Periódico galego de informaçom crítica

Caiu a máscara, as resistências crescem

por
Multitudinária ma­ni­fes­ta­ção na­ci­o­nal o 15 de de­zem­bro em Compostela con­tra a ma­cro ce­lu­losa Altri. / Plataforma Ulhoa Viva (2024)

A Galiza ferve no mundo rural com umha agitaçom inusitada contra os eólicos que bebe de lutas anteriores, enquanto a Altri resume hoje, no palco mediático, o mal-estar do país. O movimento de defesa do território ganha em autoconsciência e aprofunda os debates.

A gé­nese da Plataforma de Defesa da Ria de Arousa (PDRA) está numha luta co­mu­ni­tá­ria pola pro­pri­e­dade da ilha de Cortegada, que foi rou­bada por Afonso XIII e que, nos pri­mei­ros anos da tran­si­çom, pre­ten­dia ser her­dada pelo fi­lho, Dom Juan. Foi aquela umha luta sus­ten­tada ao longo do tempo que deu ex­pe­ri­ên­cia e ati­vis­tas à opo­si­çom à ins­ta­la­çom de umha planta de hi­dro­car­bo­ne­tos no porto de Vilagarcía, no fi­nal dos anos 80.

Xaquín Rubido, Xocas, pro­fes­sor, es­tivo en­vol­vido desde o iní­cio e hoje pre­side a PDRA. Ele fai um ba­lanço su­cinto dos avan­ços do mo­vi­mento de de­fesa do território.

«As par­tes in­te­res­sa­das nom se ex­pres­sam da mesma forma con­so­ante o mo­mento. Vam mu­dando. Hoje, a per­ce­çom que o PP tem de si mesmo é que pode fa­zer qual­quer cousa, que nom há cus­tos para o que fam, que som im­pu­nes. Há mais con­trolo da TVG, dos meios, e até con­se­guem pe­na­li­zar ati­vi­da­des como a apa­nha de ma­risco com mul­tas cons­tan­tes. Tenhem os ins­tru­men­tos para sub­ju­gar a so­ci­e­dade e uti­li­zam-nos», di.

«O des­prezo do Governo au­to­nó­mico polo Tribunal Superior de Justiça da Galiza (TSXG) é inau­dito, tal como a ten­ta­tiva de evi­tar os tri­bu­nais com su­ces­si­vas re­for­mas le­gais.  «A fi­lo­so­fia de açom da Junta é o abuso», cor­ro­bora Manuel Xermade, pre­si­dente da Acouga (Associaçom Galega de Consumidores e Utilizadores), com umha equipa de ju­ris­tas que já apre­sen­tou duas de­ze­nas de açons no Contencioso-Administrativo con­tra pro­je­tos de par­ques eólicos.

Joám Evans Pim, di­re­tor da Fundaçom Montescola, ati­vista ve­te­rano que acaba de pu­bli­car As mi­nas dos in­gle­ses: San Finx, umha in­ves­ti­ga­çom so­bre a re­sis­tên­cia co­mu­ni­tá­ria de dois sé­cu­los con­tra a ex­plo­ra­çom, opina que, no que toca às par­tes ins­ti­tu­ci­o­nais, “a si­tu­a­çom está pior do que há dez ou quinze anos. Hoje sa­be­mos que nom exis­tirá algo se­me­lhante a umha Administraçom neu­tra que zele polo in­te­resse ge­ral. A Junta tor­nou-se um mero braço do lobby cor­po­ra­tivo. Caiu a más­cara. Isto pro­vo­cou no mundo ru­ral a ati­va­çom de re­sis­tên­cias que es­ta­vam há dé­ca­das sem se ar­ti­cu­lar, como acon­tece com o mo­vi­mento antieólico».

Caiu a más­cara. A Junta tor­nou-se um mero braço do lobby cor­po­ra­tivo, e o mundo ru­ral ativa re­sis­tên­cias há dé­ca­das adormecidas.

Das re­sis­tên­cias que ex­pu­gé­rom a ver­da­deira face da Administraçom e das cor­po­ra­çons ener­gé­ti­cas fala tam­bém Aranza González, ve­te­ri­ná­ria e ati­vista an­ti­eó­lica na pla­ta­forma Ar Limpo nas Marinhas-Mandeu.

«O dis­curso de­les evo­luiu de­vido à con­tes­ta­çom que en­con­trá­rom. No iní­cio, nom da­vam ex­pli­ca­çons, fa­la­vam com os pre­si­den­tes de câ­mara e ig­no­ra­vam as pes­soas, acha­vam que o ca­mi­nho já es­tava des­bra­vado. Agora, de­di­cam-se a ven­der ilu­sons, a fa­zer-se pas­sar por bons, a ten­tar com­prar-nos. Tirámos-lhes a más­cara e ví­rom-se obri­ga­dos a li­dar com ques­tons con­cre­tas”, ex­plica, avan­çando o novo ca­rác­ter das re­sis­tên­cias: “Está a for­mar-se um grande mo­vi­mento, um mo­vi­mento de ca­rác­ter co­mu­ni­tá­rio, so­cial. Sim, há or­ga­ni­za­çons, mas a mai­o­ria do mo­vi­mento so­mos nós, vi­zi­nhos e vi­zi­nhas que nom per­ten­ce­mos a nada».

Plataforma Ulhoa Viva

DECRESCIMENTO E TRANSVERSALIDADE

A no­vi­dade surge a par­tir do dis­curso —«emerge umha crí­tica sis­té­mica, o de­cres­cen­tismo. Começámos a co­lo­car o foco nas al­ter­na­ti­vas: co­mu­ni­da­des ener­gé­ti­cas, des­cen­tra­li­za­çom e au­to­ges­tom, pe­gada eco­ló­gica, jus­tiça glo­bal«, di Joám Evans — e a par­tir da auto-or­ga­ni­za­çom — «a pers­pe­tiva de umha as­so­ci­a­çom am­bi­en­ta­lista e a do PDRA som di­fe­ren­tes. Movemo-nos com pes­soas di­ver­sas. O ob­je­tivo é ge­rar con­fi­ança e que toda a gente se sinta li­vre para se ex­pres­sar. A ma­neira de o con­se­guir é de­fi­nir um ho­ri­zonte co­mum para o con­junto de quem se está a mo­bi­li­zar», re­sume o Xocas.

Manuel García Docampo, so­ció­logo e pro­fes­sor da Faculdade de Sociologia da USC, au­tor de es­tu­dos so­bre a per­ce­çom pú­blica das ener­gias re­no­vá­veis, fala so­bre a es­tru­tura do mo­vi­mento: «Há um nú­cleo duro de ati­vis­tas cons­ci­en­tes e co­nhe­ce­do­res, que som tam­bém multi-mi­li­tan­tes; um se­gundo grupo de pes­soas com pre­o­cu­pa­çons e me­nos en­vol­vi­mento, mas que aju­dam a mo­bi­li­zar o ter­ceiro grupo, for­mado pela base. Vê-se a mesma es­tru­tura na mo­bi­li­za­çom con­tra as mi­nas, con­tra os eó­li­cos, con­tra a Altri, em­bora este úl­timo pa­reça um mo­vi­mento mais global».

O mo­vi­mento cresce e ga­nha no­vas es­tra­té­gias: crí­tica sis­tê­mica, des­cen­tra­li­za­ção ener­gé­tica e jus­tiça glo­bal en­tram no debate.

Quanto à per­ce­çom so­cial do «pro­blema», Docampo alerta que, no caso dos eó­li­cos, «os ex­tre­mos som mi­no­ri­tá­rios. Aqueles que se opo­nhem to­tal­mente à ener­gia eó­lica e aque­les que som to­tal­mente a fa­vor som gru­pos mi­no­ri­tá­rios. Numha pri­meira fase, os par­ques eó­li­cos nom ge­ra­vam grande opo­si­çom. Mas, numha se­gunda fase, che­gou-se à sa­tu­ra­çom. Assim, os no­vos pro­je­tos co­me­çá­rom a ge­rar mais oposiçom».

Voltando aos dis­cur­sos e à pe­ne­tra­çom so­cial, Docampo apre­cia um qua­dro. É um Nós/Eles. «Um Nós, que som os pre­ju­di­ca­dos e a ci­da­da­nia. Um Eles, que som a in­dús­tria, as gran­des mul­ti­na­ci­o­nais. E do lado da in­dús­tria está a Junta, que sai mal vista. Em ge­ral, o ci­da­dao per­cebe pou­cos be­ne­fí­cios nos eó­li­cos; as co­mu­ni­da­des de mon­tes, um pouco mais; e os mu­ni­cí­pios, tam­bém mais. Eu di­ria que no dis­curso nom se no­tam gran­des di­fe­ren­ças em re­la­çom ao da ‘na­va­lhada’ da au­to­es­trada. Nas ci­da­des, a pai­sa­gem nom tem va­lor ma­te­rial por­que o ru­ral é visto como um par­que. As va­cas som pai­sa­gem… Nas al­deias, en­ten­dem que há um va­lor ma­te­rial nom só na vaca, mas no todo».

«Mas na base po­pu­lar esse dis­curso nom acaba por ter su­cesso», in­siste. Na ci­da­da­nia pre­va­le­cem os va­lo­res ma­te­ri­ais. Entre a po­pu­la­çom, pre­va­le­cem os va­lo­res ma­te­ri­ais. «Digamos que os va­lo­res pós-ma­te­ri­ais, como os eco­ló­gi­cos, só en­tram em jogo quando os va­lo­res ma­te­ri­ais som sa­tis­fei­tos. O Prestige trouxe va­lo­res eco­ló­gi­cos du­rante al­gum tempo, mas aquilo nom dei­xou rasto», conclui.

ESTAMOSGANHAR?

«A so­ci­e­dade ci­vil está a des­per­tar. Nos tri­bu­nais, por exem­plo, es­ta­mos a ga­nhar. E isso é mui im­por­tante. No iní­cio, quando apre­sen­ta­vam um pro­jeto e vía­mos de ime­di­ato as suas fa­lhas, pen­sá­va­mos: ‘aqui há algo que nos está a es­ca­par’. Mas, com o pas­sar do tempo, per­ce­be­mos que som muito in­com­pe­ten­tes. Estám sem­pre a fa­lar de in­se­gu­rança ju­rí­dica… para in­se­gu­rança ju­rí­dica, a nossa!», pro­testa Manuel Xermade.

«Da nossa parte, fo­mos ga­nhando co­nhe­ci­mento e umha vi­som mais am­pla. Para além da de­nún­cia das prá­ti­cas co­lo­ni­ais de es­po­li­a­çom, agora ve­mos que ve­nhem para fi­car com o ter­ri­tó­rio e com a água, e que, por trás do plano A, te­nhem o B e o C…», opina Aranza González. E re­sume: «Se a sua es­tra­té­gia era can­sar-nos, o que con­se­guí­rom foi mo­bi­li­zar mui­tas mais pes­soas. Já es­ta­mos or­ga­ni­za­dos, te­mos as fer­ra­men­tas e sa­be­mos ao que venhem».

O último de Em movimento

I‑le-gal

A vizinhança comuneira de Tameiga, em Mos, leva anos luitando contra o
Ir Acima