
A Galiza ferve no mundo rural com umha agitaçom inusitada contra os eólicos que bebe de lutas anteriores, enquanto a Altri resume hoje, no palco mediático, o mal-estar do país. O movimento de defesa do território ganha em autoconsciência e aprofunda os debates.
A génese da Plataforma de Defesa da Ria de Arousa (PDRA) está numha luta comunitária pola propriedade da ilha de Cortegada, que foi roubada por Afonso XIII e que, nos primeiros anos da transiçom, pretendia ser herdada pelo filho, Dom Juan. Foi aquela umha luta sustentada ao longo do tempo que deu experiência e ativistas à oposiçom à instalaçom de umha planta de hidrocarbonetos no porto de Vilagarcía, no final dos anos 80.
Xaquín Rubido, Xocas, professor, estivo envolvido desde o início e hoje preside a PDRA. Ele fai um balanço sucinto dos avanços do movimento de defesa do território.
«As partes interessadas nom se expressam da mesma forma consoante o momento. Vam mudando. Hoje, a perceçom que o PP tem de si mesmo é que pode fazer qualquer cousa, que nom há custos para o que fam, que som impunes. Há mais controlo da TVG, dos meios, e até conseguem penalizar atividades como a apanha de marisco com multas constantes. Tenhem os instrumentos para subjugar a sociedade e utilizam-nos», di.
«O desprezo do Governo autonómico polo Tribunal Superior de Justiça da Galiza (TSXG) é inaudito, tal como a tentativa de evitar os tribunais com sucessivas reformas legais. «A filosofia de açom da Junta é o abuso», corrobora Manuel Xermade, presidente da Acouga (Associaçom Galega de Consumidores e Utilizadores), com umha equipa de juristas que já apresentou duas dezenas de açons no Contencioso-Administrativo contra projetos de parques eólicos.
Joám Evans Pim, diretor da Fundaçom Montescola, ativista veterano que acaba de publicar As minas dos ingleses: San Finx, umha investigaçom sobre a resistência comunitária de dois séculos contra a exploraçom, opina que, no que toca às partes institucionais, “a situaçom está pior do que há dez ou quinze anos. Hoje sabemos que nom existirá algo semelhante a umha Administraçom neutra que zele polo interesse geral. A Junta tornou-se um mero braço do lobby corporativo. Caiu a máscara. Isto provocou no mundo rural a ativaçom de resistências que estavam há décadas sem se articular, como acontece com o movimento antieólico».
Caiu a máscara. A Junta tornou-se um mero braço do lobby corporativo, e o mundo rural ativa resistências há décadas adormecidas.
Das resistências que expugérom a verdadeira face da Administraçom e das corporaçons energéticas fala também Aranza González, veterinária e ativista antieólica na plataforma Ar Limpo nas Marinhas-Mandeu.
«O discurso deles evoluiu devido à contestaçom que encontrárom. No início, nom davam explicaçons, falavam com os presidentes de câmara e ignoravam as pessoas, achavam que o caminho já estava desbravado. Agora, dedicam-se a vender ilusons, a fazer-se passar por bons, a tentar comprar-nos. Tirámos-lhes a máscara e vírom-se obrigados a lidar com questons concretas”, explica, avançando o novo carácter das resistências: “Está a formar-se um grande movimento, um movimento de carácter comunitário, social. Sim, há organizaçons, mas a maioria do movimento somos nós, vizinhos e vizinhas que nom pertencemos a nada».

DECRESCIMENTO E TRANSVERSALIDADE
A novidade surge a partir do discurso —«emerge umha crítica sistémica, o decrescentismo. Começámos a colocar o foco nas alternativas: comunidades energéticas, descentralizaçom e autogestom, pegada ecológica, justiça global«, di Joám Evans — e a partir da auto-organizaçom — «a perspetiva de umha associaçom ambientalista e a do PDRA som diferentes. Movemo-nos com pessoas diversas. O objetivo é gerar confiança e que toda a gente se sinta livre para se expressar. A maneira de o conseguir é definir um horizonte comum para o conjunto de quem se está a mobilizar», resume o Xocas.
Manuel García Docampo, sociólogo e professor da Faculdade de Sociologia da USC, autor de estudos sobre a perceçom pública das energias renováveis, fala sobre a estrutura do movimento: «Há um núcleo duro de ativistas conscientes e conhecedores, que som também multi-militantes; um segundo grupo de pessoas com preocupaçons e menos envolvimento, mas que ajudam a mobilizar o terceiro grupo, formado pela base. Vê-se a mesma estrutura na mobilizaçom contra as minas, contra os eólicos, contra a Altri, embora este último pareça um movimento mais global».
O movimento cresce e ganha novas estratégias: crítica sistêmica, descentralização energética e justiça global entram no debate.
Quanto à perceçom social do «problema», Docampo alerta que, no caso dos eólicos, «os extremos som minoritários. Aqueles que se oponhem totalmente à energia eólica e aqueles que som totalmente a favor som grupos minoritários. Numha primeira fase, os parques eólicos nom geravam grande oposiçom. Mas, numha segunda fase, chegou-se à saturaçom. Assim, os novos projetos começárom a gerar mais oposiçom».
Voltando aos discursos e à penetraçom social, Docampo aprecia um quadro. É um Nós/Eles. «Um Nós, que som os prejudicados e a cidadania. Um Eles, que som a indústria, as grandes multinacionais. E do lado da indústria está a Junta, que sai mal vista. Em geral, o cidadao percebe poucos benefícios nos eólicos; as comunidades de montes, um pouco mais; e os municípios, também mais. Eu diria que no discurso nom se notam grandes diferenças em relaçom ao da ‘navalhada’ da autoestrada. Nas cidades, a paisagem nom tem valor material porque o rural é visto como um parque. As vacas som paisagem… Nas aldeias, entendem que há um valor material nom só na vaca, mas no todo».
«Mas na base popular esse discurso nom acaba por ter sucesso», insiste. Na cidadania prevalecem os valores materiais. Entre a populaçom, prevalecem os valores materiais. «Digamos que os valores pós-materiais, como os ecológicos, só entram em jogo quando os valores materiais som satisfeitos. O Prestige trouxe valores ecológicos durante algum tempo, mas aquilo nom deixou rasto», conclui.
ESTAMOS A GANHAR?
«A sociedade civil está a despertar. Nos tribunais, por exemplo, estamos a ganhar. E isso é mui importante. No início, quando apresentavam um projeto e víamos de imediato as suas falhas, pensávamos: ‘aqui há algo que nos está a escapar’. Mas, com o passar do tempo, percebemos que som muito incompetentes. Estám sempre a falar de insegurança jurídica… para insegurança jurídica, a nossa!», protesta Manuel Xermade.
«Da nossa parte, fomos ganhando conhecimento e umha visom mais ampla. Para além da denúncia das práticas coloniais de espoliaçom, agora vemos que venhem para ficar com o território e com a água, e que, por trás do plano A, tenhem o B e o C…», opina Aranza González. E resume: «Se a sua estratégia era cansar-nos, o que conseguírom foi mobilizar muitas mais pessoas. Já estamos organizados, temos as ferramentas e sabemos ao que venhem».



