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Isabel Rei: “Desenvolveu-se a ideia da ‘guitarra espanhola’ apesar de na Galiza termos história do seu uso desde o século XII

por
ena bar­ba­zán

Com a sua tese de doutoramento ‘A guitarra na Galiza’ Isabel Rei Samartim expom o produto de anos de investigaçom: um alargado leque de documentos que mostram a tradiçom do uso deste instrumento no nosso país até o século XIX. Ademais da tese, Rei Samartim publicou na editorial Através ‘Guitarra Galega. Breve História da viola (violão) na Galiza’, onde divulga as ideias fundamentais da tese e acrescenta um breve capítulo sobre o século XX, época que a autora continua a investigar.

Um dos mo­ti­vos des­tes tra­ba­lhos foi re­co­nhe­cer a exis­tên­cia do uso da gui­tarra na Galiza. Entendo que era algo que já per­ce­bias pre­vi­a­mente, mas quais fô­rom es­sas in­tui­çons e como foi unir os ca­bos soltos? 

Começou todo no ano 2000, quando tra­ba­lhava em Cangas do Morraço. Véu um se­nhor pola Escola de Música, que re­sul­tou ser o pro­fes­sor da Universidade de Vigo Iago Santos Castroviejo, que me dixo que se ano­tara na Escola para apren­der a to­car na gui­tarra as pe­ças do seu pai. A pri­meira pre­gunta foi: ‘E quem é o teu pai? Tem pe­ças com­pos­tas para gui­tarra?’ E as­sim era. Intuim a par­tir de aí e mais da base de que meu ir­mao era gui­tar­rista can­tau­tor e que ti­nha ou­tros ami­gos que tam­bém eram gui­tar­ris­tas. Ao dia se­guinte, vem Iago Santos Castroviejo com umha par­ti­tura fa­mi­liar de 6 pe­ças do seu pai. Eram es­pe­ta­cu­la­res e di­gem-lhe que ia es­tudá-las. Figem umha en­tre­vista ao pai, Luis Eugenio Santos Sequeiros. Agora acabo de gra­var um disco no mês de maio que conta com duas pe­ças dele.

Em 2006 che­gou José Luis do Pico Orjais, rein­te­gra­ci­o­nista e mu­si­có­logo, e dixo-me que na Estrada a fa­mí­lia Valadares ti­nha mú­sica. Fomos ali e en­con­tra­mos a co­le­çom de mú­sica desta fa­mí­lia. É umha das mai­o­res co­le­çons de mú­sica que te­mos na Galiza. Som quase 700 obras para vá­rios ins­tru­men­tos. Para gui­tarra som 131 e o resto para pi­ano, flauta, vi­o­lino, canto…  No 2006 já foi o em­pur­rom forte. Em 2000 sus­pei­tava, em 2006 já fum ori­en­tada e logo a tese ma­tri­cu­lei-na no 2013. Som uns 20 anos. É todo um pro­cesso vi­tal, eu apren­dim mui­tís­simo fa­zendo isto. 

Apontas que em fi­nais do sé­culo XIX é quando se cons­trói o con­ceito de ‘gui­tarra es­pa­nhola’ e que isto apa­gou a gui­tarra ga­lega. 

É en­tom que co­meça a in­tro­du­zir-se essa ideia da ‘gui­tarra es­pa­nhola’ por­que co­me­çam a cons­truir a Espanha como na­çom única. E a pro­pa­ganda tivo su­cesso, en­tom o pes­soal co­me­çou a de­sen­vol­ver a ideia da ‘gui­tarra es­pa­nhola’ ape­sar de ter his­tó­ria de uso de gui­tar­ras desde o sé­culo XII. Havia mui­tís­si­mos ho­mens e mu­lhe­res to­cando gui­tarra no sé­culo XIX na Galiza. E já na se­gunda me­tade deste sé­culo es­tám por toda a parte. É o ‘boom’ das or­ques­tras de gui­tar­ras no úl­timo terço. Está a to­car-se a gui­tarra por todo o país mas a ideia da ‘gui­tarra es­pa­nhola’ ad­quire essa re­le­vân­cia e, so­bre todo ao longo do sé­culo XX, pro­duze-se esse alhe­a­mento: se é um ins­tru­mento es­pa­nhol já nom é ga­lego e nom se toca com ele mú­sica ga­lega. Como se nom hou­vesse tam­bém gui­tarra na França, na Alemanha, na Inglaterra ou na Itália! Ou mesmo em Portugal, onde con­ser­vam as di­fe­ren­tes for­mas e ta­ma­nhos das vi­o­las, as­so­ci­a­das à mú­sica po­pu­lar. Precisamente, mais po­pu­la­res nom po­dem ser.


Em Portugal con­ser­vam as di­fe­ren­tes for­mas e ta­ma­nhos das vi­o­las que ha­via no sé­culo XIX, as­so­ci­a­das à mú­sica po­pu­lar. Precisamente, mais po­pu­la­res nom po­dem ser”

Ainda as­sim, existe certa vin­cu­la­çom en­tre a gui­tarra e o ga­le­guismo, nom é? 

Sim, com Rosalia e Curros Enríquez, por exem­plo. Foi o gui­tar­rista Cesáreo Alonso Salgado que fijo a peça de ‘Cántiga’, o fa­moso po­ema de Curros. Conta Curros que eles dous es­ta­vam em Madrid no quarto onde dur­miam quando es­tu­da­vam Direito. Entom Cesáreo Alonso Salgado, que era de Trives, to­cava umha moi­nheira na sua gui­tarra e Curros gos­tou tanto que o ins­pi­rou e fijo o po­ema. Fai-se essa can­çom e chega a Ourense, onde se po­pu­la­riza e muda o pri­meiro verso. Logo chega Curros a Ourense escuta‑a e di que nom é o seu po­ema, que nom é ‘umha noite na eira do trigo’ se­nom ‘no jar­dim umha noite sen­tada’. Curros enfadou-se 

Também ‘Chané’ foi um ícone ga­le­guista, ainda que nom se mos­trasse como na­ci­o­na­lista nom ti­nha nen­gum in­con­ve­ni­ente em fa­zer a mú­sica mais ga­lega que con­se­guisse fazer. 

Outra vin­cu­la­çom do sé­culo XX é ‘A Rianxeira’. Foi com­posta por dous ri­an­xei­ros em Buenos Aires para a che­gada de Castelao. Quando Castelao che­gou exi­li­ado é re­ce­bido com esta can­çom, que ti­nha umha le­tra di­fe­rente da que a gente canta agora. Aí o fran­quismo atuou ao ver que se po­pu­la­ri­zava. Foi gra­vada com umha or­ques­tra de gui­tar­ras de Buenos Aires, for­mada por gen­tes ga­le­gas num cen­tro galego.

Avelina Valadares é umha au­tora que nom está mui con­si­de­rada mas é umha po­eta ga­le­guista, que es­cre­veu em cas­te­lhano mas tam­bém em ga­lego. Com ‘g’ e ‘j’, como era a pro­posta do seu ir­mao, Marcial Valadares. E mesmo Castelao to­cava a guitarra.

fi­gura de mu­lher com gui­tarra. peça do sé­culo XVI co­lo­cada na fa­chada da igreja de Santiago do Deão, na Póvoa do Caraminhal, junto ou­tra fi­gura de um ho­mem a to­car um ins­tru­mento de so­pro (isa­bel rei samartim)

Como é a pre­sença da mu­lher neste instrumento? 

Temos ta­lhas em pe­dra duas mu­lhe­res gui­tar­ris­tas fan­tás­ti­cas, umha do sé­culo XVI e ou­tra do XVIII. Em Lisboa sa­bem que as mu­lhe­res do sé­culo XV aju­da­vam os seus ma­ri­dos que eram cons­tru­to­res de gui­tarra. Elas fa­ziam as cor­das. Havia umha di­vi­som do tra­ba­lho, mas tra­ba­lha­vam nas cons­tru­çom das gui­tar­ras e é mui es­tra­nho tra­ba­lhar na cons­tru­çom de gui­tar­ras e nom sa­ber to­car algo. Aqui nom sa­be­mos ainda se houvo isso.

Também as pros­ti­tu­tas. Há vá­rios do­cu­men­tos no­ta­ri­ais de plei­tos por gui­tar­ras e às ve­zes as gui­tar­ras per­dem-se nos pros­tí­bu­los. Há al­gumha moça que fica com a gui­tarra. Nom fi­cas com umha gui­tarra se nom é para vendé-la, por­que achas va­li­os­sís­sima, ou por­que sa­bes to­car. De mu­lhe­res pros­ti­tu­tas que to­cam a gui­tarra na Catalunha sa­bem desde o sé­culo XIV. E te­mos a Maria Balteira, em Betanços no sé­culo XIII. Nom há do­cu­men­tos que tes­te­mu­nhem que to­casse a vi­ola de mao, mas era o ins­tru­mento que to­ca­vam na época.

Avelina Valadares, no sé­culo XIX, que é im­por­tante por­que tem a pri­meira obra, ou obra mais an­tiga que co­nhe­ce­mos, es­crita para gui­tarra por umha mu­lher ga­lega, no sé­culo XIX foi ela que a dei­xou es­crita. Também es­cre­veu para pi­ano. Está tam­bém Rosalia, e Paz Armesto de Quiroga, que foi umha gui­tar­rista que de­pois mar­chou para Barcelona. 

No sé­culo XX há al­gumha moça que nom se sabe quem é, de vila, que acom­pa­nhava. Logo gente mais co­nhe­cida que pu­bli­cou algo de mú­sica, Concha Plantón Meilán, de Lugo. Dela tam­bém gra­vei umha peça. 

Há gui­tar­ris­tas como para di­zer que nom era um ins­tru­mento ex­clu­si­va­mente de ho­mens, mas o mundo pa­tri­ar­cal pesa muito. Está o exem­plo de Miss Zaida, que nom era ga­lega mas to­cou aqui muito. Semelha ser que era de Logronho e é umha das ar­tis­tas de fi­nais do sé­culo XIX, que é quando co­meça a des­pon­tar a mu­lher como ar­tista. Ela era umha vir­tu­osa da ban­dur­ria e vaia co­men­tá­rios saiam às ve­zes nos jor­nais. Umha fi­gura como essa na Galiza nom a en­con­trei ainda.

Quais som as li­nhas de tra­ba­lho que vás se­guir para es­tu­dar a gui­tarra ga­lega do sé­culo XX?

Descobrir o que acon­te­ceu exa­ta­mente com a re­du­çom da va­ri­e­dade de ins­tru­men­tos pró­pria do XIX. Também ana­li­sar a falta de cri­a­ti­vi­dade mu­si­cal que se apre­cia a par­tir da pós-guerra, pois só se­guem a to­car-se as mes­mas qua­tro ou cinco pe­ças dos mes­mos mú­si­cos do sé­culo XIX: Montes, ‘Chané’ e Veiga.

Também con­ti­nuar per­se­guindo como se cons­truiu his­to­ri­o­gra­fi­ca­mente a ‘gui­tarra es­pa­nhola’ e como puido afe­tar. Ainda que penso que du­rante o fran­quismo o que mais afeta é a si­tu­a­çom po­lí­tica. Nom po­des pen­sar pola tua conta, nem fa­zer cou­sas galegas.

E da fol­clo­ri­az­çom da mú­sica ga­lega tam­bém se en­car­re­gou o fran­quismo. Há mui­tos de­ta­lhes que fô­rom cri­a­dos du­rante a pri­meira etapa do fran­quismo. Pugerom-se à ta­refa de nós cons­truir, fol­clo­ri­zar e re­du­zir. Assim, as li­nhas som ana­li­sar o que acon­te­ceu aí, e tam­bém ver a mú­sica de au­to­ria ga­lega que te­mos, que é bastante.

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