Periódico galego de informaçom crítica

17 de maio… sempre! 

por
le­an­dro lamas

Acabamos de ce­le­brar co­la­te­ral­mente o Dia da Liberdade des nos­ses vi­zi­nhes a sul do Minho, no 25 de abril. O res­sur­gir de uma li­ber­dade que nós não ti­ve­mos por­que o nosso re­gime mu­dou de nú­mero (de 36 a 78) e de ape­lido (de Franco a Bourbon), mas sem re­vo­lu­ção ne­nhuma. E sem re­vo­lu­ção, abo­lir uma di­ta­dura é bem com­pli­cado (que per­gun­tem ao po­der ju­di­cial). A re­vo­lu­ção acaba por ser, ao meu pa­re­cer, o pro­duto que co­lo­cas à roupa quando tens uma man­cha de pin­tura; se não ti­ve­res, com a la­va­gem nor­mal da má­quina não dá para sair. Sabes que está suja, e não a mos­tras. Ou a ar­ran­jas, ou vai para an­dar pela casa ou para pa­nos de lim­par as ja­ne­las e com­pras outra. 

Haverá quem dis­corde, na­tu­ral­mente, mas acho que neste tema tudo de­pende do con­ceito que cada quem tem da de­mo­cra­cia. Uma vez uma ca­te­quista disse-me, ar­gu­men­tando con­tra os pro­tes­tan­tes, que “o cris­ti­a­nismo não é como os ham­búr­guers de um McDonald’s: ou com­pras o pa­cote com­pleto –Imaculada Conceição, res­sur­rei­ção em corpo e alma etc.– ou não serve”. O exem­plo con­creto é ter­rí­vel, mas com a de­mo­cra­cia penso que acon­tece uma coisa se­me­lhante. Há quem es­co­lhe ape­nas o su­frá­gio e, cling, já está. Há quem con­si­dera que deve ha­ver, além disso, cer­tos me­ca­nis­mos de con­trolo e re­gu­la­ção para que o povo possa im­ple­men­tar a sua so­be­ra­nia não ape­nas cada x anos. E de­pois es­ta­mos quem pen­sa­mos que a de­mo­cra­cia, para ser cha­mada de tal, deve sig­ni­fi­car que o povo tem o di­reito de de­ci­dir so­bre to­dos os as­pe­tos que lhe afe­tam, sem exceção. 

Não te­mos o di­reito a vi­ver­mos em ga­lego por­que não te­mos o di­reito a que nos fa­lem em galego

Uma das mui­tas ba­ta­lhas per­di­das con­tra o Clube* do 78 foi a da lín­gua. [*É um re­gime po­lí­tico, mas como os clu­bes in­gle­ses dos sé­cu­los XIX e XX, é uma ins­ti­tui­ção ob­so­leta, ra­cista e mi­só­gina fun­da­men­tada no ca­pi­ta­lismo e des­ti­nada a de­sa­pa­re­cer]. No nosso Estatuto de Autonomia re­co­lhe-se a obriga cons­ti­tu­ci­o­nal de sa­ber cas­te­lão (quem qui­ser ler “cas­te­lhano” está à von­tade, eu pre­firo essa forma) mas ape­nas o “di­reito” de apren­der ga­lego. Não a obriga. Isto, por in­de­pen­dente que pu­der pa­re­cer, está en­tron­cado no cerne da de­mo­cra­cia ga­lega: não te­mos o di­reito a vi­ver­mos em ga­lego por­que não te­mos o di­reito a que nos fa­lem em ga­lego, ao não ter nin­guém a obriga de aprendê-lo. 

Pouco me­nos de um mês após a ce­le­bra­ção da li­ber­dade em Portugal, a Galiza re­clama parte da sua pró­pria li­ber­dade: a vi­ver­mos da lín­gua do País, a lín­gua das nos­sas ve­lhas, que que­re­mos que seja das nos­sas cri­an­ças. A le­var­mos a nossa iden­ti­dade no bico, como o can­tar de Rosalia, e dar con­ti­nui­dade, per­meá­vel sem­pre às mu­dan­ças que o tempo nos traz, à nossa his­tó­ria. Por que as le­tras ga­le­gas se­jam as dos jor­nais ga­le­gos to­dos os dias, as dos li­vros de texto de Matemáticas, as dos what­sapps nesse grupo que tens con­tigo mesme com a lista da com­pra, a da bio do Tinder. 

E por isso –e por mais mo­ti­vos- é que a nossa de­mo­cra­cia não é bem tal. É um es­pe­tá­culo de lu­zes de neon para dar a im­pres­são que po­der es­co­lher en­tre frango, vi­tela e soja tex­tu­ri­zada é o mesmo que ter liberdade. 

E eu quero o ham­búr­guer com­pleto, por favor. 

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