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Qual segurança é precisa?

por
héc­tor ba­ran­dela

Na Roma Antiga era ha­bi­tual re­pre­sen­tar a deusa Securitas com uma lança e com uma cor­nu­có­pia. A lança é sím­bolo da força pú­blica que ga­rante a or­dem so­cial e por sua vez a cor­nu­có­pia é sím­bolo da abun­dân­cia. Esta re­pre­sen­ta­ção da Securitas ilus­tra bem que o con­ceito mesmo de se­gu­rança é cer­ta­mente po­lis­sê­mico. As mi­nhas pre­o­cu­pa­ções so­bre se­gu­rança não ne­ces­sa­ri­a­mente se­rão par­ti­lha­das por to­das as pes­soas que con­for­mam a so­ci­e­dade. 

Esse con­traste en­tre di­fe­ren­tes no­ções de se­gu­rança per­cebe-se bem no filme Parasitas, por exem­plo. Lá, uma fa­mí­lia rica tem a cons­tante pre­o­cu­pa­ção de pro­te­ger a sua pro­pri­e­dade e o seu bem-es­tar. Para isso, conta com tec­no­lo­gia de vi­gi­lân­cia, uma re­si­dên­cia si­tu­ada em uma ur­ba­ni­za­ção se­gura, e uma se­rie de pro­fis­si­o­nais que vi­sam co­brir as ne­ces­si­da­des da fa­mí­lia. Estas pre­o­cu­pa­ções con­tras­tam com a ou­tra fa­mí­lia pro­ta­go­nista, an­ta­go­nista da pri­meira, onde as pre­o­cu­pa­ções se cen­tram em sa­tis­fa­zer duas ne­ces­si­da­des bá­si­cas, no­me­a­da­mente, ha­bi­ta­ção e ali­men­ta­ção.

Mesmo as­sim, quando na es­fera pú­blica se fala de se­gu­rança, é a pri­meira das con­cei­ções a que adoita pre­va­le­cer. Assim, por exem­plo, na le­gis­la­ção es­pa­nhola, quando se re­gula a se­gu­rança ci­dadã, são re­gu­la­das as in­ter­ven­ções po­li­ci­ais e os de­ve­res das pes­soas quanto ao man­ti­mento da or­dem pú­blica. É tam­bém certo que existe uma nor­ma­tiva so­bre se­gu­rança so­cial, que faz parte de um fraco Estado so­cial, con­tudo o con­ceito he­gemô­nico de se­gu­rança quando se abor­dam po­lí­ti­cas pú­blica é o pri­meiro.

Na le­gis­la­ção es­pa­nhola, quando se re­gula a se­gu­rança ci­dadã, são re­gu­la­das as in­ter­ven­ções po­li­ci­ais e os de­ve­res das pes­soas quanto ao man­ti­mento da or­dem pú­blica.

A re­la­ção en­tre am­bas no­ções de se­gu­rança pôr-se‑á de ma­ni­festo nas ex­pli­ca­ções pro­gres­sis­tas so­bre as cau­sas e so­bre as cor­res­pon­den­tes so­lu­ções aos fenô­me­nos cri­mi­nais. Se na cos­mo­vi­são con­ser­va­dora a causa do crime é prin­ci­pal­mente a es­co­lha pes­soal do in­di­ví­duo; na vi­são pro­gres­sista as cir­cuns­tân­cias so­ci­ais que ro­deiam o de­lin­quente têm um pa­pel im­por­tante para ex­pli­car os de­li­tos. Certamente, fa­to­res como a classe so­cial, o sta­tus so­cial ou o gê­nero es­tão for­te­mente cor­re­la­ci­o­na­dos com di­fe­ren­tes ca­te­go­rias cri­mi­no­sas. Por essa ra­zão, afi­gura-se ra­zoá­vel in­ci­dir em tais cir­cuns­tân­cias so­ci­ais para abor­dar a cri­mi­na­li­dade.

Desinvestir na po­lí­cia

Tal é a pro­posta do mo­vi­mento Defund the Police –de­sin­ves­tir na po­lí­cia–, nas­cido dé­ca­das há nos Estados Unidos, mas com uma pro­je­ção re­for­çada de­pois dos pro­tes­tos pelo as­sas­si­nato do George Floyd. A pro­posta prin­ci­pal do mo­vi­mento con­siste, pri­meiro, em re­du­zir o or­ça­mento pú­blico para la­bo­res po­li­ci­ais e, se­gundo, em des­ti­nar essa re­du­ção à ga­ran­tia de di­rei­tos so­ci­ais como a ha­bi­ta­ção, a ali­men­ta­ção e a edu­ca­ção, ou­tor­gando as­sim uma me­lhor pers­pe­tiva de fu­turo para os co­le­ti­vos mais vul­ne­rá­veis. 

Certamente, nos EUA a ge­ne­a­lo­gia dos cor­pos po­li­ci­ais está li­gada ao man­ti­mento da do­mi­na­ção ra­cial, como bem ex­pli­cava o rap­per KRS-One na sua can­ção “Sound of da po­lice”, o qual con­verte esta de­manda em ur­gente por parte do mo­vi­mento an­tir­ra­cista, como tem des­ta­cado a Angela Davis, quem vai além de de­man­dar o de­sin­ves­ti­mento para exi­gir a abo­li­ção não uni­ca­mente da po­lí­cia, mas tam­bém do sis­tema car­ce­rá­rio e da pena de morte em aquele país; tudo o qual faz parte de uma in­dús­tria pe­ni­ten­ciá­ria que é pa­ra­si­tá­ria do or­ça­mento pú­blico. Essa es­treita li­ga­ção en­tre po­lí­cia e ra­cismo pro­voca que a crí­tica da po­lí­cia seja nos EUA muito mais forte e es­teja ven­ce­lhada a mo­men­tos de pico do mo­vi­mento ne­gro.

héc­tor ba­ran­dela

A si­tu­a­ção em Espanha é bem di­fe­rente: em fi­nais de maio deste ano o mi­nis­tro Fernando Grande-Marlaska de­ci­diu au­men­tar com efeito re­tro­a­tivo um 20% o sa­lá­rio dos agen­tes de po­lí­cia, mesmo con­tra­ri­ando o li­mite de gasto im­posto pelo pró­prio go­verno me­ses atrás. Tudo em um Estado que du­plica a taxa de po­lí­cias por 100 mil ha­bi­tan­tes da Dinamarca e que qua­dri­plica a de Hungria. Na atu­a­li­dade, um ofi­cial da es­cala bá­sica da po­lí­cia já co­brava mais do que um pro­fes­sor dou­tor de uni­ver­si­dade ou do que um en­fer­meiro do Sergas. O Ministério do Interior é o ter­ceiro em gasto, por de­trás do Ministério de Defesa.

Certamente, o in­ves­ti­mento em sub­sí­dios ao de­sem­prego, pen­sões e saúde –na soma to­tal da pú­blica e a pri­vada– con­têm par­ti­das mai­o­res do que a po­lí­cia, mas ainda fi­cam mui­tos ou­tros di­rei­tos so­ci­ais sem co­brir –ha­bi­ta­ção, edu­ca­ção su­pe­rior, acesso à cul­tura, cer­tos ser­vi­ços sa­ni­tá­rios, ali­men­ta­ção sau­dá­vel– que, ante uma even­tual crise econô­mica de­vem ser ob­je­tivo pri­o­ri­tá­rio de in­ves­ti­mento pú­blico. Nesse sen­tido, o de­sin­ves­ti­mento em po­lí­cia pode ser um ponto de par­tida para afor­rar re­cur­sos que po­dem ser­vir para ga­ran­tir a se­gu­rança das pes­soas.

Mudar o con­ceito de se­gu­rança

Além disso, pa­rece opor­tuno ex­pan­dir o nosso con­ceito de se­gu­rança, tam­bém no que tem a ver com a se­gu­rança ci­dadã. A par­tir de uma in­tensa po­lí­tica de po­li­ci­a­li­za­ção, a nossa so­ci­e­dade já cos­tuma fa­zer uma abor­da­gem da se­gu­rança ci­dadã tão só desde esse prisma. Para des­po­li­ci­a­li­zar­mos esta con­cei­ção torna-se de grande uti­li­dade aten­der, por exem­plo, as pro­pos­tas fe­mi­nis­tas so­bre se­gu­rança, cuja aná­lise abrange desde a se­gu­rança in­ter­na­ci­o­nal até a do­més­tica, pondo de re­levo a ne­ces­si­dade de in­ci­dir em âm­bi­tos tão he­te­ro­gé­neos como a edu­ca­ção, o ur­ba­nismo ou os ser­vi­ços so­ci­ais para ga­ran­tir a se­gu­rança das mu­lhe­res.

Mas tam­bém pode ser afir­mado que as pró­prias nor­mas ju­rí­di­cas so­bre se­gu­rança ci­dadã criam gra­ves si­tu­a­ções de in­se­gu­rança. Por exem­plo, a le­gis­la­ção que li­mita os di­rei­tos e per­se­gue pes­soas es­tran­gei­ras pelo feito de não te­rem pa­péis. Para es­tas pes­soas, à in­se­gu­rança agra­vada so­bre a sua si­tu­a­ção econô­mica, une-se a in­se­gu­rança so­bre a sua si­tu­a­ção ad­mi­nis­tra­tiva e so­bre a sua pró­pria li­ber­dade pes­soal, ao vi­ve­rem baixo per­ma­nente ame­aça de ex­pul­são. Se de­se­ja­mos re­al­mente ga­ran­tir a se­gu­rança ci­dadã de to­das as pes­soas, tais nor­mas ju­rí­di­cas de­vem ser der­ro­ga­das com ur­gên­cia. O mesmo se pode di­zer de ti­pos pe­nais ou san­ci­o­na­do­res ad­mi­nis­tra­ti­vos que oca­si­o­nam uma grande in­se­gu­rança na ci­da­da­nia, pela sua in­de­ter­mi­na­ção.

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