza dis­si­dente. A Revolta d@s nen@s. Já em 2000, a pouco de dis­sol­ver-se a banda, sai à luz um disco muito mais pro­fis­si­o­nal, com o nome de As vo­zes rou­ba­das, onde de­cla­ram que o seu es­tilo é a mes­ti­ça­gem. O com­pro­misso po­lí­tico nas suas can­çons, e so­bre­todo com os di­rei­tos dos ani­mais, deixa de­trás de si um le­gado que ainda hoje con­ti­nua em vi­gor. Também na dé­cada de 1990 nas­cia Chouteira a ritmo de folk, e evo­lu­ci­o­na­ria gra­ta­mente com a in­cor­po­ra­çom de Ugia Pedreira, quem nos aga­sa­lha­ria atra­vés desta sua etapa com al­gumhas das pe­ças mais for­mo­sas da mú­sica em ga­lego. Da mao de Pedreira, quem co­la­bo­rou am­pla­mente no pa­no­rama ga­lego com vá­rias ban­das como A Matraca Perversa (2002), che­gar-nos-ia tam­bém ar­re­dor de qua­tro anos mais tarde Marful, onde qual­quer ritmo dan

Ugia Pedreira | ra­quel rei

çá­vel, com­bi­nado com o folk, era pos­sí­vel. Atualmente, se­gundo ex­pli­cou a can­tora a este meio, é “guia, junto com o com­pa­nheiro, Pierrot Rougier, dum coro ama­dor cha­mado O Coro da Marinha”, com o mar como mo­tivo fun­da­men­tal, lo­grando cons­truir “umha co­mu­ni­dade nova atra­vés da mú­sica na zona da Marinha e do oci­dente das Astúrias de fala ga­lega”, ati­vi­dade que com­bina com ou­tras ocu­pa­çons como au­las de canto, pan­dei­reta ou a co­mu­ni­ca­çom no ám­bito da di­ver­si­dade fun­ci­o­nal e ar­tís­tica.

Na li­nha dos anos 90 e na pri­meira dé­cada de 2000, nom po­de­mos pas­sar sem men­ci­o­nar os Skárnio, quem, com as le­tras de Paulo Tobio como ban­deira, fi­gê­rom da Galiza um ce­ná­rio de luita po­los di­rei­tos das pre­sas in­de­pen­den­tis­tas, da lín­gua e da li­ber­dade do país. Com aquilo de “fal­tam ca­mi­nhos e o nosso é um des­tino de­va­gar, mas de sem­pre avan­çar”, que co­meça o disco O nosso ca­mi­nho (2008), con­ti­nu­ava tam­bém umha etapa de es­plen­dor para os gru­pos rein­te­gra­ci­o­nis­tas que lhes fô­rom con­tem­po­rá­neos neste tempo, como foi o caso de Ofensiva (hard­core, 2004), que che­gá­rom a edi­tar A úl­tima pa­la­vra dous anos de­pois.

A co­me­ços de sé­culo tam­bém nas­ciam The Brosas, quem en­tre as suas can­çons mais atu­ais in­cor­po­ram Orgulho ru­ral, Pacifismo, essa la­cra, ou Cam de pa­lheiro (The Brosas, 2013), edi­ta­das pela Lixo Urbano. Com um es­tilo mui di­fe­rente, nom po­de­mos es­que­cer o Servando Barreiro, que com Servando e con­tra­dança con­ti­nua a fa­zer um grande la­bor pola mú­sica do país.

Pois é, o ca­mi­nho “de­va­gar mas de sem­pre avan­çar” nom se de­tivo e con­ti­nua a ache­gar ao nosso pa­no­rama mu­si­cal ban­das coma Liska!, com Sonhos de raiva (2013) e República 1.0 (2017) como mos­tras desse ca­mi­nho an­dado desde o rein­te­gra­ci­o­nismo, es­plen­dor em que acre­dita a banda com­pos­telá Os Novos, que de­pois de edi­tar o seu vi­nilo Nom lu­gar (Lixo Urbano, 2014), apre­sen­tam neste ve­rao Assalto acús­tico. Segundo Alberte (baixo e vo­zes), o rein­te­gra­ci­o­nismo “é algo trans­ver­sal, que in­tenta es­tar em to­dos os ám­bi­tos, en to­dos os mo­vi­men­tos po­lí­ti­cos e so­ci­ais e que, ainda que até agora nom ha­via mui­tas ban­das rein­te­gra­ci­o­nis­tas, co­me­çam-se a ver e é algo mui im­por­tante, tanto na mú­sica, como em to­dos os ní­veis”. Quique (gui­tarra e vo­zes) cor­ro­bora as pa­la­vras do seu com­pa­nheiro e va­lo­riza o fu­turo do rein­te­gra­ci­o­nismo que, se­gundo ele, “está me­nos ne­gro do que tem es­tado, já que o de­bate do rein­te­gra­ci­o­nismo está numha po­si­çom de mais força, me­nos re­sis­ten­ci­a­lista e mais nor­ma­li­za­dora, e que isso tam­bém está a mu­dar um pouco o clima do que foi o rein­te­gra­ci­o­nismo até hoje”.

Junto com Os Novos, ou­tros pro­je­tos como o de Alonso Caxade, quem lan­çou o pas­sado ano o seu úl­timo tra­ba­lho E isto é o amor, ou o fes­ti­val in­ter­na­ci­o­nal da lu­so­fo­nia Cantos na maré, fam parte do pa­no­rama atual como meios de di­fu­som e, em si­mul­tâ­neo, de ache­ga­mento à nossa lín­gua, que tam­bém está a ba­ter forte no ám­bito do rap, hip-hop e da mú­sica ele­tró­nica, da mao de gru­pos como Rebeliom do Inframundo ou da edi­tora Língua Nativa que, po­las pa­la­vras do seu só­cio co­fun­da­dor, Ricardo Cascalhar, “em­prega a lín­gua com pro­je­çom in­ter­na­ci­o­nal” para, além de “apos­tar na Galiza, che­gar a ou­tros paí­ses como Brasil, Portugal ou Angola”. Segundo Cascalhar, o pro­blema neste ám­bito é “de pro­mo­çom lingüís­tica” e o por­tu­guês “é um ca­mi­nho que abre por­tas”, já que “a nor­ma­li­dade lingüís­tica que que­re­mos está fora” e, “se a Galiza fosse mais lu­só­fona, se­ria muito mais fá­cil che­gar a mais am­bi­en­tes como as rá­dios por­tu­gue­sas ou bra­si­lei­ras”.

Mas este é um ca­mi­nho que só se pode an­dar com os pas­sos de to­das em con­junto e que, em pa­la­vras de Ugia Pedreira, irá “onde umhas e ou­tras quei­ram e te­nham ener­gia para levá-lo adi­ante com ho­nes­ti­dade, or­gu­lho bem en­ten­dido e muita con­fi­ança em si mes­mas”.